Vigília pela Paz

 Vigília pela Paz

Vigília pela Paz, no auditório do Instituto Justiça e Paz, em Coimbra. (©LuisBrandaoFotografia)

Decorreu a 7 de Maio, pelas 21 horas, no auditório do Instituto Universitário Justiça e Paz, em Coimbra, uma vigília pela Paz. A iniciativa, que contou com sala cheia, teve os seguintes promotores: Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII; Odezanovedejunho-Associação de Ideias; Comunidade das 11 – Seminário Maior de Coimbra; Casa da Esquina; Graal; Akto -Direitos Humanos e Democracia; Comissão Diocesana Justiça e Paz; Paróquia de Santo António  dos Olivais e o projecto Paz em Movimento (PeM).

Saudação inicial feita por Rute Soares, da Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII. (©LuisBrandaoFotografia)

Após a saudação inicial, feita por Rute Soares, da Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII, os presentes cantaram, acompanhados pela voz de Francisco Fanhais, a “Cantata da Paz”, esse imortal poema de Sophia de Mello Breyner, cuja letra tem, nos nossos dias, um significado profundo: “Vemos ouvimos e lemos / não podemos ignorar […]” // “Relatórios da fome / O caminho da injustiça / A linguagem do terror […]” E as bombas que reduzem as populações a cinzas… As lamentações de povos destroçados… “O concerto dos gritos”… Enfim, tudo aquilo que faz do nosso tempo “pecado organizado”.

(©LuisBrandaoFotografia)

O texto inicial  da vigília foi lido por João Marujo, da Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII, denunciando que “vivemos tempos de naturalização da guerra e das práticas de violência de vários tipos”. A “terceira guerra mundial aos pedaços”, como lhe chamou o Papa Francisco, agrava-se e unifica-se a cada dia que passa.

“É verdade que aquilo que foi anunciado como uma “ordem internacional fundada em regras – ou seja, uma ordem internacional onde a previsibilidade resultaria da prevalência do Direito Internacional (com a Carta das Nações Unidas à cabeça), com regimes razoavelmente estáveis de comércio, de circulação e de respeito recíproco entre as soberanias e da sua garantia por organizações internacionais multilaterais – foi sempre objecto de um cumprimento muito selectivo pelos países mais fortes, ao sabor dos seus interesses estratégicos em cada momento”, prosseguiu João Marujo.

Hoje, “estamos perante uma realidade nova, que é, afinal, muito velha: por iniciativa das grandes potências, em especial da que mais reivindicou a obrigatoriedade de respeito por aquela ordem internacional fundada em regras, a política mundial regressou à aceitação da conquista territorial, do genocídio ou da colonização como práticas admissíveis, ao uso da chantagem comercial para a obtenção de ganhos políticos e ao incremento dos arsenais bélicos, incluindo dos arsenais nucleares”, observou ainda João Marujo, sublinhando que essa “ameaça, ou mesmo o uso efectivo, da força nas relações internacionais” estão “cada vez mais [a] par com a banalização de uma retórica de agressividade na vida social”.

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Foi ainda salientado que, hoje, ninguém pode “ignorar a perversidade da guerra de agressão em nenhuma circunstância e muito menos quando o seu desencadeamento é justificado, sem rebuço, pelo acesso a petróleo ou pelo controlo de rotas estratégicas de exércitos e armadas”. E que “não podemos ignorar o terrível retrocesso que é o desprezo pela Carta das Nações Unidas, substituída, na prática, pela crueza da lei da força”.

Foram, igualmente, recordadas as palavras do Papa Leão XIV, na sua mensagem do Dia Mundial da Paz: “[…] Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. […] Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública.” 

Maria Toscano leu o poema de Natália Correia “Ode à Paz”. (©LuisBrandaoFotografia)

E foram ainda recordadas palavras mais recentes do Papa: “Com consternação, continuo a acompanhar a situação no Médio Oriente, que, tal como outras regiões do Mundo, está dilacerado pela guerra e pela violência. Não podemos permanecer em silêncio perante o sofrimento de tantas pessoas indefesas que são vítimas destes conflitos.”  Por isso, João Marujo concluiu que todos, crentes e não crentes, foram convocados a mobilizar todos os seus esforços para fazerem da paz um guia das suas vidas e das relações sociais em todas as escalas.

No momento seguinte, Maria Toscano leu o poema de Natália Correia “Ode à Paz”, em que a poeta pede “[…] Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas / Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra. […]” E em que é evocada a paz contra essa indústria desapiedada: “Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.”

Chuva Vasco, Margarida Bessone e Paula Veloso, do colectivo “Odezanovedejunho”, declamaram o poema “Mais Guerras, Não”, de Alberto Uva. (©LuisBrandaoFotografia)

O momento seguinte foi novamente de poesia, desta vez em forna de jograis. Chuva Vasco, Margarida Bessone e Paula Veloso, do colectivo “Odezanovedejunho”, declamaram o poema “Mais Guerras, Não”, de Alberto Uva. O poema é um grito em nome de todas as vítimas da guerra, em nome da desumanidade que campeia hoje, uma invocação à cinza de povos martirizados, aos corpos naufragados, aos famintos, às terras adubadas com o sangue:  “Não, meus senhores do Mundo, Não, muitas vezes não.”

Ouviu-se depois uma gravação em que o actor Pedro Lamares declamou os poemas, de Mário Quintana, “A Gente não sabia” (In, “A Vaca e o Hipogrifo”,1977) e “A Terra”. Neles se denuncia, com a costumada ironia do poeta, que as fronteiras foram riscadas do mapa, mas que a Terra ainda não deu conta disso, porque “ela não sabe que são os homens com as suas guerras e outros meios de comunicação”, que são os causadores desse estado de coisas.

Seguiu-se um outro momento musical cantado por todos, em uníssono, foi “We Shall Overcome”, (tema popularizado, nos Estados Unidos da América, por Joan Baez, nos anos 60), traduzindo todas as vozes este desejo colectivo de que, um dia, nós iremos vencer; e que, de mãos dadas, todos faremos a paz.

Helena Faria apresentou o Projecto Ilustradores da Paz, produzido por 24 ilustradores e que tem estado em ficamna Casa da Esquina. (©LuisBrandaoFotografia)

O momento seguinte  foi da responsabilidade do Grupo Ilustradores da Paz, que engloba a Casa da Esquina, Graal e Akto – Direitos Humanos e Democracia. Helena Faria apresentou o Projecto Ilustradores da Paz, produzido por 24 ilustradores e que tem estado em exposição na Casa da Esquina. Todos os presentes puderam ver as obras que ficam, entretanto, expostas no Instituto Universitário  Justiça e Paz. Na mente de todos, ficou a frase do Papa Francisco: “A guerra apaga o futuro.” Por isso, todos nós temos de fazer da arte uma bandeira para um futuro que seja composto de paz.

Houve ainda outro momento musical e, em coro, todos recordaram o hino “Give Peace a Chance”, de John Lennon. Este  hino pacifista, lançado em 1969 pela Plastic Ono Band, marcando o primeiro single a solo de John Lennon, tornou-se  um hino anti-guerra mundialmente reconhecido; e faria todo o sentido num contexto como este.

Seguiu-se outra ocasião de poesia com o  poema “Prece no Mediterrâneo”, de Ana Luísa Amaral, declamado por ela própria, em que pede: “Em vez de peixes, Senhor, / dai-nos a paz, / um mar que seja de ondas  inocentes […]”

Intervenções de dois elementos da Comissão Diocesana Justiça e Paz, Madalena Eça de Abreu e padre Idalino Simões. (©LuisBrandaoFotografia)

Usaram da palavra depois dois elementos da Comissão Diocesana Justiça e Paz (CDJP) e salientaram que a CDJP partilha a dor e o sofrimento que as guerras estão a causar neste momento de morte destruição. Por isso, a CDJP declarou, sem reservas, a condenação de toda a guerra. Invocou inclusive o documento conciliar do Vaticano II, “Gaudium et Spes” (GS), em que se afirma  que, para “edificar a paz, é preciso, antes de mais, eliminar as causas de discórdia entre os homens, que são as que alimentam as guerras, sobretudo as injustiças”. Ou seja, muitas delas “provêm das excessivas desigualdades económicas e do atraso em lhes dar os remédios necessário”. “Outras, porém, nascem do espírito de dominação e do desprezo das pessoas; e, se buscamos causas mais profundas, da inveja, desconfiança e soberba humanas, bem como de outras paixões egoístas. Como o homem não pode suportar tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está continuamente envenenado com contendas e violências entre os homens. E, como se verificam os mesmos males nas relações entre as nações, é absolutamente necessário, para os vencer ou prevenir, e para reprimir as violências desenfreadas, que os organismos internacionais cooperem e se coordenem melhor e que se fomentem incansavelmente as organizações que promovem a paz”, menciona o mesmo documento (GS 83).

Rosa Morais, do projecto Paz em Movimento, leu o poema “A Paz Sem Vencedor e Sem Vencidos”, de Sophia de Mello Breyner. (©LuisBrandaoFotografia)

Será importante recordar, aqui, a actualidade deste texto conciliar que foi escrito em 1965.  E Comissão Diocesana Justiça e Paz foi clara quando defendeu: “A necessidade de colaboração global entre as nações, o desmantelamento de uma economia que mata; a criação de um direito climático; a promoção de um Direito Internacional humanitário; a procura de soluções possíveis numa lógica de pequenos passos e a  abertura de espaço às sociedades em desenvolvimento, para que possam rejuvenescer, com a sua criatividade, o sistema de fraternidade.”

Rosa Morais, do projecto Paz em Movimento, leu o poema “A Paz Sem Vencedor e Sem Vencidos”, de Sophia de Mello Breyner, um dos mais belos poemas desta poeta, do qual deixamos os versos finais: “Fazei Senhor que a paz seja de todos / Dai-nos a paz que nasce da verdade / Dai-nos a paz que nasce da justiça / Dai-nos a paz chamada liberdade / Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos // A paz sem vencedor e sem vencidos”

O poema “Eu Quero a Paz”, de Elisa Rodrigues foi dito por dois elementos da Comunidade das 11, do Seminário Maior de Coimbra. (©LuisBrandaoFotografia)

Seguiu-se também o poema “Eu Quero a Paz”, de Elisa Rodrigues,  dito por dois elementos da Comunidade das 11 (do Seminário Maior). E cremos que foi um excelente momento de síntese, porque, no fundo, traduz aquilo que todos desejamos. Todos queremos paz “[…] Da que não se desfaz /  Da que não escolhe sítio pra existir // […] Daquela que dura / Da que está madura /  Pronta a consumir”. Porque nós não podemos mais esperar quando “[…] há crianças sem dormir / E outras não vão acordar”. Porque todos queremos “[…] paz sem cor preferida / Paz que lamba a ferida toda por igual / […] paz de língua comprida / Da que chegue mesmo / até ao fim do mal”. Porque nenhum de nós quer “[…] trazer a esta terra / Os [seus] filhos pra perder / Por uma guerra”.

(Direitos reservados)

No final da vigília, foi rezada em conjunto uma “Oração pela Paz”, do cardeal e poeta José Tolentino de Mendonça e que, certamente, irmanou, mais uma vez, todos os presentes, cientes de que é dentro de cada um que a paz começa; que essa paz nasce da reconciliação com as próprias feridas, escutando a nossa vida interna em vez de a omitir, dando espaço e dignidade às dimensões mais vulneráveis do nosso ser, reconhecendo com humildade a frustração, a violência e a agressividade que também em nós residem e que só assim seremos capazes de compreender e de cuidar das feridas que os outros transportam.

Crentes e não crentes  disseram: “[…] que essa paz  nasce do perdão, da capacidade de transformar as nossas quotidianas armas de guerra em relhas de arado, como diz o profeta. Essa paz que põe a morar lado a lado o lobo e o cordeiro e a pastar no mesmo campo o filho do leão e o bezerro.  Essa paz que nasce quando deixamos que um redescoberto olhar de criança se torne efe[c]tivamente a nossa visão”.

Projecto Ilustradores da Paz, produzido por 24 ilustradores e que tem estado em exposição na Casa da Esquina. Estas obras ficam, entretanto, expostas no Instituto Universitário Justiça e Paz, em Coimbra. (©LuisBrandaoFotografia)

E todos pediram “[…] a paz que não é pré-fabricada, mas se tece como um lento artesanato. Essa paz que nasce da arte de colocar em relação fios muito diversos, respeitando a unicidade de cada um e, ao mesmo tempo, descobrindo o significado profundo da convivialidade e do encontro. // […] a paz que não tem vencedores nem vencidos, mas é uma ronda de seres humanos que se dão as mãos e aprendem a aceitar-se na mútua fragilidade; seres que abraçam nos seus semelhantes a mesma solidão que trazem dentro de si, mesmo se em graus diferentes, e não desistem de valorizar o desejo, as razões e os sonhos que faz[em] de cada pessoa um peregrino em dire[c]ção [ao] Senhor, Mestre da verdadeira paz”, a quem solicitaram que os ensine “que é dentro de nós que a paz começa”.

No final da vigília,  foi novamente cantado em coro o poema “Cantata da Paz”, de Sophia de Mello Breyner.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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11/05/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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