O “influencer” enquanto sintoma de crise
(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)
O que é um influencer? Como tende a suceder com perguntas que aparentam ser simples, também esta se revela enganadora. Desde logo, porque dificilmente duas definições coincidirão plenamente: entre trinta respostas livres, encontrar-se-iam outras tantas formulações, cada uma reclamando um certo grau de originalidade. Ainda assim, alguns pontos merecerão consenso. Desde logo, a ideia de que o influencer é uma figura que seguimos – e que muitos outros seguem também. Alguém que transforma o quotidiano em conteúdo, que expõe rotinas, que partilha opiniões e que converte a própria presença online num objeto contínuo de atenção.

austríaco. (en.wikipedia.org)
Mas será apenas isso? Impõe-se a necessidade de procurar uma definição legitimada pela literatura. Sendo esta uma rubrica assinada por um estudante de Comunicação Social, e encontrando-se o estudioso austríaco Christian Fuchs entre as suas referências centrais, valerá a pena convocar os seus contributos.
Em “Social Media: A Critical Introduction” (4.ª edição, 2024), o autor define os influencers como “celebridades online que criam conteúdo distribuído em plataformas digitais e que possuem um vasto grupo de seguidores emocionalmente ligados a elas, acompanhando-as e interagindo regularmente com o seu conteúdo”. Adiante, vem a confirmação daquilo que a realidade nua já sugere: no ecossistema das redes sociais, os influencers conseguem frequentemente reunir níveis de envolvimento e de credibilidade superiores aos dos media tradicionais. Dito de outro modo: a página de um jornal generalista – concebida, por natureza, para um público amplo e heterogéneo – nem sempre consegue alcançar os níveis de adesão de um influencer digital, cuja comunicação assenta tipicamente na segmentação. E mesmo quando os números aparentam equilibrar-se, isso raramente significa efetiva equivalência em matéria de confiança ou de capacidade persuasiva.

Como se tudo isto já não bastasse para integrar um catálogo dos fenómenos mais inquietantes da comunicação contemporânea, deve ser sinalizada uma diferença fundamental entre jornalistas e influencers: o código deontológico. Não apenas ideológico – ainda que também o seja, se entendermos que a ideologia dos media assenta num compromisso cívico e informativo, ao passo que a dos restantes comunicadores permanece flutuante e contingente.
É, sobretudo, de deontologia que importa falar, considerando ser à existência deste código que o jornalismo deve princípios como a verdade, o rigor, a consistência, o contraditório ou a pluralidade. Não porque os cumpra sempre de forma irrepreensível, mas porque deles depende a sua legitimidade enquanto instituição pública. Os restantes comunicadores digitais não se encontram vinculados à mesma matriz normativa – nem, em muitos casos, a isso aspiram. A prioridade reside no crescimento contínuo do alcance, das visualizações, das partilhas, dos comentários e dos gostos. Os princípios anteriormente referidos tornam-se acessórios circunstanciais: permanecem enquanto forem compatíveis com a lógica do desempenho algorítmico; deixam de existir no instante em que deixem de servir esta finalidade.

Até aqui, porém, permanecemos no plano abstrato. Que tal trazermos a discussão para o terreno concreto? No passado dia 9 de maio de 2026, enquanto redigia o presente artigo, entrei nos perfis de TikTok do Expresso e de Afonso Gonçalves. Para quem desconhece esta última figura, cá vai uma breve descrição: é um influenciador digital, conhecido pela liderança do movimento Reconquista, de ultradireita nacionalista, e pela insistência num discurso anti-imigração e culturalmente conservador, ainda que apoiado em afirmações que não encontram fundamento estatístico.
Somei as visualizações totais dos 24 vídeos mais recentes de cada uma das páginas. O resultado foi o seguinte: Afonso Gonçalves – 251704 visualizações; Expresso – 239880. Recolhidos os números, olhemos agora para o conteúdo que lhes dá origem. O vídeo mais visto da página do Expresso aborda o surto de hantavírus, detetado num cruzeiro no Atlântico, e procura esclarecer os riscos para a população em geral. Ainda que o perigo seja descrito como reduzido, a peça concentra-se em responder às dúvidas que entretanto surgiram: o que é o vírus, de que forma ocorre o contágio e quais os sintomas associados à infeção. Já o vídeo mais visto de Afonso Gonçalves apresenta o sufrágio universal como um erro histórico, sustentando que existem pessoas incapazes de “tomar uma decisão simples na vida”, apesar de o seu voto “valer o mesmo” que o de alguém “inteligente e formado” como ele próprio ou o seu interveniente. Conclui, finalmente, que “o voto universal nos últimos cinquenta anos tem destruído Portugal”, depois de cerca de um minuto de puro desprezo pelo princípio mais elementar de qualquer ordem democrática: a igualdade entre cidadãos.

“As visualizações não significam tudo”, apressar-se-á a responder o leitor mais inconformado. Admitamo-lo: as visualizações não significam tudo. Já que assim é, olhemos também para os comentários. Mais concretamente, para os três primeiros comentários que surgem nos vídeos mais vistos de cada uma das páginas – reproduzidos aqui sem qualquer correção ortográfica, precisamente para preservar a autenticidade do registo.
No caso do Expresso:
- “noticia aindasó em Portugal”
- “Essa cantiga não faz sentido… basta ver as notícias e fazer 2+ 2…”
- “No início do COVID também me lembro das comparações com a gripe e levava tudo ‘nãos’ atrás”
Na publicação de Afonso Gonçalves:
- “Sempre pensei o mesmo. Nunca concordei com o voto Universal.”
- “as forças do mal, maçonaria, bidelberg um dia serão derrotadas, fé em deus se ele existir, os censores estão elevados, não se pode dizer nada, enfim.”
- “parabens…tal e qual”
É com este cenário que hoje convivemos: uma crescente erosão da confiança na evidência e na reflexão profunda, por contraponto ao fortalecimento de discursos autoritários e iliberais. Como enfrentar uma realidade desta natureza? A resposta está longe de ser simples, mas talvez não seja descabido começar por um princípio elementar: o cultivo de uma opinião pública mais criteriosa, mais exigente e mais seletiva na forma como distribui atenção e legitimidade àqueles que encontra no espaço digital.
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Nota do Director:
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14/05/2026