Educação: a reconstrução inadiável

 Educação: a reconstrução inadiável

(Créditos fotográficos: Shelby Murphy Figueroa – Unsplash)

(Créditos fotográficos: Aaron Burden – Unsplash)

Dizer que Portugal precisa de investir “50 mil milhões de euros na educação” é um choque retórico. Não é um número técnico: é um alarme. Serve para lembrar o que fingimos não ver: sem educação de primeiro nível, nunca teremos um país de primeiro nível. E, no entanto, continuamos a tratar a educação como um setor a remendar, não como a infraestrutura crítica que determina o futuro coletivo.

Portugal não precisa de mais reformas educativas. Precisa de uma reconstrução estrutural, com visão, coragem e continuidade.

Eis os pilares dessa reconstrução:

1. O princípio é antes da escola: o pré‑escolar como fundação do país

O desenvolvimento decisivo acontece antes dos seis anos. É aqui que se formam a linguagem, a atenção, a autonomia, a relação com o Mundo. Se os pais trabalham fora de casa – e, hoje, trabalham quase todos –, o Estado tem de garantir que as crianças crescem em ambientes seguros, estimulantes e ricos.

Uma rede universal de berçários, creches e jardins de infância, com profissionais qualificados e integração com saúde e ação social, não é um luxo: é a base de qualquer país que queira competir no século XXI.

Sem isto, tudo o que vier depois será sempre remendo atrasado.

(Créditos fotográficos: CDC – Unsplash)

2. Escolas que respiram: arquitetura para a vida, não para o confinamento

As escolas portuguesas continuam a ser pensadas como edifícios administrativos. Fechadas, densas, interiores. Mas as crianças precisam de respirar, de correr, de ver longe, de tocar o Mundo. Precisam de quintas de proximidade, de jardins, de oficinas, de laboratórios, de campos desportivos.

É urgente definir normas nacionais de arquitetura educativa: luz natural, espaços exteriores integrados no currículo, bibliotecas vivas, oficinas de artes, estúdios de ciência.

A escola deve ser o centro cultural da comunidade, não um depósito de alunos.

(Créditos fotográficos: Nathan Cima – Unsplash)

3. Adeus à sala de aula industrial: aprender por projetos, não por filas

A sala de aula tradicional é uma invenção do século XIX. Não serve o século XXI. O futuro exige pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração, criatividade.

A aprendizagem deve organizar-se em:

  • projetos interdisciplinares;
  • debates e apresentações;
  • investigação e trabalho em grupo; e
  • equipas pedagógicas, em vez de professores isolados.

O digital não substitui a escola: amplia-a. Laboratórios virtuais, plataformas de criação, ferramentas de pesquisa, tudo integrado, nunca imposto.

(Créditos fotográficos: Annie Spratt – Unsplash)

4. Um currículo para todos, caminhos para cada um

(Créditos fotográficos: Monica Sedra – Unsplash)

Todos os alunos devem dominar competências nucleares: leitura, escrita, cálculo, pensamento crítico, artes, cidadania. Mas cada aluno deve poder seguir trilhos personalizados: ciência, tecnologia, humanidades, artes, desporto, empreendedorismo.

Para isso, é indispensável:

  • mentoria obrigatória;
  • portefólio digital individual; e
  • orientação vocacional baseada em evidências.

A escola deve ser artesanal, não industrial.

.

5. Reprovar não educa: substitui-se por recuperar

A reprovação é inútil, cara, injusta e vexatória. Não melhora a aprendizagem; apenas adia o problema. A escola não deve amedrontar, ameaçar, atemorizar, enxovalhar, excluir. Pelo contrário, deve tranquilizar, dar esperança, horizonte e felicidade.

Funciona bem com o diagnóstico precoce, com apoio personalizado e com acompanhamento contínuo.

A progressão deve ser orientada pelo potencial de cada aluno, não por um calendário rígido.

(novaescola.org.br)

6. Professores: reconstruir a profissão mais importante do país

Sem professores, não há educação. E Portugal está a perdê-los todos os anos.

É preciso:

  • carreira atrativa;
  • formação inicial exigente;
  • formação contínua obrigatória;
  • equipas de apoio especializado;
  • flexibilidade de horários e modelos híbridos.

A profissão docente deve ser uma das mais prestigiadas do país.

7. Blindar a educação contra ciclos eleitorais

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

A educação não pode mudar de quatro em quatro anos. Precisa de:

  • planos de 10 anos;
  • avaliação independente;
  • financiamento plurianual;
  • uma Agência Nacional para a Educação.

Sem governança, tudo o resto é retórica.

.

Conclusão: o país que queremos depende da escola que construirmos

Se quisermos manter os atrasos crónicos, basta não fazer nada. Mas, se quisermos um país capaz de competir, de inovar e de criar, então, teremos de reconstruir a educação como projeto nacional.

Não é um luxo. É a única estratégia de futuro.

.

03/08/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

Outros artigos

Share
Instagram