Ainda não assimilámos o sentido dessa manhã de Abril
Revolução de 25 de Abril de 1974. (arquivos.rtp.pt)
Estamos a menos de uma semana de comemorar a luminosa e surpreendente data da ruptura política e social de há 52 anos. Nessa manhã, eu e os poucos rapazes e raparigas da aldeia e dos lugares próximos não fomos na camioneta para Torres Vedras, onde teríamos aulas. A minha mãe e as vizinhas trocavam conversas em surdina e sem informação que acalmasse os seus receios: “Dizem que os militares estão na rua, que há uma revolução!…”

O tempo, essa presença que nos faz crescer e nos cobre de rugas, permite-nos alguns avanços e retrocessos na liberdade individual e colectiva, sustentada na esperança de um projecto exemplar de governação que garanta uma mais justa redistribuição da riqueza, ao abrigo dos princípios democráticos.

Obviamente, passámos a sonhar com um novo modelo de vida, com outros valores sociais e também a reivindicar ou a experimentar algumas exigências, acreditando nos objectivos fundamentais gizados pelo Movimento das Forças Armadas, com a Revolução de 25 de Abril de 1974: democratizar, descolonizar e desenvolver. Alcançámos metas que nos afastaram do atraso estrutural do país, mas muito ficou por fazer sob o manto desse ideal que vai balançando entre a igualdade social e o Estado mínimo.
“Quando o tempo deixa de existir, resta o silêncio”, declara Céleste Albaret, que trabalhou na casa de Marcel Proust, de 1914 até à morte do autor da volumosa obra “Em Busca do Tempo Perdido”, publicada em sete partes, entre 1913 e 1927.

pintor Jean-Claude Fourneau (óleo sobre tela, 1957). À direita: retrato
de Marcel Proust (1892), por Jacques-Émile Blanche, Paris, Musée
d’Orsay. (pariszigzag.fr)
“Hoje, percebo que toda a busca de M. Proust, todo aquele imenso sacrifício à sua obra, se destinava a colocar-se fora do tempo para o poder reencontrar”, observa a biógrafa e confidente deste precursor do romance contemporâneo, tendo sido testemunha dos “oito anos-chave” da sua vida de auto-reclusão imposta pela necessidade de concluir essa obra monumental. “Ele precisava daquele silêncio, para ouvir apenas as vozes que queria ouvir”, conta-nos Céleste Albaret. Se calhar, nos nossos dias conturbados e de muitas verdades construídas na corrida contra o tempo, também carecemos de um silêncio que nos inspire e renove a esperança.

(vedrografias2.blogspot.com)
A cultura e a educação são ferramentas que nos abrem os caminhos da descoberta interior e comunitária, podendo levar-nos a lugares a que não estamos acostumados, ajudando-nos a compreender aqueles que julgamos diferentes de nós e a humanizarmos o nosso olhar crítico. Mas, para isso, é preciso estímulo, abertura e acompanhamento sem imposições nem restrições.
Actualmente, são poucos os que conhecem o livro “Esteiros”, em que Soeiro Pereira Gomes manifestava o seu empenhamento na luta contra os exploradores, retratando o trabalho infantil na vila de Alhandra, durante o Estado Novo. Antes, o regime salazarista não gostava que se falasse dessa gente amordaçada e de pé descalço. Por isso, proibia e riscava com o lápis azul ou vermelho da censura.

(pt.wikipedia.org)
Como escreve António Barreto, há palavras que combinam mal entre nós: “Liberdade e cultura, por exemplo. Democracia e política cultural, também. Memória e cultura, ainda. Ou, para terminar, memória e liberdade.” Por isso, o sociólogo pensa que – assim, e sobretudo atendendo à inclusão ou não dos livros de José Saramago na lista das leituras escolares – os “livros obrigatórios para o ensino são boa ilustração”.
Mais de meio século depois desse dia libertador, subscrevo António Barreto quando defende que o “ponto essencial na discussão sobre Saramago é que não deveria haver leituras obrigatórias”. Se quiserem, sigam igualmente Miguel Torga em S. Martinho de Anta, em 25 de Abril de 1954 (quando ainda faltavam vinte anos para emergirmos de uma longa noite e do silêncio imposto): “De repente perdi-me no tempo, apontei para uns garotos que brincavam no largo, e sai-me esta da boca: – E os meus antigos companheiros…”
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 19 de Abril) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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20/04/2026