Currículo e exames uniformes são dogmas que resistem

 Currículo e exames uniformes são dogmas que resistem

(Créditos fotográficos: kp yamu Jayanath – Pixabay)

A escola portuguesa continua presa a dois pilares que parecem inabaláveis: o currículo único e os exames uniformes. São dogmas que atravessam governos, reformas e discursos, como se fossem verdades eternas. A sua força não vem da evidência científica, mas de uma herança cultural profunda: a crença de que a educação só funciona se todos fizerem o mesmo, ao mesmo tempo, da mesma forma – e de que quem não acompanha deve ser castigado.

(Créditos fotográficos: ken19991210 – Pixabay)

A reprovação como castigo merecido?

Vem nos livros antigos e nas metáforas religiosas que moldaram o nosso imaginário moral. Há paraíso e inferno. Quem cumpre é premiado, quem falha é punido. Dante explicou-o na Divina Comédia”: o inferno está organizado por círculos, cada um com o castigo proporcional ao pecado.

Durante décadas, a escola portuguesa funcionou com a mesma lógica. A reprovação é vista como o castigo merecido de quem não estuda ou de quem, mesmo estudando, não consegue responder ao que lhe é pedido. E se não houver punição, ninguém se esforça.

(Créditos fotográficos: Andy Barbour – pexels.com)

Esta crença, herdada do passado, ainda hoje é defendida por responsáveis políticos e por vastos setores da opinião pública como se fosse uma exigência da qualidade. Mas a realidade internacional desmente-a de forma inequívoca: os países que praticamente não reprovam são os que lideram as avaliações internacionais, como o PISA (Programme for International Student Assessment) da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), e são também os que gerem melhor os seus recursos, precisando de menos professores para obter melhores resultados. Cada reprovação duplica o custo “aluno-ano”.

.

O que mostram os países que não reprovam

Visitei escolas na Dinamarca e na Suécia, acompanhei a investigação sobre a Finlândia e, com a ajuda do Copilot da Microsoft, reuni dados de outros países. O padrão é claro.

Nos países nórdicos – Noruega, Dinamarca, Suécia, Islândia e Finlândia –, a escolaridade obrigatória decorre dos 6 aos 16 anos (7–16 na Finlândia). Não há reprovações. Não há exames durante o percurso. Há apenas uma avaliação final, aos 16 anos.

Islândia: o desafio de ficar entre os melhores do mundo na educação. (thinkmovemake.com)

E para que servem esses exames? Não para excluir. Não para castigar. Servem para orientar: identificar a área de estudos mais adequada no ensino secundário.

  • Os alunos com perfil científico forte seguem cursos mais exigentes.
  • Os alunos com perfil mais prático ou com limitações seguem vias técnico‑profissionais igualmente valorizadas.

Conheci o Oskar, que sonhava ser médico. Não cumpria os critérios necessários e, com os pais, aceitou seguir um curso técnico de curta duração. Fez três meses de formação como operador de guindastes e entrou no mercado de trabalho com um salário digno. Não houve drama, nem estigma, nem punição. Houve orientação.

.

A autonomia e a responsabilidade dos jovens

Também conheci a Emma e a Luna, duas jovens de 18 anos no último ano do secundário, numa escola no Norte da Dinamarca. Ambas trabalhavam depois das aulas. A Emma ajudava um casal de idosos nas tarefas domésticas. A Luna limpava os espaços comuns de um edifício. Cada uma tinha o seu apartamento e a sua vida independente.

(Créditos fotográficos: Seidenperle – Pixabay)

Perguntei-lhes, espantado, se tinham dificuldades económicas ou conflitos familiares. Nada disso. Acreditavam simplesmente que, aos 18 anos, os pais já não tinham obrigação de as sustentar. Queriam autonomia, queriam vida própria.

Pensei nas minhas filhas, em Coimbra, há mais de vinte anos. Se eu sugerisse que saíssem de casa aos 18 anos, seria acusado de tirania. A cultura pesa mais do que a lei.

Curiosamente, a minha neta, estudante de Medicina em Manchester, repete o mesmo padrão: trabalha 15 horas por semana – o recomendado pela universidade – para ajudar a pagar o alojamento e para viajar. Não é imposição dos pais. É responsabilidade assumida.

.

O contraste com Portugal: uma escola que não admite diferenças

As orelhas de burro (cena do filme “Aniki-Bóbó”, de Manoel
de Oliveira. (caminhos.info)

Enquanto isso, em Portugal, cresce a contestação dos sobredotados, que não encontram na escola espaço para desenvolver as suas capacidades. Mas também os alunos com dificuldades são deixados para trás.

O problema é estrutural: um currículo único e exames uniformes não admitem escolhas, ritmos diferentes ou percursos personalizados. A escola funciona como uma oficina com um único molde. As peças que não encaixam – por excesso ou por falta – são rejeitadas.

A reprovação, nesse contexto, não é uma solução. É um sintoma. É o mecanismo que a escola usa para lidar com aquilo que não sabe integrar.

.

O que poderíamos aprender

Os países que abandonaram a lógica do castigo e da uniformidade não se tornaram mais permissivos. Tornaram-se mais eficazes, mais humanos e mais exigentes onde importa: na aprendizagem real, não na obediência ao molde.

(estudaescolas.com.br)

Portugal poderia seguir esse caminho. Mas, para isso, teria de abandonar os seus dogmas mais resistentes:

  • que todos devem aprender o mesmo, da mesma forma, ao mesmo tempo;
  • que os exames devem decidir destinos; e
  • que a reprovação é um castigo justo e necessário.

Enquanto não o fizermos, continuaremos a excluir os que são diferentes – os que avançam mais depressa e os que precisam de mais tempo – e a confundir disciplina com punição, igualdade com uniformidade, exigência com castigo.

.

11/05/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

Outros artigos

Share
Instagram