A bola é redonda e não é da FIFA!
(Créditos fotográficos: Erik Esly – Unsplash)
Imaginemos um cidadão ateniense na época de Péricles – século V a.C. –, passeando aborrecidamente pela cidade, sem nada que fazer! Toda a cidade, ou parte dela, está nos teatros, a ver teatro, mas o nosso cidadão não gosta de teatro. Não gosta de máscaras, de coturnos, nem de túnicas compridas e, até agora, ninguém lhe explicou por que razão as mulheres não podem representar.
É provável que, em algum momento, o meu cidadão sentisse curiosidade e se aproximasse para ver um espectáculo, mas não conseguiu fazê-lo: a lotação estava esgotada!

Como o meu cidadão imaginário, muitos espectadores, em tempos recentes de futebol planetário, se sentiram aborrecidos de olhar para os ecrãs, para os jornais e revistas e ver tudo, mesmo tudo, inundado por uma praga chamada futebol!
Confesso não ser apreciador da bola, mas não a odeio. Nos meus 51 anos em Portugal, fui apenas quatro vezes aos estádios: uma vez aos Barreiros, na Madeira; uma vez às Antas; outra ao Dragão; e uma única vez ao Bessa, do Boavista!
Tenho um irmão, Rafael, o mais velho, que adora futebol, e parte da minha família também. Lamento que essa apetência não me tenha passado. Mas, repito, respeito os adeptos e a vocação de ver e assistir a este, chamado, “desporto-rei”.

No entanto, confesso também ter visto sempre as finais do Mundial, tanto quanto me lembro: no Chile, na Inglaterra, no México, em Espanha e, esta última, nos Estados Unidos da América (EUA).
Dificilmente se pode gostar de um desporto quando ele está minado, contaminado por interesses económicos obscuros que deturpam os valores iniciais e fundamentais. Este foi o Mundial da infâmia e do Infantino, para já não falar das negociatas dos intervalos para vender publicidade e do cartão vermelho ao jogador norte-americano1 que acabou por ter a suspensão anulada!

fases finais de Campeonatos do Mundo com uma
campanha memorável nos Estados Unidos, Canadá e
México, saindo do torneio com enorme reconhecimento
internacional. (instagram.com/cazetv)
No entanto, foi também o Mundial da selecção de Cabo Verde2, que, numa exemplar demonstração, recolocou o verdadeiro espírito futebolístico em cena: países pobres, países esquecidos, com esperanças de conquistar um lugar no pódio internacional.
Assisti televisivamente à final, Espanha–Argentina3. Era difícil, para mim, optar sentimentalmente por uma das equipas, mas sabia de antemão que um triunfo da albiceleste argentina seria explorado politicamente por um governo de direita, vendido ao trumpismo e, claro, optei pela Espanha! A decisão final, desportivamente, foi das melhores: a selecção espanhola foi melhor e venceu!
Do último fado ao último tango em New Jersey, entre as lágrimas de Cristiano Ronaldo4 e as de Lionel Messi e as de tantos outros protagonistas, justos e merecedores de todo o meu respeito, nascerá uma nova geração em Portugal e na Argentina, que continuará a lutar por ser campeã!
Antes de me despedir, gostava de deixar aqui duas referências a escritores que gostavam de futebol, entre eles Albert Camus e Pier Paolo Pasolini.

A frase atribuída a Camus – “Tudo o que sei com mais certeza sobre moral e obrigações humanas, devo ao futebol” – foi repetida tantas vezes que virou clichê motivacional. Mas vale levá-la a sério. O que exactamente o futebol ensina que a filosofia académica, segundo Camus, não ensinava?
Também o cineasta, romancista e dramaturgo Pier Paolo Pasolini confessa o seu amor ao futebol: “Sou adepto do Bolonha. Não tanto por ter nascido em Bolonha, mas porque regressei a Bolonha (depois de longas, épicas ou épico-líricas estadias no Vale do Pó) quando tinha catorze anos e comecei a jogar futebol (depois de ter desprezado tanto este jogo, eu que só gostava de brincar à guerra)”.
A resposta a esta questão e a outras pode ser seguida no artigo que cito: “A filosofia por trás do futebol: Camus, existencialismo e o jogo – TÊTE-À-TÊTE”

O futebol tornou-se, assim, a maior paixão de Pasolini. “Mantive-me no idealismo do liceu, quando jogar com uma bola era a coisa mais bonita do Mundo”. Pode aceder a “Pier Paolo Pasolini: El fútbol es un lenguaje en prosa y en poesía – Enpoli”.
Daqui a quatro anos há mais: Portugal–Espanha–Marrocos. O Presidente da República (António José Seguro) fará, sem dúvida, melhor figura do que Donald Trump, que queria ficar “a ferro e fogo” na fotografia final!
Triste figura!
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Notas da Redacção:
1 – A referência ao cartão vermelho diz respeito a Folarin Balogun, avançado dos EUA. Recebeu vermelho frente à Bósnia e Herzegovina; posteriormente, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) suspendeu por um ano a execução da suspensão automática, permitindo-lhe jogar frente à Bélgica.
2 – Cabo Verde teve, de facto, uma participação histórica: estreou-se num Mundial, empatou com a Espanha, o Uruguai e a Arábia Saudita, passou aos oitavos de final e perdeu por 3–2 com a Argentina, após prolongamento.
3 – A final foi Espanha–Argentina, em 19 de Julho de 2026, em New Jersey, e a Espanha venceu por 1–0, após prolongamento, com golo de Ferran Torres aos 106 minutos.
4 – A alusão a Cristiano Ronaldo na final era factualmente impossível: Ronaldo e Portugal foram eliminados pela Espanha nos oitavos de final, em 6 de Julho, por 1–0. Lionel Messi, pelo contrário, esteve na final e chorou após a derrota argentina.
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17/08/2026