Manhã luminosa sem ventos hostis
São Martinho do Bispo, com Coimbra no horizonte. (portugalfotografiaaerea.blogspot.com)
Despertei com uma bela manhã de Maio. Antecipei as rotinas diárias e levei o meu cão à rua para o seu primeiro passeio higiénico. Os tempos de espera a que o meu amigo de quatro patas me sujeita enquanto cheira uma planta, mesmo despida de flores, ou quando inspecciona as rachaduras dos muros e paredes da urbanização com lagartixas-comuns reais ou inventadas, servem-me para divagar ou para experimentar uma viagem mental sem destino, mas que me activa a imaginação.

Os pensamentos vagueiam impulsionados pela claridade do céu sem nuvens, escutando o arrulhar das rolas e o canto das aves mais diversas que, nos seus rituais primaveris, usam para atrair parceiros ou demarcar territórios. Estes restos de ambiente campestre, na margem esquerda do Mondego, às portas da cidade, nas imediações de São Martinho do Bispo, compensam muitos dos inconvenientes da azáfama, tantas vezes despropositada, da vida urbana.
À nossa passagem, dois cães da raça Beagle, muito vocais, assinam o ambiente com os seus uivos prolongados e zangam-se, talvez porque um deles queira mandar calar o outro naquela fala a meio caminho entre um rosnado e um latido rouco. De facto, a manhã é deliciosa. Os galos das proximidades (que, com o seu relógio biológico apurado, já tinham antecipado o nascer do Sol) dão asas à sua gritaria, também a destacar hierarquias e a delimitar domínios. Por seu lado, os gansos, em dispersos quintais e com diferente sentido melódico, espalham os grasnidos que só eles entendem.

Na ligeira caminhada matinal, apresentam-se-me várias hipóteses temáticas para esta crónica, às quais, instintivamente, me furto. Não sei se para não escancarar as janelas do mundo cruel e negro que nos atormenta ou se porque receio ser lido como um ingénuo ou como um ressabiado moralista que cruza as mágoas com rigidez de valores.
Na verdade, basta folhearmos um jornal ou recorrermos aos canais de informação radiofónicos e às televisões que ainda conseguem apurar os factos junto de fontes credíveis para confirmarmos que a realidade mundial nos impõe muitas razões para frustrações e ressentimentos. Todavia, não podemos resolver esse infindo catálogo de agravos mal resolvidos exigindo aos outros padrões comportamentais que nos são quase sempre impossíveis, embora sob uma capa de suposta superioridade complacente.
Perante a vasta manta de guerras, de tragédias, de desigualdades económicas e sociais, de crises climáticas e de polarização política, os nossos sentimentos mais básicos são os da impotência e da frustração. Como escreve o historiador Vítor Serrão, este “é um tempo de valores trocados, de memórias históricas viradas do avesso, de factos afogados pelos mais diversos absurdos fakes, de ódio à solta, de literacia em estado comatoso, de negação do alerta ecológico, da solidariedade posta a ridículo, de crimes lesa-património, dos saberes culturais travados como coisas inúteis”.

Neste período sinistro da Humanidade ou “tempo de ventos hostis” – como lhe chama José Pacheco Pereira, expressão retomada por Vítor Serrão –, vamos ficar de braços cruzados? Mantemo-nos, simplesmente, à espera da sétima onda ou de uma “onda de fundo que alerte, que avise, que lembre”, sobretudo dos perigos do “espectro de uma impensada onda bárbara anunciada pela agenda de Steve Bannon”, estratega político ao serviço de Donald Trump e do movimento Make America Great Again? Não nos incomoda que a História se repita no seu pior e que ressurja “o tempo dos monstros”?
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18/05/2026