Regresso a casa
Santiago do Chile. (Créditos fotográficos: Francisco Kemeny – Unsplash)
Páscoa em Santiago do Chile, numa breve viagem para visitar familiares e amigos. O meu país de origem transforma-se com a nova presidência de um representante da direita chamada “republicana”, que se identifica com as mais retrógradas de América Latina.
Foi o tempo para voltar a uma das casas que me são muito significativas: a Escola de Teatro da Universidade do Chile (Departamento de Teatro), com quase um século de vida. É, hoje, dirigida por Annie Murath, docente, actriz e cantora, também possuidora de um encanto e de uma amabilidade, como se observava nos anteriores directores desta escola, com os quais privei em anos passados, os professores José Pineda e Igor Pacheco.

Assisti a um exercício final, baseado na peça de Peter Weiss “Marat / Sade”, assim curtamente chamada e conhecida, que relata a morte do revolucionário francês Jean-Paul Marat, por Charlotte Corday, e representada pelos doentes internados no hospício de Charenton, sob a direcção do Marquês de Sade.
Esta versão livre de “Marat / Sade” é uma encenação de Jesús Urqueta, protagonizada por actrizes e por actores, junto de “designers” teatrais do Departamento de Teatro da Universidade do Chile (DETUCH), com a colaboração de César Erazo.

O encenador sublinha a “coralidade” da peça, desdobrando as personagens, no caso de Corday, três actrizes; e no caso do Marquês de Sade, dois actores, uma mulher e um homem. O elenco maioritariamente feminino – facto que não me surpreendeu, pois, neste momento, há mais raparigas a estudar teatro do que rapazes. Isto também, entre nós, representa – com emoção, vivacidade e energia – algo que notamos sempre na actuação de alunos finalistas, nos quais dominam sempre a emotividade e a entrega.

encenador, poeta, cantor, compositor, músico e activista
político chileno. (pt.wikipedia.org)
A estreia da peça aconteceu na Alemanha, dividida em 1964, e teve repercussão a nível mundial. No Chile, foi representada no ano de 1966, antes da ditadura militar, pelo Instituto de Teatro da Universidade de Chile (ITUCH), com encenação do norte-americano William I. Oliver, com assistência de encenação do cantor e actor Víctor Jara.
Neste período pascal, também tive oportunidade de assistir a um ensaio geral da peça “A Casa de Bernarda Alba”, de Federico García Lorca, uma das componentes da mais bela trilogia sobre a Espanha antes da Guerra Civil, composta por “Bodas de Sangue” (a luta fratricida) e por “Yerma” (a aridez e a infertilidade). Este espectáculo abriu a temporada de 2026 do Teatro Nacional Chileno e é, assumidamente, um clássico imprescindível de Federico García Lorca.
Com encenação de Rodrigo Pérez, esta nova versão revive uma das peças mais intensas do repertório universal, marcada pela opressão e pelo desejo reprimido nas tensões familiares. Estamos perante uma “encenação que dialoga com o presente e que nos confronta com perguntas sobre o poder, sobre a liberdade e acerca dos silêncios que ainda persistem.

Quando passam 90 anos do assassinato de Federico García Lorca, a sua peça volta à cena como um texto vivo, vigente e profundamente necessário. No elenco, destaca-se Claudia Di Girolamo, como Bernarda, e nos papéis das filhas e da Póncia, as actrizes Francisca Márquez, Roxana Naranjo, Nicole Vial, Julieta Figueroa, Maria José Parga, Carla Casali e Marcela Millie.
O vigor e a vitalidade do teatro no Chile não me espantam, porque é de uma longa e histórica tradição. Hoje, ainda é mais necessária na sociedade chilena desafortunadamente em transformação.
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Nota da Redacção:
Se quiser saber um pouco mais sobre o papel dos artistas chilenos que estiveram envolvidos na estreia mundial da peça “A Casa de Bernarda Alba” na Argentina, leia o texto de opinião de Roberto Merino “Palco 123 – Republicanos – III parte – Margarita Xirgu (1888-1969)”.
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09/04/2026