Quando tudo falha, há sempre um professor

 Quando tudo falha, há sempre um professor

(Créditos fotográficos: Ronald Felton – Unsplash)

Nas escolas públicas portuguesas, ensina-se mais do que conteúdos curriculares. Todos os dias, milhares de professores assumem, em silêncio, um papel que ultrapassa a sua função pedagógica e científica: acolhem crianças marcadas pelo abandono, pela violência e pela ausência de referências estáveis, oferecendo-lhes aquilo que nenhuma tecnologia poderá substituir – presença, exigência, afeto e esperança. Num tempo em que se multiplicam discursos sobre inovação e inteligência artificial, importa recordar que o futuro de muitas crianças continua a depender da humanidade de um professor e das condições que a sociedade lhe proporciona para exercer plenamente a sua missão.

(Créditos fotográficos: Parabol | The Agile Meeting Tool – Unsplash)

As escolas públicas são lugares extraordinários. Quem nelas trabalha e quem as conhece por dentro sabe que não são apenas edifícios onde se transmitem conhecimentos e se avaliam aprendizagens. São, na verdade, microlaboratórios da sociedade, espaços onde se refletem, em escala concentrada, as virtudes e as fragilidades do país.

Cada escola é diferente, marcada pelo território em que se insere, pelas famílias que serve e pelas histórias de vida que acolhe. Contudo, todas partilham um nível de complexidade que só encontra paralelo, talvez, num hospital público. Em ambos os casos, lida-se diariamente com urgências humanas, com situações imprevisíveis e com a necessidade de responder, com competência e humanidade, a problemas que extravasam a missão formal das instituições.

(Créditos fotográficos: Javier Trueba – Unsplash)

O trabalho pedagógico e científico é, naturalmente, o eixo estruturante da escola. É para ensinar, para promover o conhecimento e para preparar crianças e jovens para o futuro que a escola existe. Os professores são qualificados para esta função. São formados para ensinar com rigor, para despertar a curiosidade, para desenvolver o pensamento crítico e para criar oportunidades de aprendizagem significativas. Essa é a essência da sua profissão e o núcleo da sua identidade.

Mas, quando o Estado falha em garantir à sociedade os apoios necessários e as respostas sociais se revelam insuficientes ou tardias, os alicerces que sustentam o trabalho pedagógico tornam-se frágeis. E é então que a escola é chamada a desempenhar um papel muito mais vasto. Porque às crianças e aos jovens não se pode faltar.

Quando a família falha, quando os pais não conseguem ou não sabem proteger, quando as instituições de acolhimento não dão todas as respostas, quando a vida impõe a uma criança um sofrimento que não deveria conhecer, a escola permanece. E, dentro da escola, há sempre alguém que não desiste. Há sempre um professor, uma técnica, um assistente operacional que está presente, que observa, que acolhe e que insiste.

(Créditos fotográficos: Brooke Cagle – Unsplash)

Cria-se uma comunidade invisível para o exterior, pouco reconhecida pela opinião pública e quase sempre ignorada pelos discursos oficiais. Uma comunidade que torna possíveis aquilo que, à partida, pareceriam impossíveis. Essa comunidade é composta por professores, técnicos especializados, assistentes técnicos e assistentes operacionais. Contudo, são, muitas vezes, os professores que assumem o papel mais exigente e emocionalmente mais desgastante, porque sobre eles recai não apenas a responsabilidade de ensinar, mas também a de orientar e educar.

Ninguém deveria poder falhar a uma criança. No entanto, a realidade mostra-nos que isso acontece com demasiada frequência. Há crianças abandonadas pelos pais, jovens institucionalizados que não encontram um sentimento de pertença, alunos marcados por experiências de negligência, de violência doméstica e de sofrimento profundo, incluindo a pobreza familiar. E, quando todos falham, a escola continua lá. E os professores também.

(Créditos fotográficos: Adam Winger – Unsplash) 

Esta dedicação extraordinária não é remunerada. Não se traduz em suplementos salariais, em menos anos de serviço até chegar à reforma ou em mais dias de descanso. Não é contabilizada em relatórios, nem valorizada em indicadores de desempenho. Trata-se de uma entrega silenciosa, sustentada apenas por um profundo sentido de responsabilidade e por uma convicção ética inabalável: a de que a uma criança não se pode falhar.

Todavia, esta entrega tem um custo. Um custo emocional enorme, acumulado ao longo dos anos, que conduz muitos professores à exaustão. Porque os professores não trabalham com objetos, números ou produtos – trabalham com crianças e jovens, e muitos dos quais já chegam à escola a carregar o peso do Mundo.

Os professores foram preparados para serem pedagógica e cientificamente competentes. Perante dramas humanos de grande complexidade, muitas vezes, sentem-se desarmados. Podem ser profundamente sensíveis aos problemas sociais dos seus alunos, mas nem sempre sabem como ajudá-los. E vivem, por isso, em permanente inquietação, procurando respostas, experimentando estratégias e, acima de tudo, recusando desistir.

(Créditos fotográficos: Markus Spiske – Unsplash)

A escola pública é, assim, um lugar de equilíbrio, de afeto e de esperança. E os professores são o coração desse lugar. São eles que, para além de ensinarem Geografia, Português, Matemática ou História, oferecem estabilidade, escuta, exigência e confiança. São eles que, frequentemente, constituem a única referência consistente na vida de algumas crianças. São eles que acreditam quando quase ninguém mais acredita.

E, no entanto, este papel tem sido cada vez menos valorizado. Multiplicam-se discursos sobre inteligência artificial, programas inovadores, plataformas digitais, burocracias, folhas de Excel e reuniões intermináveis. Tudo isso pode ter utilidade. Porém, nada, absolutamente nada, substitui a humanidade de um professor dedicado.

Nenhuma tecnologia será capaz de perceber o sofrimento escondido no olhar de um aluno. Nenhum algoritmo poderá substituir a intuição de quem conhece profundamente as suas crianças. Nenhuma ferramenta digital conseguirá reproduzir o impacto de um professor que decide não desistir.

(Créditos fotográficos: April Walker – Unsplash)

Um professor sabe que a uma criança não pode falhar. Sabe que um gesto de atenção, uma palavra de incentivo ou uma insistência no momento certo podem alterar radicalmente o curso de uma vida. Sabe que, por vezes, um pequeno passo impede a perda total de um futuro.

É por isso que os professores merecem muito mais do que reconhecimento simbólico. Merecem condições de trabalho e valorização profissional. Porque, todos os dias, nas escolas públicas deste país, continuam a realizar um trabalho silencioso e extraordinário. Continuam a ensinar, a cuidar, a proteger e a acreditar. Continuam a fazer da escola um dos últimos lugares onde nenhuma criança é abandonada ao seu destino.

(Créditos fotográficos: Trnava University – Unsplash)

Valorizar verdadeiramente os professores exige mais do que elogios ocasionais ou homenagens simbólicas. Exige a criação de condições objetivas que lhes permitam exercer plenamente a sua missão. Significa reduzir a sobrecarga burocrática, garantir turmas equilibradas, reforçar as equipas multidisciplinares, assegurar apoio especializado para responder às situações sociais mais complexas, promover a estabilidade profissional e reconhecer, de forma concreta, o desgaste emocional inerente a uma profissão que trabalha diariamente com o que uma sociedade tem de mais precioso: as suas crianças e os seus jovens.

Nenhum país que se pretenda justo e desenvolvido pode continuar a exigir aos seus professores uma entrega ilimitada sem lhes proporcionar os recursos, o apoio e o reconhecimento que essa entrega merece.

Nenhuma tecnologia poderá substituir aquilo que define a essência de um professor.

Por isso, investir nos professores é investir no futuro coletivo. E enquanto houver docentes que, apesar de todas as dificuldades, continuem a acreditar que a uma criança não se pode falhar, haverá sempre uma possibilidade real de transformar vidas e de construir uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humana.

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04/06/2026

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Ana Rajado

Ana Rajado é natural de Coimbra. Mestre em História e licenciada em Geografia. Com experiência em jornalismo, estagiou na “Lusa” (Agência de Notícias de Portugal), colaborou com o “Jornal I”, bem como na obra colectiva “Os Anos de Salazar” (30 volumes, pela Editorial Planeta DeAgostini, em 2008). É autora do documentário “Os Corticeiros”, sobre a indústria da cortiça no Vale do Ave, e produtora do documentário “As Coisas Não São Feitas Por Acaso”, em torno da vida e da obra do fotojornalista Eduardo Gageiro. Actualmente, escreve também para o semanário “Campeão das Províncias” e para o jornal “O Despertar”.

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