Atenas
Atenas, na Grécia. (Créditos fotográficos: Rafael Hoyos Weht – Unsplash)
O ser é e o não-ser não é. (Parmênides)
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Há um quarto de século, eu chegava à Grécia. E não seria apenas Atenas o motivo da visita, eu queria perscrutar muitas vias e esquinas que me levassem da origem da filosofia para a poesia em que tais elucubrações nasceram.


Levei-me para ver, pensar, portanto. Entretanto, logo à chegada, lá estava a minha mala rasgada com alguns dos seus objetos espalhados ao longo de uma esteira indiferente em movimento. As coisas exalavam dignidade a despeito do desrespeito à sua unidade desfeita. Desamparadas, dada a sua exposição íntima, ainda assim estariam a expedirem um decoro subtil mediante aquela circunstância.
Uma agente fiscal aduaneira aproximou-se, olhou para o meu passaporte brasileiro com petulância e soltou essa: “Isso não ocorreu aqui, vens de um lugar nada confiável.” Eu vinha da Itália, ainda não sei se ela se dera conta disso. Tornava, assim, banal toda aquela integridade desfeita, como se eu tivesse alguma culpa quanto ao ocorrido.
Reuni as coisas que, a meu ver, suspiravam por um pronto retorno à inteireza. Talvez se sentissem traídas, se calhar, culpavam-me pela minha insistência de ter ido ver a Grécia. Sabe-se lá! O meu ideal de contemplação atemporal as levou a uma exposição temporal, vieram a ser focos de atenção dos viajantes e daquela fiscal desprovida de simpatia. Sendo assim, aquelas coisas todas, frágeis sentinelas, acenavam para mim uma urgência de ocultamento e almejavam uma imediata reintegração da sua unidade dentro do objeto mala.

O filósofo Martin Heidegger distinguiu o objeto (ou conceito) de “pronto à mão” do objeto “diante da mão”: o primeiro é o instrumento que se usa sem se ver, o segundo é a coisa que se contempla quando o uso falhou. Tudo aquilo exposto farfalhava uma grande falha da mala. Havia tanta “vida” naquilo que continha e mais parecia silenciado. Porém, estavam a clamar a minha responsabilidade de reintegrá-los dentro do seu espaço íntimo. Pois, então, que eu me pusesse a contemplar a Grécia, a conceber a sua intemporalidade. Outrossim, aquelas coisas não careciam de contemplação, mas de atitude: eu havia de reintegrá-las. Foi o que fiz, na medida do possível, mediante aquela situação da mala violada, avariada.


(pt.wikipedia.org)
Fui-me do Aeroporto Internacional de Atenas Elefthérios Venizélos, na ocasião recém-inaugurado, para o hotel, a bordo de um táxi, com a mala exaurida. Contudo, pelo menos, a ter o seu conteúdo não mais constrangido. Entrei no Royal Olympic a ter alguma dificuldade de manuseá-la. Prontamente, cederam-me uma habitação, pousei a mala e fui abrir a janela. Eu queria ver, acima das dificuldades, o que seria, de facto, a Grécia.
Imediatamente, fui inundado pela luz helénica. Aquela mesma luz que iluminara Péricles, Epicuro, Giorgos Seféris, Nikos Kazantzakis, Konstantinos Gravas, Melina Mercouri, Irene Papas…A ter pela frente o que resta do Olimpeu, o Templo de Zeus Olímpico. As suas altivas colunas adornadas (hoje, restam 15, já foram 104). Iniciado em 550 a.C., prosseguiu incompleto. Foi reiniciado em 174 a.C., por Antíoco IV Epifânio, que se considerava uma encarnação de Zeus. Epifânico, adornou-o com um estilo jónico e aplicou-lhe um mármore pentélico, glorioso sobre o que dantes era só simples calcário.

O templo foi espoliado pelos Romanos. Algumas das suas colunas seriam usadas no Templo de Júpiter Capitolino (ou Templo de Júpiter Ótimo Máximo), em Roma. Entretanto, Adriano, apaixonado pela Grécia, concluiu a obra, acrescentando-lhe uma enorme estátua de Zeus, em ouro e marfim, que ali não muito tardou. Desapareceu com as invasões dos Hérulos1 e pela supressão do paganismo2. As colunas resistentes banhadas de luz sugeriam-me uma integridade nunca perdida. Particularmente, para quem olhar para elas sem um olhar apressado. Também, ao consultar o relógio, aspiram quem venha a dedicar-lhes um olhar atemporal.

O lócus3, portanto, mantém a sua função sagrada, enquanto incita à contemplação não atrelada à vigília do desgaste do tempo. Em seguida, conferi a mala aberta, os pertences reintegrados apontavam para uma perda de alguns objetos extraviados. Todavia, encontravam-se em harmonia. Tudo estava a indicar-me que, na Grécia, há um tempo único: é sempre tempo de resiliência, de observar presenças, não importam as ausências. Trouxe comigo essa lição e um encantamento permanente em relação à Grécia. É bem certo! Essencialmente, aquilo que é é, permanece. Nenhuma supressão prevalece.
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Notas:
1 – Um povo germânico originário do norte da Europa.
2 – Como lemos na Wikipédia, as políticas antipagãs no início do Império Bizantino abrangeram o período de 395 a 567. Leis antipagãs foram promulgadas pelos imperadores bizantinos Arcádio, Honório, Teodósio II, Marciano e Leão I, o Trácio.
3 – Determinado espaço (físico ou conceptual).
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21/05/2026