Currículo e exames uniformes são dogmas que resistem
(Créditos fotográficos: kp yamu Jayanath – Pixabay)
A escola portuguesa continua presa a dois pilares que parecem inabaláveis: o currículo único e os exames uniformes. São dogmas que atravessam governos, reformas e discursos, como se fossem verdades eternas. A sua força não vem da evidência científica, mas de uma herança cultural profunda: a crença de que a educação só funciona se todos fizerem o mesmo, ao mesmo tempo, da mesma forma – e de que quem não acompanha deve ser castigado.

A reprovação como castigo merecido?
Vem nos livros antigos e nas metáforas religiosas que moldaram o nosso imaginário moral. Há paraíso e inferno. Quem cumpre é premiado, quem falha é punido. Dante explicou-o na “Divina Comédia”: o inferno está organizado por círculos, cada um com o castigo proporcional ao pecado.
Durante décadas, a escola portuguesa funcionou com a mesma lógica. A reprovação é vista como o castigo merecido de quem não estuda ou de quem, mesmo estudando, não consegue responder ao que lhe é pedido. E se não houver punição, ninguém se esforça.

Esta crença, herdada do passado, ainda hoje é defendida por responsáveis políticos e por vastos setores da opinião pública como se fosse uma exigência da qualidade. Mas a realidade internacional desmente-a de forma inequívoca: os países que praticamente não reprovam são os que lideram as avaliações internacionais, como o PISA (Programme for International Student Assessment) da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), e são também os que gerem melhor os seus recursos, precisando de menos professores para obter melhores resultados. Cada reprovação duplica o custo “aluno-ano”.
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O que mostram os países que não reprovam
Visitei escolas na Dinamarca e na Suécia, acompanhei a investigação sobre a Finlândia e, com a ajuda do Copilot da Microsoft, reuni dados de outros países. O padrão é claro.
Nos países nórdicos – Noruega, Dinamarca, Suécia, Islândia e Finlândia –, a escolaridade obrigatória decorre dos 6 aos 16 anos (7–16 na Finlândia). Não há reprovações. Não há exames durante o percurso. Há apenas uma avaliação final, aos 16 anos.

E para que servem esses exames? Não para excluir. Não para castigar. Servem para orientar: identificar a área de estudos mais adequada no ensino secundário.
- Os alunos com perfil científico forte seguem cursos mais exigentes.
- Os alunos com perfil mais prático ou com limitações seguem vias técnico‑profissionais igualmente valorizadas.
Conheci o Oskar, que sonhava ser médico. Não cumpria os critérios necessários e, com os pais, aceitou seguir um curso técnico de curta duração. Fez três meses de formação como operador de guindastes e entrou no mercado de trabalho com um salário digno. Não houve drama, nem estigma, nem punição. Houve orientação.
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A autonomia e a responsabilidade dos jovens
Também conheci a Emma e a Luna, duas jovens de 18 anos no último ano do secundário, numa escola no Norte da Dinamarca. Ambas trabalhavam depois das aulas. A Emma ajudava um casal de idosos nas tarefas domésticas. A Luna limpava os espaços comuns de um edifício. Cada uma tinha o seu apartamento e a sua vida independente.

Perguntei-lhes, espantado, se tinham dificuldades económicas ou conflitos familiares. Nada disso. Acreditavam simplesmente que, aos 18 anos, os pais já não tinham obrigação de as sustentar. Queriam autonomia, queriam vida própria.
Pensei nas minhas filhas, em Coimbra, há mais de vinte anos. Se eu sugerisse que saíssem de casa aos 18 anos, seria acusado de tirania. A cultura pesa mais do que a lei.
Curiosamente, a minha neta, estudante de Medicina em Manchester, repete o mesmo padrão: trabalha 15 horas por semana – o recomendado pela universidade – para ajudar a pagar o alojamento e para viajar. Não é imposição dos pais. É responsabilidade assumida.
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O contraste com Portugal: uma escola que não admite diferenças

de Oliveira. (caminhos.info)
Enquanto isso, em Portugal, cresce a contestação dos sobredotados, que não encontram na escola espaço para desenvolver as suas capacidades. Mas também os alunos com dificuldades são deixados para trás.
O problema é estrutural: um currículo único e exames uniformes não admitem escolhas, ritmos diferentes ou percursos personalizados. A escola funciona como uma oficina com um único molde. As peças que não encaixam – por excesso ou por falta – são rejeitadas.
A reprovação, nesse contexto, não é uma solução. É um sintoma. É o mecanismo que a escola usa para lidar com aquilo que não sabe integrar.
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O que poderíamos aprender
Os países que abandonaram a lógica do castigo e da uniformidade não se tornaram mais permissivos. Tornaram-se mais eficazes, mais humanos e mais exigentes onde importa: na aprendizagem real, não na obediência ao molde.

Portugal poderia seguir esse caminho. Mas, para isso, teria de abandonar os seus dogmas mais resistentes:
- que todos devem aprender o mesmo, da mesma forma, ao mesmo tempo;
- que os exames devem decidir destinos; e
- que a reprovação é um castigo justo e necessário.
Enquanto não o fizermos, continuaremos a excluir os que são diferentes – os que avançam mais depressa e os que precisam de mais tempo – e a confundir disciplina com punição, igualdade com uniformidade, exigência com castigo.
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11/05/2026