Ormuz
O estreito de Ormuz visto do espaço. (Créditos fotográficos: NASA – pt.wikipedia.org)

Nestes dias, Ormuz é o epítome da resistência às ambições políticas de Donald Trump. É lá que se está a travar um sério combate pela hegemonia económica mundial. Se vencer, os Estados Unidos da América (EUA) regressam ao estatuto de maior potência mundial nos principais campos da vida política dos países – economia, ciência, defesa –, dele retirando a vantagem de poder ditar o rumo que devem ter os acontecimentos.

Está a ser neste combate que a administração americana está a investir boa parte da sua influência e dos seus recursos, por forma a anular a reacção de quem pudesse estar a considerar ir em ajuda do Irão. A ser dada, e está a ser dada, está a ser feita pela porta das traseiras, sem assinaturas nem comunicados, embora seja certo que Trump tenha conhecimento desses apoios; mas, nos tempos que correm, quase tudo é permitido, desde que não atente contra a imagem que o presidente dos EUA quer transmitir de si.
Sejam quais forem as circunstâncias, são os interesses que ele representa a ditar o que deve ser feito no dia seguinte, o que deve ser dito, o que deve ser negado, o insulto que deve ser dirigido, a personalidade que deve ser atingida. Engana-se quem procurar nos livros de Psiquiatria a explicação para o espectáculo televisivo que, diariamente, oferece ao Mundo.
Isso faz parte das medidas necessárias para impor aos seus adversários e inimigos os pontos de vista que deseja ver consagrados na geopolítica mundial. O mesmo é dizer no acesso indiscriminado às matérias-primas indispensáveis ao bom andamento do que, na parte que interessa, é necessário produzir, monopolizando o mercado.

Tendo conseguido capturar para o seu campo um dos mais importantes produtores de petróleo, a Arábia Saudita e os seus proxies, conquistado o Iraque, dominada a principal reserva estratégia desse produto, a Venezuela, sendo os EUA, na realidade, o maior produtor de petróleo, faltava o Irão para ver consagrado o domínio sobre esta fonte energética. Restam a Rússia, o Brasil, a China, a Nigéria e Angola, insuficientes, porém, para porem em causa o conjunto da produção daqueles quatro países.
Dominada cerca de 40% da produção de petróleo, tudo somado, Donald Trump pode dar o seu nome a tudo que for construído, até a renomear o que já tinha nome, como no caso do John F. Kennedy Memorial Center for the Performing Arts.

Em Ormuz, joga-se o futuro da sobrevivência do Ocidente, tal como nos habituámos a conhecer, atravessando as suas fronteiras, na maior parte dos casos sem passaporte, sem francos, marcos, pesetas, coroas ou dracmas, por estrada, avião, barco ou comboio. O sequestro de Nicolás Maduro, em nome do combate ao narcotráfico; o assassinato dos principais responsáveis iranianos, invocando a necessidade de se pôr cobro à perseguição da população, de que as manifestações em Teerão, no princípio do ano, seriam o exemplo mais recente, omitindo, porém, a manipulação de que foram alvo por provocadores contratados para o efeito, como está verificado; e a reivindicação da Gronelândia como território americano, são os actos mais visíveis do ímpeto imperial desta administração americana.
É por todas estas razões, para que lenta, mas progressivamente, não nos vejamos entregues ao domínio da Casa Branca e do Pentágono; e para que possamos viver num mundo multipolar, com cada país a poder decidir o que quer fazer da sua vida e a estabelecer as relações que mais lhe interessar, que é não só necessário resistir, mas considerar o que deve ser feito para impedir que uma sombra tutelar caia sobre as nossas cabeças.

É nisso que nos devemos empenhar, rejeitando as ofertas que ponham em risco os nossos bens e combatendo as investidas que sejam feitas para se substituírem às nossas decisões, no caso, portuguesas e europeias. Tendo em conta que é na economia, mas também, sobretudo, na educação e na cultura que reside o que melhor pode ser feito nesse sentido, havia de caber à União Europeia (UE27) e aos governos considerarem o investimento que neles deve ser feito, rejeitando tudo o que for nomeado de tanques, balas, espingardas, drones, mísseis e outras armas ofensivas; basta o suficiente para acudir ao necessário, já que a regra deve constar dos argumentos diplomáticos sempre que as circunstâncias se impuserem para tal.

Cabe, por outro lado, a quem é dada a palavra para diariamente expor o que entende dever ser dito, indicar onde reside a razão, porventura a inconveniente, mas a imprescindível para melhor se compreender o emaranhado da situação política actual e daquela com que, eventualmente, iremos ser confrontados. Aprendida a lição dada pela invasão da Ucrânia, os erros de análise cometidos e as hipérboles escolhidas, a guerra de agressão que está a ser realizada contra o Irão merece uma pausa antes de a literacia retórica e escrita se ponham em movimento. A melhor tradição greco-latina merece esse empenho.
.
07/05/2026