As “rentrées” nos teatros nacionais D. Maria II e São João

 As “rentrées” nos teatros nacionais D. Maria II e São João

Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. (europeantheatre.eu)

Setembro é o mês, afortunadamente, de voltar aos teatros…

As “damas” primeiro: o Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), depois de três anos fechado para obras, sobretudo na sala principal, volta a abrir com uma programação exemplar. Se o teatro esteve fechado a companhia continuou a trabalhar em itinerância em, aproximadamente, 100 concelhos. O teatro, em Portugal, é sem dúvida, um dos motores mais activos de produção cultural. São muitos os encontros, festivais, mostras, residências artísticas, etc. que fazem da “Arte de Talma”, uma das mais ricas programações culturais.1

O Teatro Nacional D. Maria II, depois de três anos fechado para obras, volta a abrir com uma programação exemplar. (wikimedia.org)

Pedro Penim anuncia a sua temporada como uma espécie de exorcismo… Abrir o teatro com aquela “peça maldita”, de Shakespeare, que muitos não se atrevem nem sequer a pronunciar, e à qual chamam, eufemisticamente, a “peça escocesa”. Referimos, obviamente, a “Macbeth”, a obra que já devastou teatros e feriu actores com a sua lendária maldição. O director do D. Maria II frisa ainda que entregou o papel mais odiado shakespeariano a um dos mais queridos actores portugueses, José Raposo. Lembramos que foi com o “Macbeth” em cena que o teatro ardeu, quase totalmente, em Dezembro de 1964.

Para dar vida a esta “estória” intemporal, o encenador reuniu um elenco de luxo, com um brilhante José Raposo no papel de Macbeth e uma poderosa Bárbara Branco no de Lady Macbeth. (chmagazine.pt)

No Teatro Nacional São João (TNSJ), as primeiras representações foram palco para a ópera e para monólogos, aqui, graciosamente chamados “parla-solos”.

Um palco para a ópera “Relicário Perpétuo”, do programa oficial das comemorações do V Centenário do Nascimento de Camões, composição musical de Luís Tinoco, com libreto, de Luísa Costa Gomes, encenação de Nuno Carinhas; e a maestrina Joana Carneiro, que dirige a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Lemos no programa do TNSJ: “De todos os Camões, qual deles guardar e celebrar? O do teatro mal-amado? O dos sonetos petrarquistas, o das odes […]? Numa geografia fantasiosa de corte oriental, um príncipe cole[c]ciona tudo o que lhe vem à mão, incapaz de decidir sobre o seu valor, esperando o regresso do pai, a sua bússola moral e estética. ‘Relicário Perpétuo’ assume-se como uma tragicomédia, com um libreto onde cabem e se jogam textos em várias línguas: o papiamentu e o negrillo, línguas inventadas a partir do provençal e do catalão, sendo o português literário seiscentista apenas mais uma língua estrangeira. Nesta ópera, Camões e o relicário das línguas solicitam revisitação perpétua.”

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Para que lado é que fica o Norte do Mundo?

“Caravana”, de João Luís Barreto Guimarães, é o espaço não-lugar; e o centro da peça talvez resida nesta ideia: “Às vezes, só o jogo quotidiano, só a possibilidade de vestir uma máscara permite voltar a dizer a verdade.” Com encenação de João Pedro Vaz e interpretação Joaquim Horta, Rita Calçada Bastos é uma coprodução do Teatro Aberto,Teatro Nacional São João.

(tnsj.pt)

“Quem dera o palco fosse tão fino quanto o fio de um funâmbulo, assim nenhum incompetente se atreveria a andar sobre ele”, escreve Goethe.

Monólogos, solilóquios, aqui neste pequeno ciclo de três pequenas peças no Teatro Carlos Alberto/TNSJ, designadas “parla-solos”.

A citação do dramaturgo Goethe, não é fortuita. Nada há de maior risco que um actor sozinho num palco a representar. Na realidade, o actor nunca está sozinho. A forma do monólogo, porque a sabemos confessional, envolve-nos a nós, espectadores, como o interlocutor directo. O actor/autor dialoga connosco, porque sabe que estamos aí presentes, sempre e dispostos a ouvi-lo

Sempre gostei de peças em num acto e monologadas, cito apenas duas que me são muito queridas: “Os Malefícios do Tabaco”, de Anton Tchekhov, e “A Última Gravação” (“Krapp´s Last Tape”), de Samuel Beckett.

“Maiúscula”, de Jacinto Lucas Pires, com encenação Marcos Barbosa e interpretação Luísa Cruz. (tnsj.pt)

No ciclo apresentado no Teatro Carlos Alberto (TECA), uma actriz e dois actores, parlando para nós e trazem-nos as suas histórias. Luísa Cruz, excelente como sempre, é a actriz. “Maiúscula”, no solo que Jacinto Lucas Pires escreveu para uma atriz maior. Neste monólogo, segundo a informação do TNSJ, ela é Benedetta Croce, uma actriz de certa idade, que recebe o telefonema de um realizador a propor-lhe um projecto chamado “Medeia”. a obra-prima de Eurípides, que, neste solo, é como um eco ou uma réplica num diálogo vivo, assume-se em toda a sua “sageza e sabedoria”: “Não, não preciso que olhem para mim, sou uma Mulher Maiúscula.”

“Kung-Fu”, de Dieudonné Niangouna, com dramaturgia e encenação de Renata Portas. (tnsj.pt)

Dieudonné Niangouna: “Para mim[,] representar é um combate. É kung-fu. Um combate contra si mesmo.”  Solo autobiográfico do dramaturgo, encenador e actor congolês, que testemunha o teatro como uma arte marcial, uma arte de combate. Com dramaturgia e encenação de Renata Portas e interpretação de Pedro Manana e tradução de Regina Guimarães.

O ponto de partida para este parla-solo é: e se o Galo de Barcelos, o “souvenir” mais popular de Portugal, pudesse falar, que história contaria? Do dramaturgo, argumentista e actor americano Robert Schenkkan, é o resultado de uma residência artística na “mala voadora”, em 2022. A resposta, está no monólogo “Cantar de Galo” (“Old Cock”) que o actor Jorge Andrade, interpreta e encena. No palco, o Galo fala com os espectadores e, mais tarde, dialoga com Salazar. O diálogo transforma-se, assim, num diálogo de mortos/ressuscitados, mas já ambos foram sacrificados!

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Nota:  

1 – O encerramento para obras do edifício do Rossio, em 2023, potenciou a presença do D. Maria II em todo o território. Com o projecto “Odisseia Nacional”, o Teatro Nacional levou diferentes formas de expressão artística a mais de cem municípios, trabalhando em articulação com teatros e cineteatros, escolas, artistas e suas estruturas, autarquias, associações, comunidades e públicos muito diversos. Esse percurso não foi um intervalo. Foi uma aprendizagem sobre o que pode ser um teatro nacional num país ainda atravessado por fortes assimetrias no acesso à criação, à fruição e à participação cultural. (Sobre nós | Teatro Nacional D. Maria II)

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01/10/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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