Exames nacionais: apagão do bom senso ou amadorismo institucional?
(academia.com.sg)
Fui, durante sete anos, membro do Júri Nacional de Exames (JNE), exercendo as funções de coordenador do JNE na região Centro. Conheci bem esta máquina complexa dos exames. Em cada ano, eu e a minha equipa analisámos obrigatoriamente os erros, apresentámos propostas de solução, resolvemos situações difíceis, porque, afinal, era esse o papel do JNE.

Hoje, enquanto professor aposentado, continuo atento a todas as questões da Educação, mas devo confessar que nunca imaginei que se pudesse chegar a esta situação que se vive, agora, nos exames nacionais e que alguém já classificou como um “apagão do bom senso” e como “amadorismo institucional”. Como é lógico, procurei encontrar os elementos necessários para poder escrever este artigo. Só espero que as minhas fontes tenham sido rigorosas e justas.
Há uma alteração significativa no que se refere à correção das provas, uma vez que os exames são corrigidos em forma digital, estando disponíveis numa plataforma informática chamada “Plataforma de Classificação e Supervisão”. Esta transição para o modelo digital foi implementada, em pleno, neste ano lectivo. Os alunos continuaram a realizar as provas dos exames escrevendo à mão no papel das provas próprias dos exames. Contudo, tudo isto já foi testado no ano lectivo anterior, quando os alunos realizaram provas em formato digital, do 1.º ao 3.º Ciclo e no Ensino Secundário, como foi o caso da disciplina de Filosofia que, embora realizada em papel, foi corrigida no formado digital.

Hoje, as respostas físicas dos alunos são digitalizadas em scaners de alta definição e, após isso, o sistema informático faz a distribuição de forma aleatória. Todavia, há uma diferença fundamental: um professor ou professora já não corrige o exame completo do aluno ou da aluna. Vai, sim, corrigir perguntas isoladas de múltiplos alunos, garantindo o anonimato total, depois de ter acedido à plataforma e de ter conhecimento dos critérios oficiais.
Há quem garanta, se é que tal coisa se pode garantir, que o sistema permite que os professores supervisores monitorizem e validem as discrepâncias e que também validem as classificações, assegurando equidade. Resta saber se, do ponto de vista pedagógico, tem sentido não avaliar a prova como um todo. Ou seja, por um único corrector.
De fora deste formato ficaram apenas as disciplinas mais técnicas, nos casos da Geometria Descritiva A e de Desenho A, cujas características exigem apreciação directa no suporte em que se realizaram.
É de bom senso que esta testagem tenha sido feita, mas as más-línguas – que aparecem sempre quando “há bronca” – dizem que nada aprendemos com os erros e que estes processos de mudança deviam ser objecto de uma transição mais lenta.
Notícias várias, desde que este processo começou, têm agitado a opinião pública! Vozes de revolta e de crítica não se fizeram esperar. A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) – a maior e mais representativa organização sindical de professores em Portugal – diz que o processo está a correr de forma “caótica”. Outros sindicatos afinam pelo mesmo diapasão.

Será legítimo usar, neste contexto, o termo “caótico”? O que terá, então, contribuído para a criação deste caos?
As razões são múltiplas:
- ouvimos falar em atraso na disponibilização as provas;
- ouvimos dizer que muitos professores estiveram dias sem conseguirem aceder à plataforma digital, sem receberem os códigos necessários para começar a avaliar as provas;
- ouvimos falar de respostas trocadas e de respostas cortadas;
- ouvimos falar de casos de professores que foram convocados para corrigirem exames de disciplinas que não leccionam: em Lisboa, uma professora de Geologia foi convocada para corrigir os exames de Francês; em Oliveira de Azeméis: uma docente foi destacada para avaliar provas de Português, mas o sistema atribuiu-lhe exames de Economia A;
- ouvimos falar de professores já reformados que foram convocados para corrigirem provas;
- ouvimos falar de professores convocados, mas que mudaram de escola;
- ouvimos, ainda, falar de docentes que já tinham falecido e que foram convocados para corrigirem provas (como foi o caso sucedido na Figueira da Foz); e
- ouvimos falar de folhas de resposta atribuídas ao mesmo aluno com caligrafias distintas ou exames com páginas em falta e respostas incompletas.

Face a este panorama, não nos pode espantar o clima criado à sua volta, em que cada um dos intervenientes no processo procura, como se diz na gíria, “sacudir a água do capote”.
A posição sindical é coerente. Consideram os casos que apontámos como uma ofensa à dignidade profissional dos docentes. Os sindicatos são muito claros quando acusam a tutela de não ter preparado devidamente este processo que se adivinhava complexo.
Por sua vez, a Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) rejeita as responsabilidades que o Júri Nacional de Exames e o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) lhe apontaram, considerando que os erros, nestes casos, não são das informações dadas pelas escolas. Os directores escolares falam mesmo de um “passa culpas” e alegam que as dificuldades criadas resultam, apenas, do novo sistema digital criado, mas não devidamente testado.
Como seria de esperar o JNE declara que todos os problemas técnicos serão resolvidos e continua a dizer que é possível cumprir o calendário previsto para a divulgação dos resultados, sem prejuízo para os alunos.


Os professores não têm dúvidas de que todos os casos aberrantes que acima relatámos são verdadeiros. E esta posição é, claramente, uma resposta ao ministro Fernando Alexandre, o qual afirmou, recentemente na Assembleia da República, que muitos dos casos divulgados eram falsos. Os professores garantem que todos os relatos de erros foram devidamente comprovados. E consideram ainda que é inadmissível que o ministro da tutela inverta as responsabilidades! E, como é evidente, dizem que só fica bem ao Governo assumir as suas responsabilidades pelas dificuldade técnicas. E que têm esperança de que todos os problemas, que o Governo diz que estão em fase de recuperação, sejam mesmo resolvidos, sem prejuízos para ninguém.
Acreditamos que a FENPROF põe o “dedo na ferida” quando acusa Governo de “empobrecer a prática pedagógica” com a avaliação digital. Acreditamos também que outras estruturas sindicais têm razão quando alertam que muitos alunos podem correr o risco de ver o seu trabalho avaliado de forma deficiente por docentes pressionados com prazos impossíveis ou, pior, sem habilitação legal específica para certas disciplinas, acrescentando “que a “confusão generalizada” cria “profunda injustiça e desigualdade no processo de avaliação”.

E perante tudo isto o que podemos concluir?
Os erros citados só podem traduzir incompetência do Estado e que, forçosamente, acarretam prejuízo para a Escola Pública. Com o sucedido, há riscos! A avaliação tem de ser sempre justa e equitativa. Parecem ter razão alguns especialistas em Educação quando afirmam que estes casos são um exemplo de voluntarismo tecnológico, porque a transição para o modelo 100% digital foi acelerada sem que o sistema estivesse devidamente testado no terreno. O desejo de mostrar “modernidade” e de poupar custos logísticos com papel sobrepôs-se à segurança do processo.
O processo digital e a desmaterialização das provas serão, certamente, um caminho inevitável para o futuro do sistema educativo. Mas razão tinha a minha avó quando dizia que “as cadelas apressadas parem os cachorros cegos”.

E darei também razão a Raquel Varela, que escreveu na sua página de Facebook: “Não há outra alternativa possível – a indignação pública é importante mas não chega, ou paramos de trabalhar em greves combativas contra a IA ou seremos mortos pelo cadáver do Estado, morreremos sufocados na decomposição humana do caixão que é a digitalização e o ‘progresso’ da IA.”
Entretanto, a 3 de Julho, soube-se que apesar de o ministro da Educação, Ciência e Inovação garantir que tudo estava dentro da normalidade, afinal, não está! Os professores vão classificar até 14 de Julho, em vez da data prevista que era 10 de Julho. A afixação das pautas será a 17 de Julho, em vez de 14 de Julho. E a segunda fase dos Exames Finais Nacionais do Ensino Secundário vai ter início a 20 de Julho à tarde, em vez de a 16 de Julho, terminando a 24 de Julho, em vez de a 22 de Julho.
Alguns pais e alunos com férias já marcadas e, igualmente, alguns professores serão apanhados de surpresa. Contudo, podemos dormir descansados. Como é costume, o senhor ministro Fernando Alexandre já prometeu mais um inquérito que tudo vai esclarecer. A ver vamos!
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06/07/2026