Das nomeações na EGEAC
(egeac.pt)
Em ditadura, um cargo fica ocupado o tempo em que se mantiver fidelidade ao chefe e este confiar no chefiado. Em democracia, a rotatividade é, ou deveria ser, normal. Porém, o alarido feio em torno de substituições operadas em organismos da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC, que passa a chamar-se Lisboa Cultura) – nomeadamente, Teatro do Bairro Alto e Museu do Aljube –, no final de mandatos, vem sendo feito como “saneamentos políticos”.

É o resultado de lóbis que se consideram os eternos donos de tudo. Mas não só. É também o resultado da inexistência de visões verdadeiramente estratégicas para uma política cultural, em que esquerda e direita convergem em dois pontos: não a têm e “aceitam” que a cultura é pertença da esquerda (certos grupos de “influencers” pseudo-inteletuais), sendo que a primeira o assume como seu feudo e a outra como sua inimiga.
Enquanto assim for, quem sofre é a cultura e os criadores não sancionados por esses “influencers”, mais a casca de banana em que escorrega a comunicação social. Pessoalmente, sempre que ocupei um lugar de direcção, quando mudava a administração (gostasse ou não) punha de imediato o meu lugar à disposição. Não fui para os jornais fazer-me de vítima. Tenho respeito por mim, pelas organizações (que procurei servir e não para me servir delas) e pelo que são, deveriam ser, valores de cidadania democrática.

Estou a pensar nas supostas denúncias – independentemente do meu posicionamento político-ideológico (partidário não tenho nenhum) “desalinhado” com o executivo da Câmara Municipal de Lisboa. A cultura tem ideologia, é legítimo e é-lhe inato, mas a política cultural não se deve reger por ela. Há quem não pense assim. Seja o decisor escrutinado ou seja o que se considera decisor definitivo. O alarido é mil vezes mais injustificado do que a normalidade da rotatividade. É o caso.
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23/03/2026