112, número de emergência: cinema
(Créditos fotográficos: Myke Simon – Unsplash)
Foram 112 as salas de cinema que fecharam a sua actividade no ano passado. E há, neste momento, capitais de distrito sem uma única sala de exibição… Nunca tantas pessoas viram cinema como hoje, mas nunca tão poucos espectadores nas salas tradicionais. O fenómeno deve-se às plataformas de exibição “streaming”, ou seja, de transmissão digital contínua, feita por plataformas que oferecem esses serviços de apresentação.

O cinema é uma potência económica. Envolve festivais, ciclos, espectáculos musicais com projecção simultânea, encontros de cinema, mostras cinematográficas e outros eventos vinculados ao cinema, os quais demonstram a sua vitalidade, sem falar das festas dos Óscares, dos prémios Bafta e dos prémios César (na França), nem dos festivais mais mediáticos de Veneza e de Cannes.
O cinema, como espectáculo assistido, está em regressão. É um fenómeno mundial ao qual parece difícil escapar. O governo português já está a tentar medidas a este respeito, através de subsídios e de apoios comparticipados com as câmaras municipais e outras entidades.

No entanto, o cinema resiste. Neste contexto, há duas notícias que vale a pena destacar:
1 – Dois meses de trabalho de padre e filho: a odisseia de (re)instalar o primeiro proje[c]tor de 70 mm em Madrid. David Pereira (pai) e David Pereira (filho) são os responsáveis de trasladar e ajustar o aparelho nos Mk2, no cinema Paz/Madrid, que se inaugurou com a versão íntegra de ‘Kill Bill: the Whole Bloody Affair’ de Quentin Tarantino.1

2 – “Winnipeg, o navio da esperança”: a história real e animada do exílio espanhol realizado por Beñat Beitia e Elio Quiroga com a participação da RTVE, estreia nas salas a 5 de junho. Conta a história do cargueiro francês, fretado pelo poeta Pablo Neruda, que transportou mais de 2200 pessoas para o Chile. Em 1939, o navio mercante francês Winnipeg, que mal tinha capacidade para 100 oficiais e tripulantes, acabou por transportar mais de 2200 pessoas que procuravam refúgio no Chile. Uma viagem em busca da liberdade que é retratada em Winnipeg, o navio da esperança, o filme de animação, baseado na novela gráfica de Laura Martel, conta com a participação da RTVE na produção.2
Enquanto houver cinema, poderemos sempre revisitar e reinterpretar a nossa História!

Cinema e teatro
“O cinema representa o primeiro intento, desde o começo da nossa civilização individualista moderna, de produzir arte para um público de massas. Como é sabido, os câmbios na estrutura do público teatral e leitor, unidos ao início do século passado com a ascensão do teatro de bulevar e os romances/novelas de cordel, constituíram o verdadeiro começo da democratização da arte, que alcança o seu momento mais alto na assistência em massa aos cinemas.

O socialista Jean Jaurès definiu o cinema, quando este ainda estava a dar os seus primeiros passos, como “o teatro do proletariado”. Com isso queria dizer que o cinematógrafo cumpriria a função de culturizar e socializar a classe operária do mesmo modo que o teatro o havia feito antes com a aristocracia e a burguesia. O cinema nasceu como uma forma mais de entretenimento popular: a influência nas primeiras películas do vaudeville, do circo, das figuras de cera ou da banda desenhada, formas de expressão consideradas vulgares e de feira. […]”3
As ligações das primeiras fitas argumentais nutriram-se da sua relação com o teatro tanto nas temáticas como nas formas de expressão dos actores que transferiram para o cinema um estilo de representação carregado de gestos e atitudes desmesuráveis, aquilo que hoje poderíamos qualificar de over-acting (representação exagerada).
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Teatro Nacional São João: livro de Salvador Santos
No Teatro Nacional São João ()TNSJ), na cidade do Porto, assistimos ao lançamento do segundo volume do livro “Os Meus Queridos A[c]tores”, de Salvador Santos.

Neste segundo volume, Salvador Santos reúne mais um conjunto de biografias amorosas de actores e de actrizes que o marcaram, enquanto depositários das suas afinidades electivas. Definindo-se como “fazedor de teatro”, Salvador Santos treinou a mão em quase todos os domínios da criação teatral, em mais de cinquenta anos de trabalho. Seguindo uma nota informativa do TNSJ, registamos que, de actor a contrarregra, de ponto a director de cena e gestor, o trajecto de Salvador Santos também se fez na produção de festivais (destacam-se as três edições do festival de teatro PoNTI, no TNSJ), espectáculos de ópera, de televisão e exposições de artes plásticas. Deixou a sua marca em dois teatros nacionais e em diversas companhias e grupos de teatro, mantendo-se activo na área da gestão e da produção cultural.

Este novo volume dedicado à memória da sua mulher Elisabete Leite, que foi costureira e mestra de guarda-roupa do Teatro Nacional D. Maria II e do TNSJ, é um acto de amor e de fidelidade para com todos aqueles que o acompanharam no exercício do teatro, e para com aqueles com quem aprendeu a respirar o “sopro” do actor ou o âmago da representação. Ficamos à espera do terceiro volume!
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Notas:
2 – “Winnipeg, el barco de la esperanza”: la historia real y animada del exilio español.
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23/04/2026