Brasil, meu Brasil brasileiro (1)

 Brasil, meu Brasil brasileiro (1)

Os vira-latas conquistaram o coração dos brasileiros. (petz.com.br)

Nelson Rodrigues, o dramaturgo certeiro, uma certa vez saiu com essa: “O brasileiro tem complexo de vira-lata.” Referia-se à percepção de o brasileiro mais parecer um cão rafeiro, sem raça. O que, a meu ver, talvez se explique no facto de que, desde o período colonial e mais ainda no imperial, foi induzido a crer que o que havia de superior, o melhor, se encontrava mais adiante: naqueles tempos por dentro da cultura eurocêntrica, já no tempo republicano, através do cinema, com o olhar foi dirigido para a cultura norte-americana a ser a referência.

Dramaturgo Nelson Rodrigues. (livrobingo.com.br)

Tudo sugeria ser melhor “Na Terra de Marlboro”1, ofertada glamourizada. O Brasil se subestima. Basta dar uma olhada para as chamadas turísticas veiculadas e logo nos damos conta de que haverá sempre um esbarro no complexo de vira-lata comum ao brasileiro. Vejamos, então! 

Visite São Luís, a Atenas brasileira (por vezes, Jamaica brasileira). Atenas enquanto ego inflado dos seus parcos escritores, Jamaica pelo reggae que embala as suas noites. Em todo caso não se fala na semelhança arquitetónica com Lisboa, os casarões azulejados também podem ser franceses a disputar com os outros portugueses o esquecimento tático: perigam trazer de volta o ideal monárquico ou o da França Antártica.

São Luís, para o momento, só tem a memória do seu permanente vento. Não é lugar para eu estar a levar até lá o meu olhar luso-brasileiro.

São Luís do Maranhão (Créditos fotográficos: Meireles Junior – acordacidade.com.br)

Alter do Chão, no Pará, tem praia, mas de rio, ainda assim confere-se o epíteto de estar a oferecer o verdadeiro Caribe brasileiro. Maragogi e Arraial do Cabo entraram na disputa, aparentemente nenhuma delas quer ser só brasileira. Ademais, Santarém, a meu ver é uma cidade portuguesa transplantada para o exacto local de encontro do rio Tapajós com o rio Amazonas.

Trata-se de uma cidade que dispõe de uma portugalidade arquitetónica tão resiliente como a floresta. Mas o turista quer praia. Portanto, é seduzido a caribear nas suas férias. Também não se adequa para eu estar lá a levar a minha luso-brasileiridade. Os olhares todos dirigidos pela indústria do turismo parecem negar Portugal no Brasil. Que pena! De resto, o brasileiro, ao sentir-se bem longe de si, se ausenta, se põe a buscar a Holanda em Holambra, a Suíça em Gramado e Campos do Jordão, aqueles montes verdes sem o cinza dos Alpes que expelem aroma de chocolate, sempre encontrável naquelas construções helvéticas.

Alter do Chão é a praia de água doce mais bonita do Mundo, segundo o jornal The Guardian. (Créditos fotográficos: Lucia Barreiros da Silva – pt.wikipedia.org)

Em Curitiba são fartas as amostras da Polónia, da Ucrânia e, se calhar, até da Transilvânia. Para o deleite de muitos, há o festival da Sakura, durante a florescência das cerejeiras e surge então a sensação de estar no Japão. Há por lá, igualmente, a Rua do Outono, a sugerir uma sensação de se estar no Canadá. O Brasil nem sequer tem outono.

De Portugal, Curitiba só tem um parque a conter uns totens com frases de poetas portugueses, mas esse é de difícil acesso. Quando se anuncia o inverno, bebe-se vinho da serra Gaúcha, um arremedo de Itália a existir dentro de um copo. E é quando se incorpora o mapa-múndi a comer acepipes nas festas das nações, feitas em casa – numa casa algo próxima. Nestes eventos, impera o desvario do sentir-se longe de casa, estar fora do Brasil!

Vista da Torre das Mercês, em Curitiba. (Créditos fotográficos: Marinelson Almeida – pt.wikipedia.org)

São Paulo disputa com Nova Iorque o laurel de ter a melhor pizza e é o nicho onde se encontra restaurantes temáticos cuja intenção é a de levar à mesa o Mundo. Escapa-se do entorno (ou do espaço em redor) numa garfada!

Brasília, sempre em descuido em relação à democracia, elitizou fornos e esplanadas para tentar fazer o mesmo. O descuido se cumpre através do bolso: celebra a desarmonia das necessidades do povo que votou nos seus representantes, é sempre hora dos glutões lhes darem as costas: “Tim! Tim! Saúde!” – à deles – “Bottons up! Auguri! Salue!” Daí o Brasil nunca apostar em si! Chic é estar a dar as costas para o país. E que nos visitem os demais povos.

 Brasília (Créditos fotográficos: Divulgação/Sebrae – mercadoeeventos.com.br)

A TAP aposta nas duas direções. Em razão disso vem garantindo um preço alto a ser pago pelos interessados em comprá-la. O Brasil é a cereja do bolo da sua malha aérea: ela chega e parte de toda parte. 

Cidade de Manaus. (manaus.am.gov.br)

Ao vender Manaus, induz o viajante a querer estar numa floresta tropical em grande estilo, algo assim como estar a sorver drinks no Sudeste Asiático, ao lado de uma flora e de uma fauna diferenciada. Não está errada: há por lá a mesma chuva e, neste caso, troca águas com um rio enorme de passagem. Também seduz o manauara a sair de avião naquele onde só se encontra estradas fluviais e a poder escapar das chuvas.

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Nota da Redacção:

1 – “Na Terra de Marlboro” (de 2024) é um documentário brasileiro realizado por Cavi Borges sobre o DJ Marlboro, pioneiro do funk carioca. 

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16/04/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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