As casas com poesia do poeta
O caso amoroso com Matilde fez Pablo Neruda comprar casa em Santiago. (bbc.com)
O poeta criava também as suas casas com poesia, poesias aparentemente nunca terminadas. Casas personagens sempre por dentro de uma narrativa onírica. Uma vez que eu me encontrava no Chile, decidi que havia de conhecer as três casas do maior poeta chileno: nascido Ricardo Eliézer Neftali Reyes Basoalto elegeu o pseudónimo Pablo Neruda, para estar a ocultar do pai os pendores literários nele presentes já no início da adolescência.

(fundacionneruda.org)
O pai, ferroviário, tinha outros planos para o filho, órfão de mãe; havia de puni-lo viesse ele a sair dos trilhos. Neruda, aparentemente, inspirou-se no poeta checo Jan Neruda para criar o nome com o qual seria conhecido. Há quem aponte que ele teria retirado o nome de um livro de Sir Conan Doyle que tinha um personagem chamado Neruda. É difícil precisar a origem do pseudónimo, posto que ele lia muito, colecionava livros desde cedo.
A pressão do pai, até certo ponto, deu certo: Neruda foi um funcionário do governo: um diplomata. Em razão disso, morou na Europa, no Sri Lanka, na Birmânia. Todavia, em casas que não eram dele, moradas de trabalho. Ocorre que, como o mineiro Carlos Drummond de Andrade, ele teimava em dizer: “Serei poeta mesmo sendo funcionário público.” Enquanto o Ricardo trabalhava, Pablo era poeta. A sua preocupação com os direitos humanos, com a justiça social, com o meio ambiente, impulsionavam-no a escrever, mas o que mais o representaria seria a sua avidez por amar, por ser amado e, sem dúvida alguma, o seu amor pelo mar. É dentro dessa perspetiva que vamos encontrá-lo nas suas casas.

Como chegar: descer na estação do metro Boquedano, subir pela BellaVista em direção ao Cerro San Cristobal. A casa azul, à frente na esquina, é a La Chascona.

de “La Chascona”. (fundacionneruda.org)
Projetada para abrigar, bem como esconder o seu romance secreto com Matilde Urrutia, enquanto ainda era casado com Delia del Carril, a casa leva o nome fictício (ou nome de código) que ele dera a sua amada: “La Chascona”, que significa “A descabelada”. Ele adorava os imensos cachos ruivos dela, sempre em desalinho. Matilde por ali viveu sozinha por uns dois anos até ele vir a se separar e ir viver com ela.
A casa tem um formato de barco e contém objetos e caminhos internos inusitados, o mobiliário e a memorabília (ou seja, os objetos que são colecionados ou guardados) reunidos abrigam as suas coleções de carrancas de proa, barcos dentro de garrafas e de conchas; e há, até mesmo, dentes de baleia.

Nas paredes, há quadros de inspiração náutica, aguarelas, gravuras, fotos do poeta e posters com capas dos seus livros. Atesta, internamente, o seu remanso criado para ser amado, para amar, inclusive o mar. Quando faleceu, o poeta foi por ali velado e isso aconteceu em plena ditadura militar, a casa foi violada. Neruda era um comunista confesso. Logo, era incómodo para o regime. Chegou até a viver exilado por algum tempo numa vila italiana. Inspirado naquela fase de sua vida, foi criado um filme: “O Carteiro de Pablo Neruda”. Com realização de Michael Radford, este filme dá-nos a conhecer um humilde carteiro que, ao entregar-lhe algumas das muitas cartas, dia após dia, pediu que lhe ensinasse a fazer poesia, para ele poder conquistar a sua amada. Aquela amizade de pessoas tão contrastantes em cultura e a simplicidade do carteiro são contadas numa forma contundente.

Já viúva, Matilde reparou os danos da casa e criou ali a Fundação Neruda, a poder perpetuar a sua grande história de amor, tal e qual foi vivida por ele e por ela naquelas dependências. Nada ali é comum, a cada passo há uma revelação íntima surpreendente.

em “La Sebastiana”, um miradouro privilegiado. (fundacionneruda.org)
“[…] Que na minha herdade vazia aquele amor perdido / é uma rosa branca que se abre em silêncio […]”, retirado do poema “Amigo”, incluído no livro “Crepusculário”, obra de estreia de Pablo Neruda.
Como chegar à Casa La Sebastiana: tomar o ascensor até El Perale, subir até ao Cerro Florida.

Percebe-se logo a casa, essa tem uma estrutura imprecisa, parece mais um comboio. Neruda adquiriu-a juntamente com um casal de amigos, tinha para ele o uso de dois quartos no porão; já aqueles desfrutavam dos dois pisos superiores. O que lhe interessava era a vista do porto, o movimento marítimo visto a partir dali, especialmente nas comemorações de ano novo. O poeta era festeiro. Com tão pouco espaço por dentro, o acervo não resulta em ser grande coisa. Vale a visita porque remete ao poeta. A casa foi assim chamada porque o antigo dono fora um tal “Dom” Sebastião.

os últimos anos da sua vida com Matilde Urrutia. (fundacionneruda.org)
“O oceano… era tão grande… / Que não cabia em lado nenhum / Por isso deixaram-no / Em frente à minha janela.” Este trecho aparece associado ao texto/poema “El mar”, incluído em “Una Casa en la Arena”, obra ligada ao período em que Pablo Neruda vivia voltado para o mar e para as suas casas junto ao oceano.
Para chegar a esta casa, pode-se pegar um autocarro desde Valparaiso até Isla Negra. A empresa que faz a linha do Lago Peñuelas faz por ali uma paragem. O lugar leva esse nome em razão da cor das pedras existentes, ademais a casa foi erguida sobre um rochedo e mais parece uma embarcação alongada internamente repleta de artigos náuticos.

Era, é bem certo, o seu escritório favorito. Ao ali estar, o poeta, qual marinheiro em terra firme, encontrava-se cercado pelo oceano. Quase se escuta ele ali estar a repetir: “Confesso que vivi!”
Lá fora, encontra-se o seu túmulo junto ao de Matilde. Chama a atenção a inscrição: “Voltei de minhas viagens. Naveguei construindo alegria.”
O poema que melhor traduz a casa seria:

No mais, Neruda não se traduz, se o sente. Especialmente, ao conhecer as suas casas. Claramente, a sua poesia não se encontra apenas nos poemas deixados nos seus livros, as suas casas são – elas todas – as casas poesia. Uma poesia que todos podem conferir “in loco”, ao ter o poeta sempre como companhia.
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28/05/2026