Um brasileiro, uma italiana, um semiturco: gregos entretanto

 Um brasileiro, uma italiana, um semiturco: gregos entretanto

Cena do filme “Odisseia”. (metropoles.com)

Nestes dias em que o filme “Odisseia” vem enchendo os cinemas de espectadores, ainda não decidi se vou assistir ou não. Os críticos dizem que é uma versão equivocada de Nolan, um desvio em relação ao épico atribuído a Homero. Tenho para mim que Homero não foi um narrador; terão sido vários os Homeros, cada um a agregar retalhos da tradição oral à narrativa crescente. Portanto, Nolan não vem a ser um impostor; vem a ser mais um Homero. A questão é enfrentar três horas numa poltrona de um cinema exíguo de centro comercial, o que em nada me anima. Entretanto, rever Micenas, ainda que num filme, seria interessante: passar novamente por aquele Portão dos Leões, conferir o que resta das muralhas e as colinas permeadas de pinheiros e de oliveiras…

Porta dos Leões – Micenas. (Joyofmuseums – pt.wikipedia.org)

Tais memórias levaram-me a recordar Tróia. Inicio a minha lembrança quase a rir do Cavalo de Tróia (o original do filme, aquele com o Brad Pitt) que encontrei em Çanakkale, posto que não era grande e nele caberiam poucos gregos. Ademais, o seu aspecto era apavorante – teria enganado os Troianos aquele presente de grego? O cinema, desde sempre, conspira contra a nossa imaginação; nem sempre condiz com o nosso imaginário. Sendo assim, vou adiando assistir a esta nova “Odisseia”.

Bergama, İzmir, na Turquia. (Créditos fotográficos: Mert Kahveci  Unsplash)

O meu pensamento recupera Gabriela, que conheci na minha passagem pela Ásia Menor. Ela tinha o hábito de olhar para aquilo em que eu pensava através de uma subtil e entreaberta veneziana. Tínhamos saído de Bergama. Um vazio de colunas enfileiradas e um suposto caminho esculapiano, tendo à saída uns vendedores de ervas e temperos. Tão-somente. Nenhum pergaminho. Havia, porém, alguma coisa no chão; eu teria parado para observar uma flor, quando ela se aproximou e disse: “É uma íris. Há muitas por aqui. Umas claras, outras azul-turquesa. Conferem serenidade às nossas íris, não é verdade? A natureza é criativa; recupera vida onde ela se faz ausente.” E emendou: “Sou veneziana. Veneza é um lugar onde se paga caro para nascer, viver e morrer. Não muito diferentemente do Mundo. Tem canais e nada de jardins, flores assim para preencher as nossas íris.” Que mulher interessante!

Muralhas da cidade escavada de Tróia. (pt.wikipedia.org)

Gabriela estava sempre atenta aos meus olhares. Percebeu que eu me encontrava desolado em Tróia. Uma superfície sem graça, alguns cacos de mármore e, para completar, num certo ponto fizeram um recorte para vermos a antiga cidade em profundidade: são, pelo menos, nove camadas daquilo que, através do tempo, ela foi. No mais, Tróia é somente isso; decepcionante. Ela aproximou-se e entabulou conversa comigo. Não fazia perguntas; afirmava, confiante na sua observação: “Então, Tróia é a antípoda da beleza de Helena; todavia, não nega o mundo pastoril de Páris. Tem a sua verdade preservada nesse aspecto…”

Cavalo de Tróia usado no filme “Tróia”, próximo ao Hotel Akol, em Çanakkale. (tripadvisor.pt)

Afirmei a minha decepção para com o lugar. Ela deu asas à mitologia para me animar: “Éris, Atena e Afrodite foram convidadas para o casamento de Peleu e Tétis, que mais tarde seriam os progenitores de Aquiles. Aquele que levou Odisseu para a “Ilíada”. Éris não era nada bem-vinda à cerimónia, dado o seu temperamento controvertido. Ela sabia disso; entretanto, resolveu divertir-se: lançou, no meio dos presentes, uma maçã de ouro com a inscrição: “Para a mais bela.”

Quem seria a destinatária? Julgava ser ela, claro. Para resolver o rebuliço, Zeus escolheu Príamo, o rei de Tróia. Entretanto, o rei, já velho, passou a contenda para o seu filho Páris, o príncipe pastor; seria este a decidir. No intuito de ser eleita a mais bela, Éris ofereceu-lhe poder; Atena, toda a habilidade para a batalha, assim como o conhecimento; e Afrodite ofereceu-lhe Helena, ainda que já fosse esposa de Menelau, a mais bela mulher existente até então.

Páris, maravilhado, prontamente elegeu Afrodite como a mais bela das deusas; decidiu embriagado pela beleza. E foi aí que surgiu a ira de Éris e de Atena, que culminaria na guerra de Tróia…”

Vista panorâmica do centro da cidade de Kusadasi num dia claro de Verão. (pt.wikipedia.org)

Gabriela pontuou: “Este é o reino de Páris, pastoril e tosco. A meu ver, ele fugiu com Helena para ela vir a parir Paris! A beleza vive longe daqui.”

Rimos muito da sua assertiva. Tróia já não me parecia um cemitério sem vida.

Ilha de Samos, na Grécia. (Créditos fotográficos: Makis Hristaras – Unsplash)
(etsy.com)

Lá em Kusadasi, sentei-me a contemplar o mar a partir do Monumento das Aves (Kuşadası = “ilha dos pássaros”, em Turco). A ilha tem um passado que inclui uma permanência veneziana, e foi então que a minha amiga, ao reparar na forma como eu observava a ilha de Samos, com o seu espectro grego insinuante e exultante no horizonte, comentou: “E pensar que a Grécia ficava a apenas 27 quilómetros de onde eu me encontrava!

Gabriela voltou a ser assertiva: “Então aprecias as lonjuras. Ao contemplá-las, fazes as tuas conjecturas. Pressinto que amas, em demasia, o espírito grego. Se calhar, lembras-te do filme “Zorba”, quando o velho desafia o jovem a dançar um rebético insonoro, um passo partilhado, depois de lhe dizer: “Tudo em ti é certinho; falta-te, decerto, um pouco de loucura.” Aprecio-te porque estás na Turquia como um grego; esse desvio do olhar é uma loucura!”

Os antigos Gregos deram à flor o nome de uma figura
mitológica, uma deusa. Essa deusa era Íris. 
(cdn.shopify.com)

Lembrei-me de que, um dia, em São Paulo, no restaurante Akropólis, o proprietário me tirou da cadeira para simular alguns passos de dança e apresentou-me aos restantes clientes como o grego mais grego que alguma vez tivera no seu restaurante. Afirmava: “É até mais grego do que eu!”

Ele era natural de Samos. No seu tempo de infância, a sua ilha era objecto de disputa entre a Grécia e a Turquia, pelo que possuía uma identidade ambígua. Estar a olhar para Samos a partir da costa daquela ilha turca foi, até hoje, o momento em que mais me aproximei da loucura. Sentia que perdera os pés; seguia para onde o olhar me levava. Tudo me conduzia ao imortal espírito grego.

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27/07/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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