Afinal, qual é o papel do jornalista numa democracia?
(Créditos de imagem: Moondance –pixabay.com)
O primeiro episódio do podcast “O Olho da Rua”, uma parceria deste jornal com a Escola Superior de Educação de Coimbra, oferece uma excelente oportunidade para se discutir não apenas o papel do jornalismo no crescimento da extrema-direita em Portugal, mas o papel do jornalista numa democracia.
Um dos convidados, o jornalista Miguel Carvalho, autor do livro “Por Dentro do Chega”, reiterou as críticas já feitas em outras ocasiões ao comportamento da comunicação social, em particular dos canais de televisão, que concederam uma desproporcional audiência a André Ventura e, assim, lhe “estenderam a passadeira vermelha”, abrindo-lhe caminho para a amplificação de seu discurso.

Já a outra convidada, a investigadora Susana Salgado, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, indagou por que não se deveria dar palco a esse tipo de discurso, se ele fazia parte da política nacional e era apoiado por uma parcela significativa do eleitorado. Criticou também o cordão sanitário que alguns meios estabeleceram no início e que se revelaria ineficaz, porque, em primeiro lugar, a informação – melhor diria, a sistemática campanha de desinformação – circularia pelas redes sociais; e, ainda, porque “a exclusão só serve para alimentar o discurso de vitimização dos políticos populistas e para alienar ainda mais os cidadãos que se reveem nesse tipo de discurso”.
A seguir, depois de lamentar a falta de contextualização nos debates, a investigadora questionaria o papel pedagógico – que classificou também de “ativista” – que Miguel Carvalho apontou como necessário, “de acordo com os valores do jornalismo e da própria Constituição”, que a comunicação social deveria ter tido no nascimento do Chega. “Deveria haver um recentramento do que deveria ser o papel do jornalista na sociedade”, disse Susana Salgado.

Ora bem. Não parece razoável ignorar a relação entre a excessiva presença de André Ventura nos media, quando o seu partido ainda engatinhava, e o impressionante crescimento de sua popularidade. Nem se trata apenas do número de entrevistas – cerca de 50, desde o início do ano passado até o momento de gravação do podcast. E, nesta reportagem de João Pinhal sobre “O encanto do jornalismo pelo Chega”, é possível ter uma noção da abrangência dessa desproporção –, porque é preciso considerar também a ampla cobertura de manifestações promovidas por esse partido, ainda que escassamente mobilizadoras, portanto com “valor-notícia” próximo de zero. Seria preciso considerar o processo de legitimação de uma força política flagrantemente antidemocrática antes de argumentar sobre a sua representatividade.
Ainda assim, se todos os discursos merecem ser veiculados porque, afinal, são representativos, então o que dizer do caso – que, aliás, Miguel Carvalho relembrou, a meio da conversa – do influenciador misógino e supremacista, que se autodefinia como “machista tóxico” e que a RTP convidou para participar num dos programas de sua nova grade? O desconvite, provocado pela repercussão da notícia, teria sido um erro, quem sabe uma injustiça? Afinal, o que não falta em Portugal – e no Mundo – são machistas tóxicos, misóginos e supremacistas.

Quanto ao receio de favorecer a vitimização de quem tiver cerceado o seu espaço quando descumpre os requisitos mínimos de civilidade e decência, quando ofende, mente acintosamente e adota uma atitude agressiva para impedir contestações, seria o caso de perguntar – como fez Miguel Carvalho –, se a lei não é para ser cumprida. Mais ainda, se não é justamente o espaço indevidamente franqueado a essas pessoas que lhes permite instalarem-se num lugar que não deveriam ocupar, agora, que já está consolidado, politicamente, torna mais difícil a aplicação da lei.
Quanto à ineficácia do cordão sanitário, é forçoso reconhecer que os media já não têm o controlo da agenda, mas ainda preservam valores ou, pelo menos, deveriam preservá-los, de modo a serem um contraponto ao desvario das redes, em vez de tentar acompanhá-las, nessa autofágica batalha pela audiência.
Afinal, qual deveria ser o papel do jornalista? A investigadora Susana Salgado não o define, mas o insinua na sua crítica a uma ação pedagógica, que associa ao ativismo. É uma confusão comum, que costuma ter por base a ideia de um jornalismo asséptico, neutral, que não se deveria deixar contaminar pela política.

Ora, o ativismo e/ou a militância costumam ser rótulos colados à esquerda e, por isso mesmo, encarados negativamente, da mesma forma que ocorre quando se acusa – o verbo não pode ser outro – tal ou qual posição de “ideológica”. Porque, claro está, só quem tem ideologia é a esquerda. Os defensores do pacote laboral que arrasa com os direitos dos trabalhadores, os que argumentam em prol da iniciativa privada no ensino e na saúde, os que justificam as medidas do governo para as rendas, esses não são ativistas nem militantes, apenas participam de um debate racional, acima de ideologias.

Ponho a questão nesses termos para tentar desfazer a suspeição que se levanta sobre a defesa de causas. Porque, pode não parecer, mas defender a democracia é defender uma causa. A não ser que ignoremos que a democracia tem uma longa e dramática história e a encaremos, simplesmente, como a ordem natural das coisas.
Por isso, é curioso o apelo a que o jornalismo se afaste da política quando se reconhece o seu papel essencial na defesa da democracia – e, inversamente, a necessidade da democracia para o exercício do jornalismo. Resta saber se consideramos a democracia um regime que admite e legitima todas as práticas, mesmo as que, explicitamente, pretendem destruí-la. A resposta deveria ser evidente, do contrário não haveria limites a observar, mas há momentos na História em que certas conveniências produzem previsíveis erros que podem resultar em tragédia.
Foi a este ponto que chegámos. É, exatamente, este o momento para se afirmar o inescapável papel político do jornalismo e o dever de intervenção cívica – pedagógica, sim e sempre – do jornalista, que não se pode demitir da sua condição de cidadão.
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Nota do Director:
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22/01/2026