Crónica da China: 17.º dia

 Crónica da China: 17.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

Manhã de estúdio / tarde de bicicleta no “Chengdu Ring Greenway”

Hoje é sábado, 25 de abril de 2026. É uma data importante em Portugal: em 1974, uma revolução pôs fim à ditadura e abriu caminho à democracia.

(© RUNA – Rute Norte)

A Xiao Huang está à espera dos amigos do escritório da NY20+, mas hoje eles não vêm.

A carregar o meu “powerbank” com um adaptador.

Passei a manhã a estudar dois símbolos de Chengdu: hibiscos e “pássaros do Sol”. E a fazer estudos digitais para as minhas duas telas. Cada uma destas terá representado um deles. Este foi um pedido expresso da NY20+ aos artistas: que os nossos trabalhos integrassem algum símbolo de Chengdu.

Eu aceitei o desafio e, dado que não sou uma pintora figurativa, irei naturalmente interpretar ambos à minha maneira.

Falei do “Pássaro do Sol” na crónica 15 e apresento agora o hibisco, o qual está ligado à História de Chengdu, há mais de mil anos. Vou usar informação dada pelo ChatGPT, que se pode confirmar numa série de fontes, na Internet. Há algumas discrepâncias: uns dizem “Cinco Reinos e Dez Dinastias”, outros aludem a “Cinco Dinastias e Dez Reinos”, outros referem apenas “Cinco Dinastias”.  

Depois de interrogar exaustivamente o ChatGPT sobre as dinastias e os reinos, e de ele me apresentar os nomes todos, bem como todas as datas, mais vale utilizar a seguinte versão do ChatGPT: “Durante o período dos Cinco Reinos e Dez Dinastias (séculos X–XI), o governante do reino de Shu Posterior, Meng Chang, ordenou a plantação de hibiscos ao longo das muralhas da cidade. Quando as flores desabrochavam no outono, Chengdu ficava coberta por extensas manchas cor-de-rosa e vermelhas. Por causa disso, a cidade passou a ser conhecida como ‘Cidade do Hibisco’.

Em 1983, o hibisco foi oficialmente escolhido como flor da cidade de Chengdu.
Adicionalmente, um dos nomes poéticos mais usados para Chengdu[,] na China[,] é precisamente Róngchéng (蓉城), que significa literalmente ‘Cidade do Hibisco’. Ainda hoje aparece em jornais, literatura, turismo e até em designações institucionais.
O hibisco é uma flor que abre e fecha rapidamente (algumas espécies duram apenas um dia); e outras mudam de tonalidade ao longo do dia. O Hibiscus mutabilis passa geralmente de branco ou rosa-pálido de manhã para tons mais rosados ou avermelhados ao final da tarde. Isto tornou-se um símbolo literário clássico na China: a beleza passageira, a mudança constante, a fragilidade do tempo. Na poesia chinesa, estas qualidades são muito valorizadas como metáforas existenciais.”

Estou com um belo sorriso forçado, mas, pronto, é o que se arranja. E tenho as pernas picadas das melgas.

Foi a comer esta laranja (é diferente das de Portugal, saiba-se que a casca é mole e os gomos já vêm separados lá dentro; e o sabor também é diferente), à sobremesa, que decidi ir andar um pouco de bicicleta e conhecer a ciclovia. Não estava prevista, esta saída, mas está uma tarde de sol tão bonita que quis aproveitar. Não me apeteceu ficar fechada no estúdio.

A Zhou, referida na crónica 3, falou-me pelo WeChat da ciclovia circular de Chengdu, recomendando que eu a experimentasse. Entretanto, a Joanna, uma das artistas no meu grupo, também nos falou disto e contou-nos que fez alguns quilómetros a pé, para lá e para cá. Indicou-nos que uma das entradas é mesmo em frente à nossa residência. É hoje, então, que vou conhecer esta famosa ciclovia.

Decidi alugar aqui uma bicicleta de montanha: 50 yuans (seis euros) por esta tarde. Tive de mostrar o meu passaporte e assinar um contrato.

A minha bicicleta está ali no meio. Eu ia tirar uma fotografia às placas, com a bicicleta, mas eles chegaram e rodearam-na. Nem deram conta de que eu estava parada com a máquina fotográfica na mão. Acabaram por ficar na foto também.

São agora 14h46 e tenho 7,5 quilómetros (km) feitos. O “Chengdu Ring Greenway” é um anel ciclável e pedonal com cerca de 100 km à volta da cidade de Chengdu, junto à 4.ª autoestrada circular, precisamente onde a NY20+ se localiza. É grátis e está aberto ao público 24 horas por dia. Pedalar os 100 km tornou-se um desafio moderno em Chengdu. O percurso leva entre quatro a 10 horas, dependendo da bicicleta e da forma física.

Passa por lagos, por zonas húmidas, por campos agrícolas e até por jardins de flores sazonais. Esta ciclovia circular de Chengdu foi desenvolvida durante vários anos, entre 2017 e 2022, até formar o atual percurso contínuo de 100 km. E faz parte de uma estratégia maior: o “Tianfu Greenway”, uma rede de corredores verdes distribuídos pela área metropolitana de Chengdu planeada para atingir cerca de 16900 km, até ao ano 2040.

Estou delirante: uma bela tarde de bicicleta com 31°C (87°F). Não podia ser melhor.

O cavalo é um símbolo muito antigo na China. Representa progresso, velocidade, sucesso militar e administrativo. Nestas esculturas do Chengdu Ring Greenway, o cavalo faz parte do design paisagístico contemporâneo, e simboliza movimento, ciclismo, mobilidade. Tal como o Sol, que significa energia e vitalidade.

Sinto o sol na pele; e também a cultura Bashu. Ainda não falei na cultura Bashu, nestas crónicas, a não ser na introdução, porque não há nada concreto para mostrar. A cultura Bashu é um modo de vida. É, exatamente, esta filosofia de vida, com um ritmo mais descontraído do que noutras grandes cidades chinesas.

De onde vem o nome “Bashu”? Os reinos de Ba e Shu – cujas origens prováveis remontam, pelo menos, ao segundo milénio a.C. – situavam-se nas atuais regiões de Chongqing e Sichuan, respetivamente.

Embora frequentemente mencionados em conjunto como “Ba-Shu”, eram entidades distintas, com culturas próprias, que coexistiram durante séculos antes de serem conquistadas pelo Estado de Qin, no século IV a.C.
Shu situava-se na bacia de Sichuan, com centro na atual Chengdu, e beneficiava de terras férteis e abundância de água, sendo tradicionalmente considerado o antepassado cultural da região de Chengdu.

O Reino de Ba, por seu turno, ocupava a região mais oriental da bacia, em torno da atual Chongqing. Desenvolveu-se numa paisagem mais montanhosa e atravessada pelo rio Yangtzé, e tinha uma reputação de sociedade mais guerreira e militarizada.

Em 316 a.C., Shu e Ba foram conquistados pelo poderoso Estado de Qin. A incorporação destas regiões deu a Qin acesso a enormes recursos agrícolas, que contribuíram para a futura unificação da China. Embora os reinos tenham desaparecido há mais de dois mil anos, o termo “Bashu” continua vivo. Em Chengdu, ainda se encontram referências à cultura Bashu, à literatura Bashu, à gastronomia Bashu e à arte Bashu. Quando alguém fala, hoje, da “cultura Bashu”, não está a referir-se a uma etnia específica, mas, sim, ao legado histórico e cultural herdado destes dois antigos reinos que moldaram a identidade do sudoeste da China.

Veja-se esta análise feita numa universidade de Chengdu:
“A cultura Ba tem como valores centrais ‘seguir a Natureza, abertura e inclusão, lealdade e retidão, coragem e avanço contínuo” […] A cultura Shu caracteriza-se por “inclusão e abertura; busca de harmonia e valorização do lazer […] Em síntese […], a cultura Bashu é aberta e inclusiva, e a sua internacionalização desempenha um papel importante no desenvolvimento cultural e económico regional.”1

Repare-se na “valorização do lazer”. E vejamos, igualmente, esta análise feita por outra universidade de Sichuan: “Chengdu, conhecida como a ‘terra da abundância’, é a capital da província de Sichuan. Localiza-se no centro da planície de Sichuan Ocidental e possui um ambiente natural único e agradável para se viver. É uma cidade histórica e culturalmente importante na China, além de ser a maior cidade moderna do sudoeste do país. […] Além disso, Chengdu foi classificada pela UNESCO como ‘Cidade da Gastronomia’. A cozinha de Sichuan é uma das quatro grandes cozinhas da China, graças à sua diversidade de estilos e métodos de confeção únicos, que resultam em pratos de sabor fresco, suave e persistente. O picante e o efeito de dormência na língua são a sua marca distintiva, em particular no caso do hot pot de Sichuan.”2

Chengdu foi a primeira cidade asiática a receber esta distinção na categoria de gastronomia, em 2010. Integra a rede de “Cidades Criativas” da UNESCO, que distingue cidades com forte património cultural e criatividade em áreas como gastronomia, design, música, literatura, etc.

O mapa do Chengdu Ring Greenway.

São 16h04 e fiz 16 km. É altura de voltar para trás, apesar de não me apetecer nada, porque estou a adorar este passeio. Agora, tenho os mesmos 16 km para trás. Preferia mil vezes fazer 32 km sempre em frente e depois regressar de táxi, com a bicicleta, mas tenho receio de não conseguir um táxi que me transporte a mim e à bicicleta.

Como é engraçado ver os gelados da “Olá” à venda em Chengdu. Esta marca é das mais famosas em Portugal e pertence à Unilever, uma multinacional anglo-neerlandesa. Encontro esta notícia de 2022 no jornal “China Daily”:
“A gigante de bens de consumo Unilever inaugurou na terça-feira a sua maior fábrica de gelados do mundo em Taicang, uma cidade de nível distrital sob a jurisdição de Suzhou, na província de Jiangsu, no leste do país. Executivos da Unilever afirmaram que a fábrica reflete a ‘velocidade, determinação e capacidade da empresa na China’. A fábrica utiliza tecnologias digitais como a inteligência artificial e a Internet das Coisas. Assim, faz parte dos ‘Faróis da Quarta Revolução Industrial Avançada’, um consórcio de unidades de produção inteligente reconhecido pelo Fórum Económico Mundial. A fábrica tem capacidade para produzir 2 milhões de unidades de gelados Wall’s, Magnum e Cornetto por dia.”3

Pelo que leio na Internet, em 2026, a Unilever anda a tratar da criação de uma futura empresa independente (por exemplo: Magnum Ice Cream Company). Os históricos gelados “Olá” – ou “Wall’s”, como também são conhecidos no Mundo – vão sair da Unilever.

Outra versão do “Pássaro do Sol”.

Cheguei à residência, são 17h47. Foi um belo passeio de cinco horas. E soube-me a pouco.

O Huji anda a passear com a dona, desta vez. E quer ir um bocadinho mais longe. A dona – que se chama Yang Li – é a presidente e fundadora da NongYuan. É a dona do Huji e disto tudo!

Notas bibliográficas:

1 – Zhang X., Cheng Z., Guo X. (1 abril 2022) “Study on the Overseas Communication of Ba-and-Shu Culture in International Chinese Language Education in Universities and Colleges of Sichuan Province: Taking X University as an Example”. School of Foreign Languages and Culture, Xihua University, China. In MANDARINABLE: Journal of Chinese Studies Language, Literature, Culture, and Journalism Vol. 01, No. 01, April 2022 | Page 22-29|. Estudo consultado a 4 de junho de 2026.

https://journal.uns.ac.id/index.php/marble/article/view/328/67

2 – “Land of Abundance”—Chengdu” (s.d.). Overseas Students Office, Sichuan University. Página consultada a 4 de junho de 2026.

https://global.scu.edu.cn/oso/article/index/1101?lang=en

3 – He W. (30 março 2022). “Unilever’s largest ice cream plant opens”. Chinadaily.com. Página consultada a 4 de junho de 2026.

https://www.chinadaily.com.cn/a/202203/30/WS6243a20ea310fd2b29e540aa.html

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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16/07/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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