“Homo Bluetoothus”

 “Homo Bluetoothus”

(Créditos fotográficos: Jonathan Borba –pexels.com

O homem está à frente do urinol, braguilha aberta e pronto para urinar. Parece muito concentrado ou, se calhar, precisa de ultrapassar algum bloqueio mental, comum na hora de ir à casa de banho em público, mesmo que seja no escritório onde trabalha. Quando eu me aproximo do urinol mais afastado, ele começa a falar: “Não, não, não podemos fazer isso.” Espero que não esteja a falar comigo, penso, aplicando uma mirada lateral. De ferramenta na mão, o homem continua alegremente a falar, mas vejo uma luz no auricular na sua orelha. Era um exemplar do homo bluetoothus.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Esta espécie, descoberta recentemente pela ciência, antecipa muitas histórias de ficção científica, em que a nanotecnologia permitirá que sistemas de comunicação estejam implantados no nosso corpo e estejamos sempre ligados à rede. O homo bluetoothus, contudo, não quer esperar pela miniaturização. Ele quer estar contactável já e – tal como o seu antepassado direto, que tinha telemóveis gigantes no carro, nos anos 80 – o mundo pára se ele não estiver numa chamada. “Penso, logo existo” (em Latim, cogito, ergo sum), dizia René Descartes. Errado. “Falo, logo existo”, afirma o homo bluetoothus.  

Não sei qual é a motivação para alguém sentir a necessidade de, em lugar de fazer uma pausa no trabalho, levar toda uma reunião consigo até à casa de banho. Se calhar, é uma mostra de dominância corporativa. Eu também tenho muitas chamadas no meu calendário e nunca senti a necessidade de dizer: “Continuem com a apresentação enquanto eu vou regar as plantas.” E, durante o ato, paro o fluxo para contribuir com a minha opinião. Ninguém devia ser trazido para um ato privado sem consulta prévia. Este senhor tem duas opções: ou está em silêncio e tem de tocar no auricular para ativar o microfone ou está sempre com o microfone ligado, correndo o risco de que alguém pergunte se está a chover na sua localização.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Quem leva uma reunião para o urinol não pode ter grande consciência social. Portanto, este comportamento só pode vir de alguém que acredita que o mundo – isto é, as suas reuniões – não pode existir sem ele e sem a sua contribuição. Como não é importante o suficiente para atrasar o início da reunião devido a uma pausa biológica, a segunda melhor opção é trazer a reunião com ele. “¡Qué asco!”, como se diria em Espanhol.

Rua Regent, em Londres, no Reino Unido. (Créditos fotográficos: Chengyu Wang – Unsplash)

Apesar de estar sempre conectada, esta não é uma espécie que ande em manadas – senão teriam de falar com pessoas e desligar o auricular. Mas já vi outros espécimes fora do escritório. O vendedor da loja da esquina debaixo do meu apartamento, em Barcelona, está sempre numa chamada, imagino que com a família. Entregadores de comida em Londres parecem ter dois telemóveis, um para continuar na conversa enquanto a sua moto passa entre carros. Por isso, dão sempre a impressão de estar a fazer um favor quando interrompem a sua chamada para fazer o seu trabalho.

(Créditos fotográficos: SHVETS production –pexels.com)

Existem algumas raízes históricas para este comportamento. Na Roma Antiga, as casas de banho públicas eram espaços de viva discussão e de negócios. Na época medieval, os nobres levavam companhia para ajudar a limpar. E, claro, a imagem do executivo sempre conectado entre telemóveis e portáteis é uma invenção recente. Será o bluetoothus, ao mesmo tempo, avant-garde e atavista? Por um lado, utiliza tecnologia para impor a sua presença. Por outro, mostra uma sensibilidade medieval a nível de ir à casa de banho. Só espero que não vire moda.

Mesmo lateralmente, acho que o espécime que analisei viu todos estes pensamentos na minha cara, onde, admito, não consegui evitar um pequeno esgar de repugnância. Acabou o seu serviço, passou as mãos por água e secou-as com papel. Claro. O secador de ar interromperia a reunião. Saí a lavar as mãos e apercebi-me de que passei uma pausa inteira a analisar um desconhecido num urinol. Um de nós terá um problema.

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04/06/2026

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Marco Dias Roque

Jornalista convertido em “product manager”. Formado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, com uma passagem fugaz pelo jornalismo, seguida de uma experiência no mundo dos videojogos, acabou por aterrar no mundo da gestão de risco e “compliance”, onde gere produtos que ajudam a prevenir a lavagem de dinheiro e a evasão de sanções. Atualmente, vive em Londres, depois de passar por Madrid e Barcelona. Escreve sobre tudo o que passe pela cabeça de um emigrante, com um gosto especial pela política e as observações do dia a dia.

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