“Amadeo(s)” pelo Teatro Art´Imagem  

 “Amadeo(s)” pelo Teatro Art´Imagem  

Espectáculo “Amadeo(s)”, pelo Teatro Art’Imagem. (teatroartimagem.org)

José Leitão convocou em cena três Amadeos notáveis. Eles são, entre os mais famosos Mozart (1756-1791), o pintor de Amarante e o pintor italiano dos rostos compridos. Uma espécie de aquelarre1sem bruxarias, mas carregado de emoção, imagens, objectos e referências. Tudo isto sem palavras, como nos actos. Dois, de “Acto sem Palavras” (I e II, ambos de 1956), de Samuel Beckett. 

Samuel Beckett (artistasunidos.pt)

Se o ponto de partida é em Espinho e a morte do pintor é recriada numa metáfora marítima acompanhada pelo “Requiem” de Mozart, o resto do espectáculo constrói-se com base em dados históricos que acompanham a vida do pintor em Paris e a sua relação com a intelectualidade francesa. Destacando-se, nesse meio, o pintor italiano Amadeo Modigliani (1884-1920). Trata-se de um belo espectáculo, emotivo e com interpretações cativantes! 

Seguindo a sinopse do espectáculo “Amadeo(s)”, realizado de 2 a 6 de Julho de 2025, no Auditório da Quinta da Caverneira, lemos: “Uma experiência teatral sobre a vida e obra de Amadeo de Souza-Cardoso (1889-1918). Uma incursão e leitura das suas pinturas, desenhos e caricaturas, dialogando em cena com algumas das suas obras mais icónicas (‘A Procissão’, ‘Cavalo/Salamandra’, ‘Os Galgos’ e seus coelhos saltitantes, ‘O Parto da Viola’, ‘Quixote’, ‘Moinho’, ‘Mulher’, ‘Chalupa’, ‘Mulher Degolada’ e ‘Menina dos Cravos’, entre outras) que permitem entrelaçá-las com o tempo em que viveu, desde infância e primeira juventude entre Manhufe/Amarante, onde nasceu, era Portugal ainda uma monarquia. Foi aprender as primeiras letras junto à Igreja de S. Gonçalo, no local onde está o Museu que leva o seu nome. Um espectáculo interpretado por uma actriz e dois actores que se desdobram em várias personagens, cores e paisagens que povoam a obra pictórica de um dos nossos pintores mais emblemáticos do modernismo e ‘esquecido’ em Portugal durante mais de 50 anos, acompanhando vários episódios da sua vida, uns reais e outros ficcionados, mais as relações com amigos e familiares, artistas conhecidos e homens e mulheres comuns, e que Amadeo passou para os seus quadros utilizando as diversas fases porque passou a sua pintura. Em palco estarão mais dois Amadeos que se juntam ao pintor português, o Modigliani e o Mozart. Poderão ainda ver duas alegorias no prólogo, a morte do pintor em Espinho, vítima da gripe espanhola[,] e acompanhar no epílogo uma ficção sobre a vida de sua mulher Lucie em Paris, onde morreria em 1989, com 98 anos, 71 anos depois da morte do marido, uma nossa homenagem a quem soube guardar e divulgar a sua obra e também à Revolução do 25 de Abril de 1974, relembrando a ‘A Menina dos Cravos’, obra pintada em 1913. […]”

O espectáculo “Amadeo(s)” é a 122.ª criação do Teatro Art’Imagem. (teatroartimagem.org)

O espectáculo levado à cena pelo Teatro Art’Imagem partiu da ideia e do guião da autoria de José Leitão, que também encenou “Amadeo(s)”, com interpretação de Daniela Pêgo, de Flávio Hamilton e de Pedro Carvalho.

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Próxima temporada do TNSJ

O Teatro Nacional São João (TNSJ) apresentou, a 8 de Julho, a sua programação para a próxima temporada (de Setembro de 2025 a Julho de 2026). Do comunicado para a imprensa resgatamos:  Carinhas, Victor Hugo Pontes e Miguel Loureiro assumem a encenação das novas criações do TNSJ. “Língua Brasileira”, de Felipe Hirsch/Tom Zé e homenagem ao encenador Ricardo Pais marcam o arranque da temporada. 

Isabelle Huppert encarna a “Bérénice”, de Racine, pela mão de Romeo Castellucci. Por sua vez, a criadora e encenadora Chiara Guidi dá a ver, a ler e a ouvir o seu teatro infantil.  Numa proposta que contempla a apresentação de 31 espectáculos nos palcos do Teatro Nacional  São João e do Teatro Carlos Alberto, destacam-se as três novas produções próprias da casa, que renovam a sua aposta no exercício da dramaturgia em língua portuguesa e do teatro de repertório.

“Língua Brasileira” emerge da reunião dos talentos do encenador Felipe Hirsch e do compositor Tom Zé. (tnsj.pt)

Em 2025, o TNSJ leva à cena “Branca de Neve & Outros Dramalhetes”, de Robert Walser, num regresso de Nuno Carinhas à encenação das criações do São João, sete anos após ter deixado a direcção artística da casa.

Em 2026, Victor Hugo Pontes assumirá a direcção de “Inventão”, título provisório de um espectáculo que remistura em cena a obra dramática e poética de Manuel António Pina, com música de A Garota Não.

A fechar a temporada, o TNSJ leva à cena “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, com encenação de Miguel Loureiro e um elenco integralmente brasileiro.  

A nova programação do São João é ainda marcada pelo reforço de espectáculos para a infância e juventude, pelo acolhimento de espectáculos internacionais e pelo aprofundamento da responsabilidade social da instituição. 

(tnsj.pt)

A programação do TNSJ inclui – como referimos – “Buchettino”, que é um espectáculo histórico dirigido aos mais pequenos, com encenação de Chiara Guidi, uma das principais criadoras e pensadoras europeias do teatro para a infância.  

É relevante o programa especial para celebrar os 80 anos de Ricardo Pais. “RP 80” é a oferta programática que o TNSJ dedica àquele que criou o seu ideário e que pensou toda a sua estrutura. De 16 a 19 de Outubro, “RP 80” olha para a vida e para a obra de Ricardo Pais, em quatro momentos: a reposição de “Turismo Infinito” (de António M. Feijó), e do espectáculo  “al mada nada” (a partir de “Saltimbancos” e de outros textos de Almada Negreiros). Regista-se também o lançamento, em 18 de Outubro, da obra “Despesas de Representação: Ditos e Escritos (1975-2025)”, livro que colige textos e entrevistas do encenador. De 15 a 27 de Setembro, haverá espaço para a realização de “Estúdio 7”, um “workshop” dirigido a jovens actores, em que Ricardo Pais vai explorar cenas emblemáticas de amor e sedução da dramaturgia universal. 

O espectáculo “al mada nada”. (tnsj.pt)

O TNSJ e o seu apoio aos sem-abrigo

Como escreveu Daniela Santos (NIP, em Dezembro de 2024), o presidente do Conselho de Administração do São João, Pedro Sobrado, começou por explicar que o “apoio do TNSJ ao proje[c]to da Albergues do Porto não só tem enquadramento na política de responsabilidade social desta entidade pública, como também decorre dire[c]tamente da relação de parceria que, nos últimos meses, tem vindo a ser construída com várias entidades públicas e com organizações não governamentais e associações, para alargar o […] trabalho [do TNSJ] com a comunidade”.

Já vem de longe a preocupação da administração do TNSJ com a realidade dos sem-abrigo que se “albergam” nas suas portas. Uma recente conversa (a 12 de Julho, no Teatro São João) sobre esta realidade – intitulada “Vizinhanças: Sem-Abrigo, Espaços Urbanos e Criação de Laços” – decorreu na sala principal da Praça da Batalha, organizada pelo TNSJ e pelo Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo.

(stg.tnsj.pt)

Seguindo a nota informativa sobre esta conversa comissariada e moderada por Ana Cristina Pereira, somos confrontados com um conjunto de interrogações: “O que se inscreve na ideia de vizinhanças? O que é ser vizinho? O que implica? Partindo do espe[c]táculo O que Carregamos? e das perguntas que traz na bagagem, esta conversa pretende lançar olhares múltiplos sobre o nosso quotidiano, os espaços que habitamos, a vida em comunidade, as formas de resistência à invisibilidade e à exclusão social. O que pode a arte, o teatro? Um cole[c]tivo, uma organização? Da noção arquetípica de arquite[c]tura e de espaço urbano à ideia de três espaços – casa / trabalho / convívio –, da situação de sem abrigo e de solidão à necessidade de pertença, de criação de laços e de identidade, a conversa reúne um naipe de convidados cuja experiência de vida ou de trabalho nos devolve a ideia de comunidade como algo em permanente construção, em conjunto, em vizinhança.”

Espectáculo “O que Carregamos?” (tnsj.pt)

Para culminar este encontro, o grupo de teatro “Do Lado de Fora” apresentou a sua peça “O que Carregamos?”, no palco do Teatro Nacional São João, nos dias 12 e 13 de Julho (sábado e domingo). Este projecto que reúne pessoas excluídas socialmente, profissionais da cultura e actores amadores, com encenação do director artístico Rui Spranger. O encenador fala das dores de crescimento de um proje[c]to que obriga a ter paciência, a não julgar, mas a ter pulso forte quando o grupo pode ficar em causa. 

“Aqui, aquilo que fizemos é combater o estigma, fazer espe[c]táculos que têm uma componente mais social e mais política, e o trabalhar para dentro, que é o resultado deste espe[c]táculo, que é fazer desafios teatrais e artísticos mais exigentes, num processo também que ele é em si também de formação, mas que permita abrir horizontes”, diz Rui Spranger, prosseguindo: “Com este espe[c]táculo, procuramos um desafio artístico grande, com algumas pessoas que têm alguma disfuncionalidade e propomos um teatro físico, teatro de ‘clown’ [‘palhaço’, em Inglês], que é tecnicamente exigente, e que constituiu um grande desafio e correspondeu a um grande trabalho, um grande esforço da parte de todos”. 

Na mesma notícia avançada pela Lusa, ao referir-se à componente da integração social, Rui Spranger destacou que, além do “sentimento de pertença, estas pessoas passaram a comunicar melhor, a concentrar-se mais, ganharam autoconfiança; isso fez com que algumas pessoas tivessem arranjado trabalho, deixassem de estar numa situação de dependência do RSI [Rendimento Social de Inserção] e hoje são cidadãos contribuintes”. “Por causa disso, tivemos de passar os ensaios, que eram entre as 15h00 e as 17h00, para entre as 18h00 e as 20h00, para poder integrar as pessoas que, entretanto, ou foram trabalhar ou começaram a estudar, ou recomeçaram a estudar”, esclareceu.

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A coragem do director do Festival de Avignon

O director do Festival de Avignon, o português Tiago Rodrigues, disse à agência Lusa que a escolha da língua árabe como convidada para a 79.ª edição, que teve início a 5 de Julho e que termina no próximo sábado (26 de Julho), “é uma evidência cultural e artística”. “Ao convidarmos a língua árabe é a primeira vez que sentimos que há muitos franceses que vêm a Avignon para estarem mais próximos de casa”, observou Tiago Rodrigues, aludindo ao facto de o Árabe ser a segunda língua mais falada em França. “São essas as razões fundamentais pelas quais convidamos a língua árabe ao Festival”, alegou o director do Festival de Avignon, explicitando que, “em primeiro lugar”, a língua árabe “é a quinta língua mais falada no mundo”, além de que possui “uma riqueza patrimonial enorme, e também uma enorme diversidade contemporânea”. 

(grandavignon-destinations.fr)

A propósito, Tiago Rodrigues comentou: “Convidar a língua árabe é convidar toda essa diversidade e recusar essas visões estreitas”. O director artístico admitiu ainda que foram “avisados muitas vezes” para terem “cuidado com a língua árabe”: “`Vocês vão ter problemas`”, citou à Lusa. “E foi precisamente por isso que quisemos continuar”, sublinhou, argumentando que “não convidar a língua, devido a problemáticas e complexidades políticas ligadas a essa língua seria fazer autocensura”.

Para Tiago Rodrigues, seria “uma forma de censura e de aceitar que a língua árabe seja metida na gaveta de uma visão estreita, xenófoba, como se fosse uma língua inimiga”. Assim, reafirma que “a língua árabe, como todas as línguas, é uma fonte de riqueza que tem de ser descoberta, mesmo quando consideramos que estamos a descobrir qualquer coisa que está longe de nós”.

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Notas:

Amadeu IX, duque de Saboia.
(pt.wikipedia.org)

1 – Segundo a Wikipédia, “El aquelarre” (de euskera akelarre – propriamente, “prado del macho cabrío”) ou “sabbat” é a forma genérica de nomear o grupo ou a reunião de bruxas para a realização de rituais e de feitiços.

2 – O nome Amadeu tem origen no Latim – “Amadeus” – e o seu significado é “aquele que ama Deus” ou “amigo de Deus”. Este nome foi popularizado pela história de vida de um santo da Igreja Católica, o monge Amadeu de Saboia, também conhecido como Amadeu IX. Foi beatificado em 1677, pelo Papa Inocêncio XI. 

3 – Reporto-me também à publicação, em 1 de Março de 2022, de um meu artigo mais extenso no blogue A Viagem dos Argonautas

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24/07/2025

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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