O que nos diz aquilo que não se vê?
Festejos em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974. (Créditos fotográficos: Miranda Castela, Arquivo Histórico Parlamentar – app.parlamento.pt)
Se a comunicação excede, de facto, as suas manifestações mais evidentes – a oral e a escrita, às quais frequentemente se vê circunscrita –, convoquemos por uma vez a dimensão visual para o centro da análise. Este texto propõe um olhar de natureza semiótica à recorrente ausência do cravo vermelho entre diversos agentes da direita.

Paradoxalmente, aqueles que desdenham a efeméride ocupam posições que são, em última instância, um produto direto do próprio legado do 25 de Abril. Poderão alguns leitores apressar-se a desvalorizar esta reflexão como um exercício de minúcia irrelevante. O que aqui se sugere é substancialmente mais denso: a existência de uma zona de ambiguidade simbólica, onde certas disposições – não inteiramente assumidas nem explicitadas – se exprimem pela via negativa. Isto é, não se afirmam de modo inequívoco, mas nem tão-pouco se dissipam por completo.

(app.parlamento.pt)
Para aqueles que não viveram diretamente o 25 de Abril – entre os quais se conta o autor destas palavras –, a relação com este momento histórico constrói-se inevitavelmente por meio de terceiros. O que dele se apreende não é tanto a experiência do acontecimento, que efetivamente se desconhece nos seus traços devidos, mas o horizonte de possibilidades que a sua irrupção tornou viável no presente. Não se trata de considerar o 25 de Abril um instante fechado sobre si mesmo, mas antes a condição de possibilidade de um conjunto de valores hoje tidos por adquiridos: a liberdade, a igualdade, o dissenso – mais do que o consenso, que constituía, ainda que de forma artificial, o alfa e o ómega da ditadura –, a discussão e o escrutínio.
Mas esta leitura, pese embora a ancoragem num conjunto largo de dados, não colhe junto de todos os portugueses. Há quem preferisse o tempo das colónias e, por isso, tenha considerado a descolonização um gesto de mau gosto; há quem se afaste do exercício democrático mais elementar, recusando o voto em favor de uma autoridade delegada e não questionada; há quem dispense o esforço de se informar, preferindo a comodidade de uma orientação externa; e há, ainda, quem leia a Constituição da República Portuguesa não como um garante de direitos, de liberdades e de garantias, mas como um instrumento de imposição e de restrição.

É, em parte, para estes que a ausência do cravo vermelho – a par de outros elementos visuais associados à Revolução de 25 de Abril – parece ser dirigida. Trata-se de um gesto que reforça esta leitura cética ou desgostosa, ainda que de modo contido e quase hesitante, como se a sua expressão discreta bastasse para ser reconhecida por quem a procura. Num dia em que a norma social tende para a inscrição simbólica da memória coletiva no corpo – frequentemente pelo adereço ou pela repetição ritualizada de um signo –, a omissão deste código não passa despercebida. Pelo contrário, afirma-se como um gesto comunicativo por subtração.
Os festejos à direita, empiricamente demonstrados como mais sóbrios, contidos e discretos do que à esquerda, convergem neste mesmo registo de contenção. Não há espaço para o excesso simbólico, para o improviso nem para uma expressividade enfática. Se tomarmos a comunicação política em sentido lato – enquanto um ecossistema de signos que abrange discursos, gestos, silêncios, imagens e aparências –,esta escolha estética surge passível de duas leituras: como expressão de uma determinada conceção de sobriedade institucional ou como um discreto aceno a uma direita de matriz mais conservadora, de ressonância salazarista.

Nunca saberemos, de facto, a não ser que façamos perguntas e que a elas seja associada uma resposta honesta. Porém, como raramente sucede, esta neutralidade está longe de ser isenta de implicações; num contexto densamente codificado como o do 25 de Abril, em que a memória democrática se corporiza em signos partilhados, a decisão de não aderir plenamente a esta codificação visual configura, por si só, uma forma de posicionamento.
Talvez o caminho resida menos na redução dos símbolos a um “mimimi” e mais na interrogação do que eles nos permitem ver. O que aqui se torna visível é uma forma de presença que não procura disputar o espaço simbólico dominante, optando por existir com ele – de modo discreto, quase marginal, mas plenamente inscrito no campo de significação.
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30/04/2026