A pegadinha do professor, a IA e a gestação de uma geração de zumbis

 A pegadinha do professor, a IA e a gestação de uma geração de zumbis

(Créditos fotográficos: Theo Laflamme – Unsplash)

O que pode um experimento de um professor norte-americano para testar se e como os seus alunos utilizavam a inteligência artificial dizer-nos sobre a gestação de uma geração de zumbis?

Muita coisa, a julgar pelo que afirma o pediatra brasileiro Daniel Becker, que utilizou este caso para abordar a deformação das novas gerações decorrente da relação com esta tecnologia.

O pediatra Daniel Becker. (dmtpalestras.com.br)

Comecemos pelo princípio: na semana passada, o professor Jason Gibson, da Alcorn State University, no Mississippi, enviou aos seus alunos uma prova em que pedia uma comparação entre a Revolução Industrial e a era digital contemporânea. No enunciado, inseriu uma frase invisível, em letras brancas sobre o fundo branco, que pedia a inclusão da palavra “Madagascar” em alguma parte do texto, de um modo que não fizesse qualquer sentido.

No vídeo em que expôs o seu estratagema, o professor explicou: quem selecionasse o enunciado, da forma como se copia e cola um texto, e o observasse atentamente, poderia ver a frase oculta. Quem não o fizesse, não teria como percebê-la. Se “Madagascar” aparecesse na resposta dos seus alunos, do modo nonsense compatível com a orientação, isso significava que eles tinham, simplesmente, copiado e colado o comando inteiro na IA, enviando juntamente a instrução secreta, e remetido a redação ao professor sem sequer a terem lido – caso contrário, teriam percebido o disparate. 

Professor Jason Gibson, da Alcorn State University, no
Mississippi. (instagram.com/portaldebate)

Dos 35 alunos, 32 enquadraram-se nesse caso e foram reprovados.

É claro que esta experiência do professor não tem valor estatístico, mas é perfeitamente possível sugerir que este comportamento seja “favas contadas” ou previsível, porque tendemos a obedecer à lei do menor esforço. Se temos ferramentas disponíveis que nos entregam um trabalho que nos exigiria horas ou dias de pesquisa e nos obrigaria à penosa tarefa de pensar, se essas ferramentas, além disso, nos induzem a transferir para elas o que deveria ser o nosso trabalho intelectual, e se não estamos convencidos de que, sem esforço, não aprendemos nada – mais ainda, se não estamos convencidos da importância de aprender aquilo que nos tentam ensinar –, por que não, simplesmente, carregar num botão e livrarmo-nos da tarefa, sem nem sequer conferirmos o resultado?

Investigador Miguel Cardina. (tintadachina.pt/miguel-cardina)

Os riscos do uso acrítico da IA no ensino – e, a rigor, em qualquer outra atividade – têm vindo a ser sistematicamente demonstrados por pesquisas académicas. Numa das mais recentes, os investigadores portugueses Nuno Moniz e Miguel Cardina, membros de uma equipa que reuniu colegas de outros países e estudou como o ChatGPT respondia a questões sobre quatro conflitos internacionais, apresentaram um relatório informando sobre a série de informações falsas, imprecisas, distorcidas ou omitidas obtidas nessa consulta. As consequências deste processo, que estabelece padrões de autoridade no mínimo duvidosos e mistura informações verdadeiras e falsas, são evidentes para a deformação das novas gerações, mas estendem-se ao que passa a circular na comunicação social, caso as referências utilizadas sejam tão incertas quanto as oferecidas por estes mecanismos.

Daí decorre a pergunta óbvia: qual o sentido de recorrer a fontes pouco fiáveis?

Mas a questão que aqui nos importa é anterior: como esperar que crianças e adolescentes possam utilizar criticamente uma ferramenta destas?

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

O pediatra Daniel Becker, que mantém a página Pediatria Integral no Facebook e no Instagram (nesta plataforma, com mais de 2,2 milhões de seguidores), publicou, em 31 de julho, um vídeo que começa com a pegadinha do professor norte-americano para argumentar sobre os riscos do uso – vicioso, importa sublinhar – desta tecnologia por crianças no limiar da adolescência, cujo cérebro ainda está em formação.

Diferentemente do que alguns classificam como “sedentarismo cognitivo” – a situação em que um adulto delega à máquina uma tarefa intelectual e abdica de exercitar o pensamento, o que não deixa de ter consequências nefastas –, Becker aplica a definição de “deficiente cognitivo” às crianças e adolescentes nessa condição, porque isso significa a impossibilidade de desenvolverem as redes neurais que os habilitarão, no futuro, à capacidade de pensar, de argumentar, de imaginar, de projetar, de resolver problemas no mundo do trabalho e da vida quotidiana.

“Deficientes cognitivos” seria uma expressão elegante para “zumbis”.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

“Nós estamos permitindo que [os] nossos adolescentes deixem de exercer tarefas absolutamente cruciais para a formação do seu cérebro. Isso é muito grave”, diz o pediatra. “Se as redes sociais já estão provocando uma perda cognitiva importantíssima por causa da deficiência da atenção, que fica toda fragmentada pelos vídeos curtos, conteúdos sem sentido, por notificações que interrompem a gente o tempo todo, além da doença mental, além de todos os transtornos ideológicos e mentais que estão arrasando com os nossos adolescentes, a IA está chegando para piorar a coisa. Vamos entender que é importante que uma criança e um adolescente desenvolvam [as] suas capacidades físicas, mentais, emocionais, interpessoais, antes de entrar em contato com esse tipo de tecnologia”, esclarece o médico.

O apelo é enfático, mas fica circunscrito aos pais e aos responsáveis. Isso não apenas é insuficiente como impraticável: é claro que os adultos têm de zelar pela formação dos seus filhos e dependentes, mas podem fazer muito pouco perante esta avalanche. Num artigo publicado na Folha de S. Paulo, em fevereiro deste ano, sobre o vício dos adolescentes na plataforma Roblox, o jornalista Daniel Mariani citou a professora Gaia Bernstein, autora de “Unwired – Gaining Control over Addictive Technologies”, para sustentar o seu argumento: a insistência na responsabilidade individual dos utilizadores ignora as assimetrias de poder.

“Unwired – Gaining Control over Addictive Technologies”, obra
de Gaia Bernstein. (nextbigideaclub.com)

Não se pode jogar sobre os ombros das pessoas uma tarefa que elas não têm capacidade de cumprir. O fundamental é alertá-las para as consequências trágicas que o desenvolvimento desta tecnologia, sem controlo – ou, melhor, sob o controlo exclusivo dos executivos que nela investem –, pode trazer. E mobilizá-las para que exijam regulação e critérios éticos para esse desenvolvimento.

A agressiva propaganda desta tecnologia bombardeia-nos incessantemente com a ameaça de que, se não aderirmos a ela, se não nos qualificarmos para a utilizar – como se pudéssemos controlá-la, como se não fôssemos permanentemente controlados por ela e a alimentássemos com a nossa interação e o fornecimento dos nossos dados –, ficaremos irremediavelmente para trás.

Ora, para trás estamos a ficar, mesmo os adultos que progressivamente delegam tarefas intelectuais a robôs. E para trás ficará a nossa espécie, se as novas gerações vierem a ser deformadas desta maneira.

Venho insistindo em que esta é a principal e mais urgente luta política do nosso tempo. Incomensuravelmente difícil, perante o poder das grandes corporações que dominam e desenvolvem esta tecnologia. Mas inescapável e urgentíssima.

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03/08/2026

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Sylvia Moretzsohn

Sylvia Debossan Moretzsohn atuou como repórter nos principais jornais do Rio de Janeiro e depois como professora e pesquisadora na Universidade Federal Fluminense, onde se aposentou. É mestre em Comunicação e doutora em Serviço Social e mantém a sua atividade de investigação, autónoma ou vinculada a grupos de pesquisa em Portugal (na Universidade do Minho) e no Brasil (nas universidades federais do Rio Grande do Sul e do Ceará). Tem inúmeros trabalhos publicados na área de crítica dos “media” e, na sua atividade académica, dedicou-se principalmente à discussão das relações entre o jornalismo e a vida quotidiana e das transformações no mundo do trabalho dos jornalistas no contexto das novas tecnologias. Atualmente, concentra-se no estudo do processo de desinformação comandado pelas “big techs” e do seu investimento na chamada inteligência artificial generativa, com o objetivo de identificar as formas contemporâneas de alienação e as possibilidades de combatê-la.

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