30 anos da Geração Pokémon
(© Marco Dias Roque)
Não é muito comum precisar de um bilhete, mesmo grátis, com hora de entrada marcada, para entrar numa loja. Que a loja esteja no prestigioso Museu de História Natural de Londres ajuda a explicar que os bilhetes se tenham esgotado em horas, mas não por que há tantos interessados. E que a média de idade dos visitantes esteja por cima dos 30 anos e todos os produtos pareçam mais indicados para crianças só pode ter uma explicação. Bem-vindos a uma loja Pokémon em pleno 2026. T-shirts, livros, pósteres e peluches, tudo enfeitado com desenhos dos bichos. E, claro, cheia de gente com dinheiro para gastar.

O primeiro Pokémon que capturei, por volta de 2000, foi um Bulbasaur. Não sei bem o que levou à minha escolha; um Bulbasaur parece um sapo verde com uma planta às costas que, após duas evoluções, se transforma num Venusaur, um dinossauro com uma grande flor vermelha aberta nas costas. A escolha do nosso primeiro Pokémon é algo que fizemos em criança e que, para muitos, acabou connosco para a vida.
O Pokémon Azul, lançado em 1996 e disponível no mundo ocidental a partir de 1998, foi o primeiro jogo de que me lembro de ter terminado. Não me perguntem como acabei um jogo com os meus conhecimentos rudimentares de Inglês, mas foram horas dedicadas a colecionar vitórias contra outros treinadores, lutar contra os vilões do Team Rocket e, sobretudo, tentar apanhá-los todos. O meu Bulbasaur era o primeiro dos 151 monstros disponíveis na época. Hoje, existem mais de mil.

Três décadas de popularidade não surgem do nada. O jogo tem uma profundidade estratégica inesperada. Não só existe uma grande variedade de monstros para utilizar, mas cada um representa uma combinação de 18 elementos que interagem numa espécie de pedra-papel-tesoura levada ao extremo. A entrada é fácil; a mestria requer um conhecimento profundo do sistema.

O design icónico dos bichos também ajuda. Mesmo que não conheçam o Bulbasaur ou o Squirtle, identificariam um Pikachu em qualquer lado. Como t-shirts de bandas, reconhecer símbolos com os quais nos identificamos nos demais ajuda a criar um sentimento de comunidade. Duas pessoas que levem um pin de uma Poké Bola sabem que pertencem à mesma tribo.
Além disso, a Nintendo teve uma jogada brilhante para forçar o fenómeno, lançando jogos, cartas, filmes e merchandising em simultâneo. Uma estratégia de sucesso que resultou em mais de 120 jogos lançados e 75 mil milhões de cartas produzidas. Desde o primeiro dia – do mais primitivo dos Game Boys até ao jogo de cartas –, para jogar Pokémon, era preciso estar com amigos. E quando o interesse parecia esfriar, o Pokémon Go levou a franquia para fora das consolas e renovou o interesse global nos monstros em 2016. Toda uma nova geração conheceu Pokémon de novo.

Além desta máquina comercial, haverá algo mais que leve adultos a dedicarem tempo e dinheiro a coisas para crianças? Quando eu estava na loja, havia um homem muito indeciso sobre qual t-shirt levar. Ia e pegava numa, punha à frente do corpo e olhava no espelho. Levava o cabide, pegava noutra e repetia o movimento. Acho que, nesse momento, ele não era uma pessoa de 30 anos, mas sim a criança que via os desenhos animados ou dedicava horas a capturar monstros. E estes monstros não existiriam se não fosse por um miúdo sem medo de sujar as mãos.
Ao crescer nas décadas de 60/70, no Japão, Satoshi Tajiri, o criador do jogo, passeava por florestas e vales para colecionar insetos e trocá-los com amigos. Com o passar dos anos, a zona onde cresceu (Machida) transformou-se numa parte da megacidade que é Tóquio e os espaços naturais desapareceram. Por isso, Satoshi imortalizou os seus sonhos de criança nesta versão digital. Esta colaboração entre o Museu de História Natural de Londres – que também tem uma grande coleção de insetos – e Pokémon é feliz. Com direito a uma miniexposição sobre a sua ecologia, os monstros digitais convivem bem com os fósseis do museu. É uma união inesperada entre entomólogos ingleses de séculos passados, uma ideia de um japonês que nasceu em 1960, adultos que replicam filas dos anos 90. Todos guiados por uma curiosidade comum: “Qual é o próximo bicho que vou descobrir?”
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02/04/2026