Muito para melhorar

 Muito para melhorar

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Ao certo, ninguém sabe o que se passa com classificação das provas realizadas no âmbito da 1.ª fase dos Exames Finais Nacionais do Ensino Secundário 2026. Diz-se que a correção digital dos exames está “em fase de recuperação”, para que se fique com a ideia de que estamos numa etapa já prevista no plano inicial desta operação crítica para milhares de alunos e respetivas famílias. É importante transmitir a mensagem de que há um plano, de que tudo estava previsto, ensaiado e oleado, mas a ideia com que eu fico é que o chamado Plano A consistia, simplesmente, em improvisar e que, tendo o improviso corrido mal, se passou para o Plano B, que consiste, à boa maneira portuguesa, em desenrascar.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Peço, desde já, desculpa por esta minha opinião tão negativa. Não passa de uma opinião e espero que se venha a confirmar totalmente errada, mas a verdade é que isso se deve à minha experiência de várias décadas a assistir a fracassos deste tipo.

Confesso que tudo isto me faz confusão. No fundo, sou um engenheiro e isso significa que, acima de tudo, me habituei a ser organizado. Sem organização não há Engenharia. E, sem os ensinamentos da Engenharia, é muito difícil levar a cabo, com sucesso, processos complexos. Se algo se pode dizer do processo de classificação das provas nacionais é que é um processo complexo, com tudo para falhar, se não se tomarem as devidas precauções.

Mas, com a digitalização das provas, não seria de esperar que tudo fosse muito mais simples e corresse sem quaisquer problemas? Digitalizar um documento é trivial, colocá-lo numa plataforma é fácil, atribuir provas a professores classificadores também. Poupa-se tempo, dinheiro e recursos humanos na distribuição, evitam-se extravios e erros. E tudo muito mais seguro.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Ora, vamos lá a experimentar com meia dúzia de provas. Digitalizar: feito! Colocar na plataforma: feito! Atribuir a um professor classificador: feito! Está testado! Funciona! Agora, é só descrever o procedimento, enviar alguns despachos para as escolas, esperar pelos exames e já está! Não há dúvidas de que a desmaterialização é algo extraordinário que resolve imensos problemas!

Então, se é assim tão simples, o que falhou? Parece que quase tudo. Na imprensa, referem-se problemas como perfis trocados (professores de uma disciplina a receberem provas de outra disciplina), provas que desaparecem, respostas incompletas ou trocadas, provas ilegíveis ou em branco, atrasos na distribuição dos exames, entre muitos outros. Falhou o ensaio exaustivo do sistema, com cargas elevadas, próximas da realidade. Confiou-se em que tudo correria bem. Falhou o elo mais fraco: uma organização deficiente, não adequada à dimensão do problema, não testada em ambiente semelhante ao ambiente real. Na realidade, o verdadeiro “teste” decorreu – e ainda está a decorrer – em ambiente de produção, nos dias das provas e nos dias seguintes,  mas parece claro para todos que o teste falhou redondamente. A lição que se tira é que há muito para melhorar!

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06/07/2026

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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