El Salvador
(Créditos fotográficos: Luis Desiro – Unsplash)
Andava eu pelo México a ter adiante, digo no caminho de volta, um tempo de conexão de oito horas. O bastante para me aventurar e ver alguma coisa de San Salvador, El Salvador. Contratamos pela Internet um tour privativo, viajávamos eu e um velho amigo, estávamos entusiasmados: afinal, conheceríamos uma capital da América Central onde, para ele, especialista em Natureza, solos e recursos hídricos, seria bem interessante estar a pisar um vulcão; e, para mim, teólogo, vir a conhecer o jazigo de Dom Óscar Romero, que ainda era beato, não santo, assim como a catedral onde ele jaz.

Sendo assim, chegámos no aeroporto que levava o nome do beato desde 2014 (foi canonizado em 2018) naquele mesmo ano, o de 2014. O meu amigo, como todos os outros passageiros, passou pela Imigração sem embaraços. Porém, não tive a mesma sorte. A agente ou oficial de serviço parecia ter lido algo no ecrã ou simulou ter lido e foi lá para dentro com o meu passaporte, a mais parecer que nunca mais iria voltar. Eu fiquei ali, estanque, sem poder avançar nem recuar. Naquele ínterim, entre o nada e o nada.

(pt.wikipedia.org)
Perdi a noção do tempo na longa espera, deveras preocupado com o que haveria de estar a passar-se. Como também poderia vir a acontecer uma desistência do guia contratado por tanto nos esperar e o tour nem mesmo se efetivar. Num dado momento, lá veio ela a entregar-me o passaporte e, ao abrir a fita de via impedida, deixou-me finalmente passar. Estivemos a buscar o guia sem sucesso até que, ao decidirmos por tomar um café, alguém nos advertiu que lá fora se encontrava um guia motorista à nossa espera.
O humor do sujeito e o conforto do carro não pareciam nada promissores, o tempo do tour seria menor, uns inúmeros cortes àquilo que se iria ver. Mantivemos o nosso interesse no vulcão e na catedral. Ciente disso lá se foi ele apressado e nada simpático a levar-nos. O Parque Nacional El Boquerón, onde fica o vulcão, conduz a uma caminhada e tanto. Ele corria apressado, tínhamos de acompanhá-lo.

Pelo caminho, uma sucessão de pequenas lavas negras a mais parecerem lenha queimada. Ninguém as tirou de lá. Supostamente, já fazia um bom tempo que o vulcão se cansara e aposentara, mas eram indícios de que ali houvera atividade. Entrámos numa enorme cratera a quase nem mesmo nos darmos conta disso entre árvores, macacos e aves. Há muita vida ali, dado o vulcão aquietado isto permitir. Por fim, chegámos a um ponto de observação da boca do vulcão (Boquerón = boca grande) que mais me pareceu um umbigo, um torrão terroso como aqueles encontráveis num formigueiro. Na verdade, até muito sem graça.

A volta a pé até ao carro foi novamente árdua e apressada. Chegou-se ao centro da cidade. Um palácio governamental grandioso a contrastar com um casario pobre. E, por fim a catedral. Jazigo permanente de Óscar Arnulfo Romero Galdanéz, o arcebispo que fizera a opção pelos pobres. E que foi assassinado no momento que erguia o cálice sagrado numa homilia. A sua opção pelos desprotegidos e o seu discurso em favor deles amealharam-lhe inimigos.
A estrutura que lhe serve de túmulo é de bronze e representa o seu corpo a tombar cercado de quatro anjos que assinalam os quatro evangelhos, como me explicou uma freira que ali se encontrava. Ela ainda me deu de regalo: uma pequena estampa do beato com uma relíquia de segundo grau inserida.
Já a tarde avançava e o guia esperava lá fora, olhava para o relógio, findava-se a curta visita a San Salvador. Um lugar que, durante décadas, ninguém para lá ia, pois seguia atribulado de conflitos. Um lugar violento. Miserável até mesmo em liberdades pessoais. Mas, na época em que fui, dizia-se ter-se restaurado e ganhara um fluxo de visitantes considerável.

A viagem teve ainda um tempo de conexão na Colômbia, o que não me permite precisar onde foi a invasão e o dano causado à minha mala. Ela foi, literalmente, arrebentada, violada. Menos mal: nada foi suprimido, nem mesmo o CD de Jean- Luc-Ponty, datado de 1983, que contém “Eulogy to Oscar Romero”; nem o livro “Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media”, escrito por Edward S. Herman e por Noam Chomsky (publicado em 1988), que alude ao assassinato de Dom Óscar Romero, em contraponto ao trato que a imprensa se pôs a desprezar o facto. O livro revisa o embotamento que os media aplicam a aqueles que ameaçam o sistema, aponta para o jornalismo acrítico e desinformativo, sempre a favor dos interesses corporativos. Eu trazia essas coisas de segunda mão adquiridas no México, uma terra mágica que será o tema da nossa próxima crónica. Até lá!
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11/06/2026