À descoberta de Pindorama: Porto Seguro e adjacências

 À descoberta de Pindorama: Porto Seguro e adjacências

Vista do alto da Cidade Histórica, Porto Seguro. (Créditos fotográficos: Jackeline Gomes – pt.wikipedia.org)

Chegou-se a Porto Seguro. Segue lento o taxista, no curto caminho que leva até ao hotel. A demora justifica-se pela chuva que vai retendo o trânsito. A princípio, ele fala consigo mesmo, resmunga algo em baianês.

Ao dirigir-se a mim, impedido de dirigir como desejava no decurso do pequeno trajeto, tenho as primeiras aulas de um novo idioma no nosso mesmo idioma: “Isso me deixa avexado [impaciente]. Ora! Se plante! [Atenção!] Tá vendo? Bora! [Vamos embora! Diacho!]”

“Não é de ficar virado no cão [estar furioso], estarmos parados no meio dessa porr*? [sic]”, adiantava o taxista.

Eu digo-lhe que não tenho pressa alguma. Que poderíamos estar a ir sem pressa alguma de chegar.

Ele surpreende-se com o meu “sotaque” e manifesta: “Oxente! O senhor é estrangeiro?”

Pequenas casas e lojas na Praça Manoel Ribeiro Coelho, em Porto Seguro, Bahia. (Créditos fotográficos: HVL – pt.wikipedia.org)

Pergunto-lhe a razão de ele estar a pensar assim. Ele explica: “Pega a visão! [Presta atenção!] Conheço todo o tipo de brasileiros ao exercer a minha função. Desde o mineiro, que a tudo o que aqui vê diz ‘Nu!’ [onomatopeia de ‘Nossa Senhora!’], o paulista que diz ‘Daora!’ [Muito bom!], o carioca que diria estar ‘bolado’ com o trânsito, mas nunca vi um brasileiro dizer ‘pressa alguma’. Eu diria ‘pressa nenhuma’.  E ‘estar a ir’ não seria ‘indo’? Já sei,  é português!” É perspicaz, o rapaz!

Baianas do Senac Pelourinho, em Salvador, Bahia.
(Créditos fotográficos:  Amanda Oliveira –salvadordabahia.com)

Não afirmo nem nego, deixo-o pensar que eu seja. Ou, senão, debocharia de mim a dizer-me algo assim: “Faz-me uma garga!  [Encurtamento de ‘Você me faz gargalhar!’] Ora, ora, por favor! Que coisa é essa de falar como um português, sem  sequer o ser.” A sua baianidade se estabiliza: perdeu a pressa, ele já sorri.

Já estou acostumado com o sobressalto que provoco quando o meu idioma particular toma de assalto os ouvidos dos meus conterrâneos. Nada de novo, portanto. 

Por fim chegamos. Ele não mais está na bruxa (irritado). Aprendi a expressão quando ele se desculpa por ter estado na bruxa no trajeto.

Acarajé store – Porto Seguro, Bahia. (Créditos fotográficos: Amanda
Coutinho – pt.wikipedia.org)

Encontro uma demora no check-in, a gerar estampidos de insatisfação nos recém-chegados. Mas os funcionários não são lentos por estarem descambixados (ou desanimados). Na verdade, tudo na Bahia ocorre assim: em slow motion. Faz parte!

Terra da preguiça? Não! Um jeito de ser: a Bahia é um estado de espírito.

Fingem que trabalham, são miquelosos (ou seja, põem-se a enganar os outros)? Aprendi esta ao ouvir um baiano a referir-se à postura dos baianos. Entretanto, como foi que a Bahia passou a aludir aos enganadores sendo miquelosos não sei como terá sido. Afinal, o que diria um miguelense1 ao ouvi-la? Terá havido algum miguelense que enganava o patrão, sempre a brocar? (Isto é, para se dar bem?) Ou um nativo terá estado a brocar, estando a enganar o Miguel, um patrão miguelense?

Salvador, no estado da Bahia. (Créditos fotográficos: Roberto Huczek – Unsplash)

Enfim, chegou a minha vez. A rapariga exibiu um sorriso, radiante, abriu-me  caminho: “Olá, meu rei!” É incrível isto! Para eles, o outro será sempre meu rei! O que sugere estarem sempre ao dispor. Ou talvez sugira: ”Aqui, quem manda é você, sobra-me preguiça de mandar em você.” Que submissão terna e irreverente, eles têm o poder de debocharem da sua lentidão e da nossa impaciência, desestressando-nos prontamente.

Ela pede o meu documento. Forneço. Pergunto onde seria o quarto, com receio de que fosse defronte da piscina, do bar e dos emissores sonoros. Referi-me à habitação, não disse “quarto”. Ela ouviu e olhou para o meu documento com hesitação.

Salvador, na Bahia. (Créditos fotográficos: Marco Alves – Unsplash)

Levou a mão à cabeça e ao queixo, intrigada, decerto a pensar: “Que brasileiro é este que fala como um português?” Nada concluiu, respondeu incerta de ter sido compreendida: “É bala!” O  que significa: “O quarto é muito bom!” 

Sorriu e entregou-me o cartão (a chave) e logo emendou: “Não se apoquente com essa laranjada! Esse toró logo passa!” Referia-se ao contratempo da chuva. 

Mostrei-me baiano no seu idioma e disse-lhe: “Vou me enfurnar no hotel, lá fora não vou mais hoje. Quem vai é o coelho!” (Isto não vou fazer!) Ela expandiu o sorriso, quase a gargalhar: “Tá certo, meu rei!”

Terei redimido as suas dúvidas quanto à minha brasilidade, muito embora ainda parecesse estranhar que dantes eu falasse como Cabral2. Vai entender?

(instagram.com/portoseguro.bahia)

O valete à frente do elevador foi menos receptivo. Ligeiriço, demandou: “Vai, caminha!” Entendi que seria subir pelo elevador.

Da varanda da habitação, via-se e ouvia-se os splashes animados advindos de dentro da piscina e ademais uma música com altos brados, o que me causou desconforto. A chuva parara. Ouvi alguém dizer a alguém, na varanda ao lado: “Pega a visão!  Te apressa!” “Ora, se pique! [Cai fora!]”, respondeu-lhe a outra pessoa. Baiano nunca tem pressa, não!

Aprendiz de baianês, tardei-me um pouco para vir a estar a vislumbrar o marco português. Aquele primeiro monumento erguido no país e que ninguém sabe, ao certo, quando fora por ali fincado. A Bahia nunca conta nem apressa o seu tempo, em tempo algum. Quem sabe se, um dia, alguém estará a dizer que já sabe quando foi, ainda que de prega (isto é, que esteja com preguiça) para contar, irá dizer: “O que era barril [o que era difícil] de entender não mais é!”

Pois é! E adiará a explicação ao ser perguntado: “Então quando foi que…?”

Ponte Humaitá, em Salvador, no Brasil. (Créditos fotográficos: Amanda Silva – Unsplash)

“Fica pra depois,  estou a fazer cocó!” O que equivale a fazer algo pelas costas. Ou seja,  pesquisas, contas e algo assim. 

A Bahia não é para os apressados. Ela despreza os calendários, os relógios. Isso vem sendo assim desde que a conhecera o Pero Vaz3: “É como ela caminha, meu rei!” Todavia, Porto Seguro não me segura. Haverá de ser o ponto de partida para Trancoso, Arraial da Ajuda, Caraíva, Corumbaú, Cumuxaratiba, Prado… A dar umas voltas, volta e meia,  o idioma de Cabral e o de Pindorama4 me chamam! Um lugar de convergência para aumentar o léxico e, sobretudo, para estar longe o bastante de qualquer pressa ou de estranhamentos étnicos… Um lugar onde todos se entendem. A Bahia é um estado de espírito. Fornece e estabelece o que, realmente, interessa!

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Notas da Redacção:

1 – Da cidade de São Miguel dos Campos, no estado de Alagoas.

2 – Pedro Álvares Cabral comandou a frota portuguesa que chegou ao Brasil em 22 de Abril de 1500, avistando o Monte Pascoal, na Bahia.

3 – Pero Vaz de Caminha foi um fidalgo português que se notabilizou nas funções de escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral. 

4 – Pindorama, do tupi-guarani, “região das palmeiras” ou “terra livre dos males”; é a designação indígena para o território brasileiro antes da chegada dos Portugueses, em 1500.

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30/04/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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