A caridade
No distrito de Chu Pah, Vietname, em 2017. (Créditos fotográficos: Larm Rmah – Unsplash)
Como lemos numa página electrónica, em jeito de síntese ou paráfrase da doutrina católica sobre as virtudes teologais: “A fé, a esperança e a caridade são virtudes teologais que desempenham um papel fundamental na vida cristã. A caridade é a virtude que expressa o amor a Deus através do amor ao próximo, sendo a base da vida de cada cristão e a fonte de todas as outras virtudes.”

presidente do Brasil, Luiz inácio Lula da
Silva. (pt.wikipedia.org)
No dia 22 de Junho, li também que o Papa Leão XIV apelava ao apoio e à solidariedade que deveríamos demonstrar para com os emigrantes. Já em ocasiões anteriores afirmara: “Viver a caridade em atenção ao bem integral do próximo, de facto, ‘é uma grande oportunidade para o crescimento moral, cultural e até económico de toda a humanidade’.”
Recorrendo ao “Rerum Novarum: sobre a condição dos operários” (de 15 de Maio de 1891), registamos: “Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar. De uma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas.”
Vale a pena destacar até que ponto estas citações continuam actuais no contexto nacional português, quando se discute o pacote laboral (alterações à lei do trabalho), entretanto “chumbado” na Assembleia da República, aplaudido nas bancadas e imortalizado pelo pranto de um dirigente sindical.
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Onde está, actualmente, a caridade?

A pergunta ganhou força para mim há dias, quando assisti, no Teatro Nacional São João (TNSJ), à representação da peça “O Beijo no Asfalto”, extraordinário texto de Nelson Rodrigues1. Um indivíduo beija um moribundo na rua, a pedido deste, momentos antes de morrer. Sem o saber, o protagonista desta tragédia contemporânea comete, ao assumir a hýbris (da tragédia grega), o pecado, a ofensa aos deuses – e também à cidade e à Natureza, como sucede em “Édipo Rei”, de Sófocles – que o conduz à queda no abismo.
Ninguém consegue explicar este gesto de humanidade; apenas o protagonista, que, a dado momento, nos confessa ter sido um gesto de caridade, de humanidade, para com um ser moribundo.
A peça, extraordinariamente bem escrita em quadros e cenas, vai-nos colocando perante a queda do protagonista, acusado de homossexualidade, de cumplicidade e, no final, até de assassínio. Perfeita na sua construção, é um labirinto kafkiano, no melhor sentido da palavra, onde a bondade e a humanidade desaparecem completamente: na esquadra da polícia, no próprio lar, nas ruas, através de um jornalismo barato, sensacionalista e irresponsável.

Metáfora? Não. É uma palavra demasiado poética para aplicar a esta realidade. Trata-se de uma verdade crua e nua, “poligraficamente” descartável, como tantas que diariamente nos inundam através da imprensa. A morte do protagonista, como nas grandes tragédias, é também a nossa morte, na quotidianidade de cada dia; a morte da nossa própria humanidade e da nossa indiferença perante a realidade.

Apesar de Nelson Rodrigues ter sido simpatizante da ditadura brasileira (1964–1985), as suas peças foram e continuam a ser o retrato vivo de um Brasil repressivo, obsoleto e corrupto. Belo texto, oportunamente encenado e muito bem representado por actores brasileiros residentes em Portugal.
Aproveito para recordar outras versões de Nelson Rodrigues levadas à cena pela companhia portuense Seiva Trupe: “Toda a Nudez Será Castigada” (em 1986), adaptação de Manuel Dias e encenação de Ángel Facio; e “O Beijo no Asfalto” (em 1995), versão de António Rebordão Navarro, com encenação e cenografia de Roberto Lage.
Actualmente, a palavra de ordem é “solidariedade”: com os imigrantes, com as pessoas em situação de sem-abrigo, com as vítimas dos bombardeamentos em Gaza, com o povo palestiniano, com o povo cubano e, agora mais do que nunca, com o povo venezuelano, na sua tragédia recente. E solidariedade também com todos aqueles portugueses para quem a pensão social não chega.
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Aniversários

Assistimos à comemoração dos dez anos do TAN TAN TANN2 – 10 anos entre a memória do ofício e a invenção do presente, Festival de Artes Performativas Contemporâneas, que voltou a instalar-se na Tanoaria Josafer, em Esmoriz.
Também importa destacar a 45.ª edição do Fazer a Festa – Festival Internacional de Teatro para a Infância e Juventude, realizado dentre 1 e 5 de Julho de 2026, na Quinta da Caverneira e no Fórum da Maia.
Quem diria… como passa o tempo! É bom ser testemunha destes acontecimentos, tão significativos para mim.

Recordo alguns momentos das intenções deste festival: “Que a luz e o Sol nos deem iguais jornadas, sem que as rosas do amor fiquem fanadas.” (“Hamlet”, de William Shakespeare)
Retiro igualmente, da nota informativa do Teatro Art’ Imagem: “Aqui, onde a festa se faz, o sonho é fermento, é bola colorida em mãos de tantas crianças. Aqui não se aprendeu da desistência palavras que a ordenam. Aqui, procura-se a mão pequenina que aprende cedo a sementeira, a graúda que lhe há-de fazer a rega, o espanto que verá nascer a flor que não poderá ser fanada por dá cá aquela palha, muito menos por falta de cuidados. [sic]”
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Renata Portas, encenadora, celebra 20 anos de carreira e foi convidada pela Escola Superior Artística do Porto (ESAP), em parceria com o Teatro Nacional São João, no âmbito do projeto As Escolas Artísticas no TNSJ, para, com os finalistas do Curso Superior de Teatro, apresentar o espectáculo “A Morte é o Material com que Construímos as Nossas Cidades”, no Teatro Carlos Alberto (nos dias 18 e 19 de Junho), com encenação e dramaturgia a partir de textos de Georg Büchner, Heiner Müller e William Shakespeare, abordando as potencialidades e os perigos das transformações políticas súbitas.
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Notas:
1 – Nelson Falcão Rodrigues (1912–1980) é considerado o mais influente dramaturgo do Brasil. A propósito, recordo a célebre autodefinição do jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, proferida numa entrevista à revista Manchete, em 1966: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei-de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha óptica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).” Este excerto resume, na perfeição, a sua genialidade e a sua óptica voyeurista, que dissecou as neuroses, os amores e os vícios da classe média da sua época através da literatura e do teatro.
2 – Festival Internacional de Artes Performativas Contemporâneas que acontece em Esmoriz, Ovar.
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06/07/2026