Memórias: Júlio César (4) – Comendas

 Memórias: Júlio César (4) – Comendas

“A Ginjinha”, no Largo de São Domingos, em Lisboa. (lojascomhistoria.pt)

Fitas de comendador da Ordem Militar de Avis e da Ordem
Militar de Cristo (ordens.presidencia.pt)

Um dia, com o meu amigo Júlio César, em vésperas de Natal – vivia eu no Porto e ele em Lisboa –, encontrámo-nos para assinalar a quadra. Como troca de presentes, decidimos condecorarmo-nos um ao outro em plena Ginjinha do Rossio. Se já havia tanta gente “comendada”, por que não nós? Impus-lhe a Ordem de Avis e ele, a mim, a Ordem de Cristo e passeámos pelo Rossio com medalhas, colar e fitas de comenda, a cantar o Hino Nacional.

Restaurante 1.º de Maio, no Bairro Alto, em Lisboa. (tripadvisor.pt)

Deu-nos a fome e acabámos no Restaurante 1.º de Maio, com as comendas guardadas. No fim do jantar, o empregado, que o conhecia como habitual cliente, perguntou-lhe: “Divido a meio, Sr. César?”. O Júlio teve uma explosão, indignado: “A meio? A meio? Divido a meio? Os amigos não se dividem! Multiplique por dois.” E por mais que o empregado e, depois, o próprio dono do restaurante insistissem, o Júlio recusou firmemente qualquer outra forma e pagou a conta a dobrar. Foi assim tal e qual. De comendas no bolso. Não consigo lembrar-me é o que comemos. Mas comemos bem, tenho a certeza. Como tenho a certeza de uma sólida amizade a dobrar.

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19/01/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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