Os Reis…

 Os Reis…

Celebração do Dia de Reis, em Espanha. (livingtours.com)

“Noite de Reis” é uma das comédias mais populares de William Shakespeare, escrita e 1599/1601, também está editada como “A Noite de Epifania”. Na tradição da Península Ibérica e daquela que herdámos na América Latina, os presépios e os Reis Magos foram uma constante, desde a colonização. Porém, a tradição foi-se perdendo com a chegada do Pai Natal (ou Santa Claus), vestido com as cores da Coca-Cola. E o resto da história é conhecida.

(childrensmuseum.org)

Jorge Palinhos, dramaturgo e professor de teatro, actualmente director do Curso Superior da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), enviou-me um belo relato, no qual lembra os presépios da sua infância: “Das várias figuras que compunham esse presépio, as minhas favoritas eram os Reis Magos. Por serem grandes e por estarem montadas em camelos, o que lhes dava um exotismo que as outras figuras não conseguiam igualar. Talvez por causa dessas figuras, sempre tive pena que, em Portugal, se ligasse tão pouco ao Dia de Reis…”

Partindo da ideia de que este era um presente para mim, respondi lembrando o conto “Reis Magos” ou “O Presente dos Magos” (“The Gift of the Magi”), do norte-americano O. Henry (pseudónimo de William Sydney Por ter), e o relato de “Os Magos que Não Chegaram a Belém”, de Luísa Dacosta (publicado em 1989). Se eram magos, sábios ou astrólogos não importa. O transcendental foi a intervenção na mais bela história jamais contada: a história de Jesus.

Espectáculo teatral “Hamlet”, de William Shakespeare, encenado por Nuno Cardoso. (Créditos fotográficos: José Caldeira – tnsj.pt)

O ano que partiu (ou seja, 2025) foi bom para a produção teatral, no país e, principalmente, no Porto e na região Norte. Destaco dois espectáculos de Shakespeare, no Teatro Nacional São João (TNSJ): “Hamlet”, com encenação de Nuno Cardoso, e “Titus” (a partir de “Titus Andronicus”, peça escrita entre 1589-91 e publicada, pela primeira vez, em 1594), a mais difícil e sanguinária peça do bardo inglês para levar à cena.

Peça teatral “Titus”, com encenação de Cátia Pinheiro e José Nunes. (Créditos fotográficos: José Caldeira – tnsj.pt)

No teatro independente, o Ensemble – Sociedade de Actores proporcionou-nos a peça “Vermelho”, sobre a qual já escrevi (na edição de 2 de Outubro de 2025), e o o espectáculo “Salvação!” , com texto inédito de Jacinto Lucas Pires, encenação e cenografia de Jorge Pinto, música e som de Ricardo Pinto.

Na ACE – Academia Contemporânea do Espectáculo, idealizada como escola e lugar de representação pelo actor António Capelo, saliento a última produção do dramaturgo Pedro Fiúza, “Rio Mau”. Um texto difícil de seguir, mas que se apresenta como um ponto de partida para um futuro incerto, como informa a própria produção: “[…] É uma espécie de Adão e Eva de tempo nenhum, sem futuro e sem descendência. Duas pessoas que colocam a esperança toda num obje[c]to inatingível, que procuram desesperadamente a salvação, mas que ao mesmo tempo se analisam enquanto fenómenos de linguagem num mundo mais claustrofóbico do que o mundo concreto, uma casa, um palco de teatro.”

Dois actores no palco e, para mim, a possibilidade de reencontrar uma actriz que conheço desde miúda, Teresa Vieira. É, talvez, sobre ela que recai grande parte do texto e responsabilidade cénica. E ela resolve com destreza, habilidade, voz e talento ao desafio colocado pelo autor e encenador Pedro Fiúza.

Actriz Teresa Vieira. (agenteanorte.com)

Em Dezembro, o Teatro Carlos Alberto recebeu a estreia de “Carne”, produção da Noitarder e coprodução do TNSJ, com texto e encenação (direcção artística) de Raquel S.

A peça explora os limites da linguagem numa noite de Natal marcada pela ausência e pelo desentendimento familiar, como lemos na respectiva sinopse: “Para muitos, Natal é sinónimo de família. Tempo de união, harmonia e amor. Em Carne, é também sinónimo de amargura, ressentimento e frustração.”

É uma peça inédita e um bom momento para o reencontro, no palco, de António Júlio, de Maria do Céu Ribeiro – afastada dos palcos, inexplicavelmente! – e de Paula Só.

Na edição de 14 de Janeiro do jornal Público, Miguel Esteves Cardoso escreve, na crónica intitulada “Como se veste o imperador”:Estamos todos atolados num subjectivismo virado para dentro, que protege o que pensamos da pior maneira: desinteressando-se pelo que pensam os outros”.

O cronista cita, como pano de fundo, o conto “O Fato Novo do Imperador”, da autoria de  Hans Christian Andersen, narrativa que calça muito bem na época de campanha presidencial que estamos vivendo. O momento tem servido para lavar a roupa suja dos candidatos e, se calhar, vários vão nus no desfile.

Equipa de “O Preço Certo”. (facebook.com/fernandomendesoficial)

Também no diário Público (de 30/10/2025), num artigo de João Rodrigo Neto, é destacado o programa televisivo “O Preço Certo”, que nos acompanha em euros, desde 2002 – “depois de uma primeira versão no início dos anos 1990”. Com realce para o papel do animador Fernando Mendes que, com talento, tem conseguido manter audiência e os primeiros “ratings” da RTP1. Da leitura deste artigo de opinião, fica a sensação de que, durante uma hora (entre as 19h00 e as 20h00), Portugal e os Portugueses são felizes…

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22/01/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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