San Gimignano e Éfeso no tempo presente
Centro Histórico de San Gimignano -Património Mundial da UNESCO. (Créditos fotográficos: Yvon Fruneau – whc.unesco.org)
Todo o viajante passeante estará a passar por algum espaço. Passageiro, ele passa circunstancialmente e temporariamente. Nestes movimentos, há momentos em que chega, até mesmo, a fazer parte da paisagem, ainda que o tempo circundante acene para uns tempos outros. Existem sítios que mais parecem termos para lá sido levados pela máquina do tempo. Visitamos o espaço e o tempo sem nos sentirmos íntimos de nada. Nada daquilo que à nossa frente se apresenta. Entretanto, para o olhar de outro que ali se encontra, pertencemos àquele cenário, ainda que pontualmente.

quantidade de torres altas. (italia.it)
Andava eu a ver e a ser visto pela Itália, mais exatamente na Toscana. A andar por uma vila medieval que se chama San Gimignano. Um espaço intramuros a separar o burgo do campo. O suposto espaço da razão, educado versus os limites da incivilidade, do tosco. Não por acaso, esse vocábulo advém de “tuscus”, o termo que os Romanos aplicavam aos Etruscos. Segundo eles, era uma gente que carecia de refinamento, gentalha grosseira e insípida como seria a sua língua. Já se referiam negativamente a eles Horácio e Platão. A fama cresceu em Roma em razão de o Virtus Trucus condensar uma “gentalha” etrusca infiltrado na civitate, agglomeratus indesejável.

de San Gimignano com a Sala do Conselho, também conhecida como Sala de
Dante, em homenagem à visita do grande poeta, em 1299. (ipt/toscana)
San Gimignano evoluiu dentro do período medievo a abrigar famílias competitivas que construíam torres altas para demonstrarem o seu poder económico. Nobres e mercadores entre os séculos XII, XIII e XIV ergueram uma Manhattan cujo único sentido seria o da ostentação, da promoção de inveja, de símbolos da competividade que apresentavam uma verticalização estética desprovida de ética.
Chegaram a ser 72 torres. Hoje, restam 13. A oferecida como visitável é a Torre Grossa, grosseira recordação de uns tempos em que ser era ter. Mas, afinal, terá isso mudado na tosca Toscana ou em alguma parte do Mundo? No mais, o que se vê são lojinhas e cantinas abertas para as carteiras ou o que segue na algibeira dos visitantes. Um incontável número de passantes ou de perambulantes entre ruazinhas apertadas a consumirem uma perda de tempo. Definitivamente, não é um lugar para se demorar muito tempo.
Tenho um fascínio excêntrico por lugares onde o tempo presente sugere tempos de antanho. E será assim que se apresenta autenticamente. Portanto, dirigi-me para Éfeso, na Turquia.

Mosaico dos tempos greco-romanos, cidade, pólis (sociopolítica) de fluxos civis extinta. Mas não extinta para os sentidos. Por onde começar a visita? Certamente, pela rua dos Curetes, a via que liga o Teatro à Biblioteca. Que homenageia os curates, os antigos sacerdotes, e que apresenta os caminhos por onde passavam, entre um povo que era conhecido por ser libidinoso, promíscuo, de baixo valor moral. Porém, foi palco posterior de cristianização, de pregação do apóstolo Paulo, do evangelista João (fortemente ligado a Patmos), a quem se atribui o “Livro do Apocalipse”, assim como sítio de reuniões dos crentes, na casa de Priscila e de Áquila, se considerarmos referências que aparecem, sobretudo, nos “Actos dos Apóstolos” e nas cartas de Paulo de Tarso.

Essa rua tinha lojas e casas de ricos e o que dela resta é o chão marmóreo danificado, colunas enfileiradas e alguns resíduos de esculturas. Tem duas particularidades que nos contam como Ephesus era ao seu tempo: latrinas onde se sentavam os homens a fazerem as suas necessidades, juntos, enquanto discutiam política. E, numa pedra, há a primeira publicidade de que se tem notícia: um pé delineado anuncia o fim do caminho, a proximidade do bordel que por ali havia.

Mas, a cidade cultuava também a cultura: a Biblioteca de Celso era a terceira maior daqueles tempos romanos. Afinal, a cidade era, depois de Roma, a segunda maior, fosse em população ou em importância. Dela só resta a fachada decoradas com janelas sobre elas. São quatro os pares de colunas. E há ainda os nichos com as estátuas de Sophia1 (que personifica a sabedoria), Episteme (representando o ideal filosófico do conhecimento), Ennoia (aludindo ao ideal filosófico do pensamento) e Arete (em representação da bravura, da valentia ou coragem moral) as ditas virtudes de Celso, que por ali se encontra na eternidade e tem o seu túmulo2.


lupanar. Ao lado da Estrada de Mármore, em frente à Casa do Amor, perto da
Biblioteca, uma pegada e uma figura feminina assinaladas no chão indicam a
direção da Casa do Amor. (instagram.com/rehberlegez)
Conta-se que cabiam ali 12 mil rolos, acervo destruído pelo fogo, por terramotos, pelas invasões dos Godos e devido à fragilidade do material exposto ao tempo. O Teatro de Éfeso comportava 25 mil expectadores. A cidade era pulsante, palco de peregrinação, dado o seu Templo de Ártemis, que tinha 127 colunas jónicas e só sobrou uma para contar sua história.
O seu porto era intensamente movimentado, com um fluxo comercial impressionante. Todavia, com o assoreamento do seu rio, o Caístro, distanciou-se do mar, o que a levou à sua derrocada fatal. O seu declínio subsequente levou-a a ser abandonada.
Ainda assim, o sítio exala na sua verdade aquietada um inquietante encontro com o seu tempo. Contém, sim, a intensidade efémera do sublime, remete à outra grandeza: a da imaginação, tão-somente. Embora aquebrantada, indica, paradoxalmente, a sua dignidade, revela-se para o visitante com um esplendor finito. Todavia, com a intensidade de uma força rara, permanente, nada evanescente.

Parque Miniatürk, em Istambul, na Turquia. (pt.wikipedia.org)
O olhar transeunte acostumado às estéticas banais, os ouvidos habituados aos ruídos, por ali encontram um oásis fértil para a imaginação, resistente, será nesse universo; o da nossa mente, que ela se faz e se completa permanente.
Em Pérgamo, um contratempo: houve uma época em que tudo o que restava do Templo de Zeus e da segunda maior biblioteca da Antiguidade foi levado para a Alemanha. Só encontrei um sitio histórico desnudo, desalojado do tempo.
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Notas da Redacção:
1 – A estátua original de Sophia encontra-se, actualmente, no Museu de Éfeso, em Viena, sendo as esculturas visíveis no local da antiga cidade réplicas detalhadas.
2 – O túmulo de Celso encontra-se numa cripta subterrânea, localizada logo abaixo do salão principal da Biblioteca de Celso, nas ruínas da antiga cidade de Éfeso, perto da actual cidade de Selçuk, no Oeste da Turquia, situado na província de Esmirna e na região do Egeu.
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04/06/2026