O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia…
(ensina.rtp.pt)
Não é difícil imaginar uma peste bubónica na cidade de Lisboa, como aquela que inspirou a Albert Camus, na cidade de Oran (ou Orã), na Argélia. Também a capital lisboeta é um porto… E, assim, imaginamos os ratos saindo dos barcos, invadindo os edifícios públicos, entrando na Assembleia da República, ocupando os lugares dos deputados, possivelmente entretidos, criando um grupo parlamentar ou uma maioria absoluta.

e personagem principal da história, que reflete sobre a cidade e seus
habitantes enquanto faz as suas visitas diárias. (bookey.app)
Depois de inchados de roer e com os despojos da democracia, saem em direcção ao Largo do Rato. Aí podem contemplar os vexames, as torturas, os atentados à dignidade humana e ao estado de direito. Lembro-me de um diálogo inicial de um filme fabuloso, “O Corcunda de Notre Dame” (de 1939), realizado por William Diertele, com a interpretação e caracterização notável de Charles Laugthon.
Numa das cenas iniciais, o rei Luís XI, de França, e o seu adido Claude Frollo assistem na oficina de um impressor à edição de uma página com a prensa inventada por Gutenberg. Enquanto o rei de França se admira com esse enorme prodígio, Frollo critica, dizendo que coisas pequenas, como um livro impresso, podem destruir reinos. E compara o instrumento impressor à ratazana do Nilo que pode matar um crocodilo!

Sim, sempre existirão ratazanas, Frollos e perigos para a Humanidade. A cena que se segue, na praça da cidade de Paris em frente da catedral, é uma cena teatral, que muito deve ao teatro épico de Bertolt Brecht. Uma pequena cena de Dança da Morte, toda ela em mímica que é interrompida pela audiência para coroar o Rei dos Loucos, que será, nem mais nem menos, Quasímodo, o sineiro de catedral!
Caros leitores, sim, temos ratos e ratazanas, mas, afortunadamente, temos também, no Palácio Ratton, um raticida democrático. E que Deus nos ampare!
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III Jornadas de Teatro “Cenas de Guerra ou Encenar a Catástrofe”
As III Jornadas de Teatro “Cenas de Guerra ou Encenar a Catástrofe” decorreram nos dias 15 e 16 de Maio de 2026, organizadas pela companhia profissional de Teatro Art´Imagem, na Quinta da Caverneira, em Águas Santas, na Maia.

Foi um encontro com muitas actividades culturais, depoimentos, comunicações, leitura de poemas, performances e projecção de filmes para analisar o momento que vivemos e aqueles que temos vivido em cenários de guerras passadas. E sobre o papel que o teatro tem exercido como ferramenta histórica, documental e poética para registar e guardar estes eventos.
Parabéns ao Teatro Art´Imagem e à Micaela Barbosa, ao Flávio Hamilton, ao Pedro Carvalho, ao Zé Lopes, que fazem parte da organização, bem como a todos os envolvidos neste momento de reflexão tão necessário nos nossos tempos!

Entre os oradores e comunicadores nos painéis de “Cenas de Guerra ou Encenar a Catástrofe”, menciono Silvia Penas (poeta e performer), Abel Neves (dramaturgo),Pedro Fiúza (encenador e dramaturgo), Luís Mestre (dramaturgo), José Leitão (encenador e dramaturgo), Shahd Wadi (escritora da Palestina), Rui Madeira (encenador), Alyona Samoilenko (encenador da Ucrânia), eu próprio (Roberto Merino, encenador natural do Chile).
Na moderação dos painéis participaram Micaela Barbosa e Flávio Hamilton. Registo também a intervenção de Miguel Hernandez (actor do Brasil) e de Pedro Correia(palhaço). Houve igualmente espaço para a poesia com Pedro Lamares e ainda performance a partir da versão de “Macbeth” escrita pelo dramaturgo alemão Heiner Müller, com alunos da Academia Contemporânea do Espectáculo (ACE)e as intervenções de Andreia Macedo (actriz e formadora) e de Manoel Candeias (encenador e dramaturgo do Brasil). Não me posso esquecer da exibição do filme “Teatro de Guerra”, de Lola Arias.
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Fitei 2026: “Colapso e Esperança…”
Retiro da respectiva nota informativa o seguinte esclarecimento: “O binómio colapso e esperança que orienta esta 49.ª edição, não se apresenta como oposição estável, mas como campo de forças em permanente negociação. Se, por um lado, se torna impossível ignorar os processos de degradação e ru[p]tura que marcam o presente, por outro, é na persistência de práticas, gestos e imaginários que se reinscreve a possibilidade de futuro.”

O mais esperado festival de teatro da cidade do Porto está de volta. O Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI) regressou ao Teatro Nacional São João (TNSJ) com uma programação de três espectáculos que exploraram o corpo, a memória política e a inquietação como matéria artística. Entre 14 e 24 de Maio de 2026, o Porto acolheu “El Trabajo”, de Federico León, “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer”, de Victor Hugo Pontes, e “Zombi Manifiesto”, de Santiago Sanguinetti – três criações ibero-americanas que prometiam agitar os palcos do TNSJ e do Teatro Carlos Alberto.

(facebook.com/FestivalFITEI)
O FITEI tem no TNSJ um dos seus parceiros históricos. A programação de 2026 confirmou a vocação do FITEI para trazer ao Porto criações que cruzam fronteiras – geográficas, linguísticas e estéticas – e que interrogam o presente com as ferramentas do teatro. Corpos, memórias e inquietações estiveram, assim, em palco, no Porto, neste mês de Maio.
Nos dias 14 e 15 do corrente mês, o Teatro São João recebeu a estreia nacional de “El Trabajo”, do encenador argentino Federico León, figura incontornável da cena independente de Buenos Aires. A peça insere-se numa trajectória de colaboração com o FITEI que já passou por “Las Ideas”, em 2016, e “Yo escribo. Vos dibujás”, em 2019, criações que marcaram a memória do festival.
A peça “El Trabajo”, como informa a organização do FITEI, parte da experiência de León como aluno e professor de actores para construir um “laboratório” performativo em que um grupo de participantes enfrenta desafios extremos em busca de uma experimentação artística radical. O resultado é um espectáculo de energia física incontrolável, cujos resultados se revelam, segundo o próprio criador, tão imprevisíveis quanto intensos.
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Nota do Director:
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21/05/2026