Elogio da pergunta incómoda

 Elogio da pergunta incómoda

(wallpapers.com)

Com assinalável frequência, a ficção – seja literária, cinematográfica ou seriada – afirma-se como um dos espaços mais férteis para a problematização da condição humana. Talvez esta circunstância decorra da sua aptidão para projetar cenários hipotéticos que, embora se afastem da experiência imediata, permanecem ancorados em possibilidades concretas do real. Não obstante esta distância, que inevitavelmente separa o imaginado do vivido, multiplicam-se as narrativas que transitam de um plano para o outro – tanto mais num tempo em que o próprio mundo se reconfigura incessantemente.

(Freepik – comeceodiafeliz.com.br)

O espaço que, aqui, partilho tem sido, em larga medida, habitado pelos livros. Desta vez, porém, desviemos o olhar para um outro território narrativo: a série “Designated Survivor”, disponível na Netflix. Aos que se interessam por política e comunicação, a recomendação impõe-se. Algures, na segunda temporada, o presidente fictício dos Estados Unidos da América, Tom Kirkman, vê-se confrontado com uma questão de natureza profundamente íntima: a eventualidade de não ser o pai biológico daquele que sempre reconheceu como filho. A partir deste momento, desencadeado por uma jornalista, a tensão narrativa vai-se adensando. O próprio tecido relacional das personagens, em linha com o que sucede em contextos marcados pela polémica, vai sendo, gradualmente, atravessado por um sentimento de inquietação e por uma atmosfera de hostilidade.

Na série “Designated Survivor”,  o presidente fictício dos Estados Unidos da América, Tom Kirkman, vê-se confrontado com uma questão de natureza profundamente íntima. (screenrant.com)

Com o avançar dos episódios, já sob evidentes sinais de desgaste, Kirkman opta por se submeter a um teste de paternidade. O resultado dissipa qualquer dúvida: é, de facto, o pai da criança. Perante este desfecho, a jornalista responsável pela investigação opta por apresentar a sua demissão. Seria expectável, dada a gravidade das implicações do caso, que o Presidente acolhesse essa decisão sem resistência. A resposta de Tom Kirkman, todavia, distancia-se de qualquer impulso de ressentimento: declina o pedido. Reconhece a legitimidade da investigação, reafirma o valor do escrutínio e sublinha que as perguntas difíceis, colocadas por jornalistas exigentes, concorrem para elevar a qualidade da ação política.

A cena, embora inscrita no domínio da ficção, condensa uma intuição solidamente enraizada na realidade: a qualidade da vida democrática mede-se, em larga medida, pelos méritos – e pela liberdade – do jornalismo que a acompanha. Trata-se de uma ideia amplamente sustentada pela investigação académica. Basta convocar os contributos de Michael Schudson ou de Viktor Pickard, em obras que vão de “Why Democracies Needs An Unlovable Press” a “Democracy Without Journalism?”. Os seus argumentos convergem numa premissa fundamental: a democracia pressupõe a existência de uma opinião pública informada, robusta e capaz de exercer um juízo crítico – condição que depende, por sua vez, de meios de comunicação social autónomos e dotados de capacidade efetiva de escrutínio.

(Direitos reservados)

Quando o responsável político se esquiva à pergunta incómoda, afasta-se da própria racionalidade democrática. Mais grave se torna esta ação quando se prolonga através do condicionamento ou da obstrução do exercício jornalístico. A democracia, muito para além do instante eleitoral, assenta num regime de exposição contínua à crítica. E esta exposição não pode, em circunstância alguma, depender da disposição circunstancial de quem governa. Neste sentido, agentes políticos que manifestem desconforto perante o olhar crítico do jornalismo não são apenas maus comunicadores: tornam-se, eles próprios, elementos problemáticos para o funcionamento da democracia. No mínimo, deixam a descoberto a incapacidade para conviver com as exigências que este sistema inevitavelmente impõe.

Concluo como iniciei: vejam “Designated Survivor”. E façam-no não só como ficção, mas como exercício de reflexão sobre o lugar do escrutínio na vida democrática.

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16/04/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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