FITEI 49 / Eu, espectador…
A edição 49 do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, iniciada a 13 de maio e que decorreu até ao dia 24 deste mês, voltou a trazer aos palcos um programa pensado em torno de um tema central: “Colapso e Esperança” A fotografia refere-se ao novo espectáculo a solo de Tita Maravilha. (teatromunicipaldoporto.pt)
Das muitas representações que integraram a 49.ª edição do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), falo, num breve acto confessionário, daqueles espectáculos aos quais tive a oportunidade de assistir.
Começo pelo espectáculo de estreia. O FITEI arrancou com uma versão actualizada de “As Suplicantes”, reescrita contemporânea da tragédia de Ésquilo feita pelas mãos de Sara Barros Leitão, uma reflexão sobre o próprio projecto Europeu, sobre fronteiras, sobre pactos de hospitalidade, acolhimento e integração.

Como lemos na sinopse divulgada pela organização do FITEI, “Suplicantes” é uma tragédia – porque “só a tragédia conseguirá explicar o mundo em que vivemos” actualmente – e é uma ficção – pois “só o afastamento emocional das histórias individuais nos poderá ajudar a compreender a universalidade das questões”. Espectáculo muito lotado em termos de público e que, inicialmente, anunciava a grande procura dos espectadores para esta edição.
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O público
O teatro argentino foi sempre um teatro de grande erudição, popularidade e público. E assim foi o regresso, muito aguardado, de Federico León, figura central da cena independente de Buenos Aires. “El Trabajo” nasce da experiência do encenador em ateliês para actores: um grupo de participantes decide enfrentar provas extremas em nome de uma experimentação artística radical.

León realiza há 15 anos. (fitei.com)
Entre laboratório e performance, o espectáculo explora um corpo que arrisca sem medir consequências – imprevisível, físico, por vezes, brutal –, situado na fronteira entre a teoria e a prática. Constitui uma reflexão intensa sobre o que significa “trabalhar” no teatro e na criação artística. Quero destacar, entre os três actores, a Beatriz Rajland, que, com 88 anos, assume um papel protagonista.
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Zombies à solta, no Teatro Carlos Alberto…
Da ditadura uruguaia pouco sabemos, as mais mencionadas internacionalmente são a chilena e a argentina. Iniciada em 1973, foi uma acção contra o grupo guerrilheiro dos Tupamaros. Em conluio com os governos da Argentina, do Brasil e do Uruguai, foi criada a Operação Condor, operação de terrorismo de Estado.
Na peça “Zombi Manifiesto”, de Santiago Sanguinetti, apresentada pela Compañía Abuela Katiusha, assistimos a um jovem marxista que lê textos de Marx, num cemitério, para ressuscitar os cadáveres da ditadura uruguaia. O resultado é o regresso de um zombie, um tenente militar sedento de vingança, que sucumbiu às torturas e brincadeiras de um militar superior. É um texto que está entre o humor negro, a comédia negra ou um teatro do absurdo, “esperpéntico”, mas eficaz na interpretação de um passado impossível de justificar.

criminal por violações dos direitos humanos. (cja.org)
“A justiça é coisa dos vivos, não dos mortos”, por isso, o zombie morre finalmente. Porém, a justiça, na sua função humana, continuará pela mão dos jovens protagonistas. Lembro que os ditadores da Argentina, Jorge Rafael Videla, e do Uruguai, Gregorio Álvarez, morreram na cadeia, condenados por crimes contra a Humanidade. Diferente foi o destino de Augusto Pinochet, que morreu na sua cama, no seu domicílio em Santiago!

Êxito do Fitei 2026, de público e de espectáculos, e ainda a menção a uma ópera
contemporânea… “18 Months” apresenta-se como uma ópera sobre (corpos) refugiados e é uma criação do Quarteto Contratempus. Ópera que nos fala dos refugiados numa versão cósmica vista do alto, contemplada por um Deus, impotente e por um anjo, Ariel (como em “A Tempestade”, de William Shakespeare). Anjo auxiliar que, perante a dor, a desolação e o desterro, se desloca à Terra, para ajudar os humanos. É de louvar o trabalho de um colectivo musical, único, vocacionado para a criação de óperas contemporâneas.
Finalmente, uma aproximação musical e poética ao mundo de Cabo Verde, facilitada com o espectáculo “FMI KAPA” e desenvolvida pelo Saaraci Coletivo Teatral, sob a direcção artística e dramaturgia de João Branco e direcção musical de Xullaji. Assim encerrou FITEI 2026.
E ficamos à espera da celebração dos 50 anos do FITEI, em 2027. Para já, parabéns ao seu director artístico, Gonçalo Amorim, e à equipa da organização!


A recente semana foi marcada pela agressão aos activistas ou participantes da flotilha humanitária (Flotilha Global Sumud) com destino a Gaza.
Veja as imagens da agressão e compare-as com as imagens de Nayib Bukele de El Salvador e dos seus presídios… Não há diferença nenhuma!
Romper o acordo da União Europeia com Israel é uma obrigação!
Nas proximidades do Dia Mundial da Criança (1 de Junho), destaco a poética lembrança que o Teatro Art`Imagem faz das 18592 crianças que morreram em Gaza durante o conflito com Israel, segundo a respectiva lista de nomes publicada, em Julho de 2025, pelo jornal Washington Post.


O colectivo teatral Art´Imagem, numa tentativa que lembra as instalações do artista plástico Christo (1935-2009) – que envolvia, literalmente, com tecidos os monumentos de toda Europa –, quis envolver com os nomes das vítimas o edifício central da Quinta da Caverneira, na cidade da Maia. O resultado é a trágica visão contemplativa dos nomes, em caracteres árabes e latinos, dos milhares de crianças que, em ambas as línguas (grafias ou idiomas), gritam pelas suas memórias.
Foi emotivo o final do encontro na Quinta da Caverneira, no âmbito das III Jornadas de Teatro, com um belo recital (ou “performance”) de Pedro Lamares: “Perdoai-lhes Senhor / Porque eles sabem o que fazem”, título baseado nos dois últimos versos do poema “As pessoas sensíveis”, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Assistimos a um diálogo poético entre os poetas Jorge de Sena e Sophia. Na voz de Lamares, a poesia de compromisso é compromisso, apenas com a poesia, como deve ser, mas mesmo assim transcende a natureza poética!
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Cabra-cega
A Cabra-cega é um dos mais populares jogos de todos os países. Simples, sem artifícios. Pobre em elementos, mais rico na sua simbologia… Uma criança vendada com um lenço ou pano, no centro de um círculo ou roda, imita a cegueira ludicamente e apalpa, nas proximidades, tentando atingir ou alcançar os restantes jogadores. Quando os “apanha”, passa-se à segunda fase do jogo, que é a de tentar adivinhar, através do tacto, quem é a pessoa “capturada”.


Há dias, duas crianças vendadas pelos pais foram abandonadas num jogo perverso. Estas crianças (dois irmãos franceses, de quatro e de cinco anos) representam o temor – que outras crianças do Mundo algum dia tiveram em sonhos, em pesadelos ou mesmo acordados – de serem abandonados pelos pais (também foi o meu medo, em alguma vez), como acontece no famoso conto dos irmãos Grimm em que se narra a história de dois irmãos (Hansel e Gretel) que foram abandonados na floresta.
Estes dois meninos da nossa actualidade recente, abandonados numa zona despovoada, apalpam a realidade esfumada que se escorre e é fugidia… E, de facto, não vão encontrar a casinha de chocolate e das guloseimas. Afortunadamente, o destino (que é também um elemento mágico dos contos de fadas) vai conduzi-los ao encontro de um padeiro (o que é curioso!), homem de coração grande, generoso, pai de dez filhos e ainda de braços abertos para receber estes dois meninos perdidos… Na realidade, sem pedrinhas e sem migalhas, os pequenos irmãos encontraram um caminho de salvação.
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28/05/2026