“A gramática não chega para dizer tudo…”

 “A gramática não chega para dizer tudo…”

“Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina colagem” (Créditos fotográficos: José Caldeira – tnsj.pt)

É, precisamente, por ser um sistema de regras que nos orienta no uso correcto da língua que o autor, poeta e dramaturgo Manuel António Pina se foi libertando, progressivamente, na sua obra literária, nela criando outras palavras e jogos de palavras, bem como alterações na sua utilização, trocando – às vezes, muitas vezes – a ordem das letras para originar novas palavras e novos conceitos, num jogo sempre criativo e lúdico.  Daí a sua declaração que serve de título a este artigo: “A gramática não chega para dizer tudo…”

Espectáculo “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” (Créditos fotográficos: José Caldeira – tnsj.pt)

Era com muita expectativa que esperávamos pelo espectáculo “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”, que decorre da primeira encenação de Victor Hugo Pontes, o novo director artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ). E podemos dizer que valeu a pena a espera. O resultado é um belíssimo espectáculo musical, entre uma pequena opereta, um bailado (não fosse Victor Hugo Pontes um reputado coreógrafo) e teatro. 

Uma representação do elenco. (Créditos fotográficos: José Caldeira – tnsj.pt)

Num cenário no qual, ao fundo, se abre uma janela para o Mundo, a figura que representa o escritor Manuel António Pina observa as suas palavras, as suas ideias, os seus jogos transformados em personagens. As suas imagens literárias são uma espécie de coral em movimento, vestido com coloridos fatos às listas, às riscas e de múltiplas cores. No jogo cinético dos seus movimentos, num modo constante centrífugo e centrípeto, quase nos hipnotizamos na sua dinâmica. Eles são uma trupe de saltimbancos cómicos-cósmicos. Não posso deixar de escrever que, em certos momentos, me lembrei do belo Bailado Triádico (Triadisches Ballett / Triádica Ballet) – ou seja, o movimento em movimento –, enquanto criação de Oskar Schlemmer, obra fundamental da Bauhaus para a dança moderna. 

Ballett Triádico da Bauhaus. (www1.sp.senac.br)

Se a gramática não chega, também as palavras não  chegam. É preciso muito mais. São necessários os silêncios, as pausas, a invisibilidade da respiração e da emoção. E é aí, exactamente, que entram o teatro, o palco, o público, a comunicação e a magia! 

O actor Jorge Mota, com imensa sobriedade, interpreta o jornalista e escritor Manuel António Pina. E, por força da aventura das suas palavras, vê-se como o “Sábio Fechado na Sua Biblioteca”1 é obrigado a sair para o Mundo, para a vida, como escreveu o poeta: “A vida é estarmos sós. / A gente diz que a vida dói, / a vida não dói – / quem dói somos nós.” 

Manuel António Pina (arquivos.rtp.pt)

Depois da aventura da saída, belamente representada num caminho labiríntico construído de livros, o regresso é inevitável. Manuel António Pina sabe, como o poeta argentino Jorge Luis Borges, que o labirinto mais complexo é o deserto. Emotivo é o fim, sabendo nós que o poeta já não está connosco, mas que, por fortuna da sua escrita, a sua obra poética fica eterna. 

Um apontamento final sobre o caderno do espectáculo, com belos textos que nos aproximam do autor, todos eles de enorme interesse e valor, começando pela nota de abertura de Victor Hugo Pontes – “O Caminho de Casa” –, a par dos textos do encenador João Luís, director artístico do grupo teatral Pé de Vento (uma viagem biográfica do autor e desta companhia); e também o texto de Maria João Reynaud, dramaturgista da companhia, que nos lembra – com sabedoria –que Manuel António Pina gostava de recordar que “a Historia da Literatura está cheia de livros para crianças lidos por adultos”

(ensina.rtp.pt)

Espectáculo para miúdos e graúdos, para mim e para todos, que conta ainda com músicas e canções originais de A Garota Não, a partir dos poemas de Manuel António Pina, em que não podia faltar um belo fado interpretado, no melhor do estilo, pela actriz Patrícia Queirós, acompanhada pela viola em mãos generosas do actor Pedro Frias. 

Todos os actores – que se apresentam como: “Nós somos os trampolineiros, falsos fingidores verdadeiros, a[c]tores, imitadores, tocadores, dançadores, cantadores, contadores…” – são belos intérpretes na canção, no relato, nos movimentos e na actuação. Bem hajam! 

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Um pouco de céu 

Casa da Música, no Porto. (pt.wikipedia.org)
(Ilustração de Valentina Fraiz –
cienciafundamental.blogfolha.uol.com.br)

A Casa da Música, no Porto, é um dos belos projectos culturais da cidade. Foi pensada para integrar, da Porto 2001Capital Europeia da Cultura e inaugurada em 2005. Como regista a Wikipédia, a arquitectura do edifício foi aclamada internacionalmente. Nicolai Ouroussoff, crítico de arquitetura do New York Times, classificou-o como “o projecto mais atraente que o arquitecto Rem Koolhaas já alguma vez construiu” e como “um edifício cujo ardor intelectual está combinado com a sua beleza sensual”. 

(Schmürz, [de] Boris Vian / Teatro Experimental do Porto. – Porto : TEP,
[ca 1976].)

Consultando a Internet no ano passado e por motivo dos 20 anos da sua inauguração, verifiquei que estavam programados 270 concertos de diferente natureza, música clássica, experimental, erudita e popular.

Tive, ainda, a oportunidade de assistir ao concerto da cantora Mafalda Veiga, no dia 24 de Janeiro deste ano. Numa noite particularmente chuvosa, como poucas neste Inverno. Fiquei radiante ao constatar o carinho, o apreço e a fidelidade que o público sente pela intérprete, traduzida numa casa cheia, a abarrotar. Sob o título “O Inverno Não Dura Tanto Quanto Parece”, Mafalda Veiga brindou-nos com temas conhecidos e outros novos, na companhia do Ensemble Ibérico.

Parafraseando Boris Vian – “Afinal / o infinito / Já não dura tanto assim…” –lembro, talvez, uma das poucas encenações deste poeta e dramaturgo francês, em Portugal. Foi nos anos 70, no Teatro Experimental do Porto, quando eu ainda era o director artístico, tendo sido convidado o actor João Guedes para encenar a peça de teatro absurdo “Os Construtores de Impérios ou o Schmürz”.

(Direitos reservados)

No palco, o jovem actor João Paulo Costa, na sua terceira incursão profissional, destacava-se pela plasticidade do movimento daquela figura difícil de definir. Cenários do escultor José Rodrigues, que idealizou uma pirâmide sufocante, para a ascensão dramática das personagens, como é relatada na peça.

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Nota da Redacção:

1 – “História do Sábio Fechado na Sua Biblioteca” é uma peça de teatro que Manuel António Pina escreveu para companhia Pé de Vento, apresentando-se como uma parábola sobre a sabedoria.

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19/03/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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