Quando nos estragam a Primavera

 Quando nos estragam a Primavera

(Créditos fotográficos: Lisa – pexels.com)

Oficialmente, a Primavera está aqui, nos braços das árvores que se vestem. Por causa dos acertos nos percursos cósmicos, chegou na sexta-feira, ainda com ameaças de chuva – como se não bastassem as águas dos meses recentes –, embora com a promessa de nos colorir a terra de muitas flores. Na prática, é uma vinda esperada todos os anos, por esta altura, no Hemisfério Norte, até que os dias aqueçam mais.

Pormenor do quadro “Vigário”, aguarela de Zulmira Bento. (Direitos reservados)

E eu também não escapo a tal vontade de renovação. Enquanto procuro dar algum sentido a esta crónica, folheio o belo livro que a minha amiga Zulmira Bento publicou em Maio de 2021, sob o título “Alcanena da Serra ao Rio”. E repito o prazer da leitura de uma escritora e aguarelista que nos merece um olhar mais atento, principalmente pela sobriedade poética e pela suavidade com que pinta as paisagens naturais e construídas do território da sua infância.

Conhecendo muito bem o seu chão e as suas raízes, Zulmira Bento – que escreveu a sua primeira obra de poesia em 1988, “Janelas de Papoilas” –, oferece-nos, com a sua capacidade de depuração e serenidade, uma monografia em que a marca identitária de uma comunidade se refugia num criativo diálogo interior.

Nascida em Vale Alto, na freguesia de Minde, a autora conta-nos que entre si e o seu espaço natural se estabeleceram profundos vínculos afectivos. Assim, ocorreu-lhe juntar a poesia à pintura num só trabalho, “reflectindo todo o indivisível” da pessoa que é. Com duas dúzias de aguarelas e uns tantos poemas, tenta seduzir-nos com os encantos do património natural, histórico e cultural do seu concelho. E, no que me toca, conseguiu, levando-me a redescobrir, a par da Azenha de Filhós e da zona do Vigário, o Parque do Rio dos Cantos: “[…] Como se o universo / Coubesse neste lugar.”

Pormenor do quadro “Parque do Rio dos Cantos”, aguarela de Zulmira Bento. (Direitos reservados)

Não precisamos de virar o planeta do avesso para vermos assombradas as cores primaveris. Muitas vezes, penso na célebre frase de Jean-Paul Sartre, retirada da peça de teatro “Huis Clos” (“Entre Quatro Paredes”). Marcada pelo existencialismo do filósofo e crítico francês, traduz o ónus do olhar alheio, bem como o respectivo julgamento e a prisão da liberdade individual: “O inferno são os outros.”

A exasperação invade-nos o presente. O Mundo está a esventrar-se. Quase centena e meia de conflitos armados banalizam a morte em vários continentes. Por isso, também admito que, não sendo uma tarefa exclusiva dos intelectuais de determinada época, temos todos de desempenhar um papel activo na sociedade, para contrariar os senhores da guerra.

(Créditos fotográficos:  wandemokkori – pixabay.com)

No seio da Europa, a Ucrânia responde com drones e com os meios possíveis para destruir os centros de operações dos bombardeiros estratégicos que a Rússia utiliza contra o seu território, visando asfixiar a capacidade logística e económica de Moscovo. O Médio Oriente, há várias décadas, tem sido palco de tensões geopolíticas e de guerras – algumas delas internas ou fratricidas – de forma praticamente contínua, tendo em conta as raízes históricas profundas partilhadas por judeus, cristãos e muçulmanos que alimentam as disputas territoriais e escancaram as fronteiras às intervenções externas. A ofensiva militar de grande escala contra o Irão, por alegadas desconfianças sobre o programa nuclear iraniano, e o consequente encerramento do Estreito de Ormuz, a que se juntam as retaliações contra zonas residenciais de Israel, bases militares norte-americanas na região e ainda outras infra-estruturas e alvos civis de países vizinhos, não nos tranquilizam, sobretudo quando as distâncias encurtam.

Famílias descansam numa rua em Beirute, no Líbano, após fugirem de casa devido às ordens de evacuação israelitas. (Créditos fotográficos: UNICEF/Dar al-Mussawir)

Estamos, de facto, a precisar de mais poesia. Termino com a primeira parte do poema “Canción Primaveril”, escrito por Federico García Lorca, em 28 de Maio de 1919: “Salen los niños alegres / De la escuela, / Poniendo en el aire tibio / Del abril, canciones tiernas. / ¡Qué alegría tiene el hondo / Silencio de la calleja! / Un silencio hecho pedazos / Por risas de plata nueva.”

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 22 de Março) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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23/03/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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