O iluminismo do caos
Donald Trump e J. D. Vance. (commons.wikimedia.org – institutodobemcomum.com)

“Os Engenheiros do Caos” e “O Iluminismo das Trevas” são dois livros essenciais para se compreender o actual pensamento da extrema-direita, que Arnaud Miranda, professor de Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos de Paris e autor de “O Iluminismo das Trevas”, designa por neorreaccionarismo.
Esta corrente do pensamento da extrema-direita teve origem na última década do século XX, desenvolveu-se durante a primeira década do século XXI e viu o seu programa começar a ser aplicado na primeira eleição de Donald Trump, em 2016. Daí para cá, o neorreaccionarismo expandiu-se para a Europa, influenciando os partidos classificados como de extrema-direita populista, e para a América do Sul, cujo expoente máximo é Javier Milei, presidente da Argentina.

Ao contrário do que se poderia pensar – e como aconteceu com outras doutrinas políticas –, o neorreaccionarismo foi sendo elaborado à medida em que o neoliberalismo se esgotava, sem dar resposta à crescente incorporação tecnológica no mundo dos negócios, que exigia a aceleração constante da produção.
Até então, qualquer que fosse a corrente ideológica de direita, existia sempre um período de estagnação, necessário para se consolidar o novo padrão de negócio. Era a altura em que a concorrência entrava em cena, obrigando a sair de cena quem não tinha condições para se manter em cena: o novo patamar de inovação exigia recursos e competências que nem todos estavam à altura de cumprir.

Estudos Políticos de Paris. (sciencespo.fr)
Esta doutrina começou a ser elaborada nos blogues, no início do século; primeiro, por vários bloggers, até que, de entre todos, como geralmente acontece, se destacou um – Curtis Yarvin – que tem em J.D. Vance o seu mais fiel seguidor. Yarvin é um teórico da práxis neorreacionária e preconiza a destruição da “Catedral”, a figura que, segundo ele, sintetiza o que de mais nocivo existe nas democracias liberais: a imprensa e os funcionários públicos.
Seriam eles os principais obstáculos a uma sociedade livre, em que cada um poderia tomar decisões à medida das suas necessidades, sem olhar a modelos dominantes. É ele mesmo que defende que, para se atingir esse nirvana social, seria preciso instalar o caos, fazendo “reset” no que são as sociedades actuais.

Olhando para o que se passa no presente panorama político, principalmente nos Estados Unidos da América, o que para muitos é incompreensível, não passa, afinal, da concretização do que Yarvin preconiza. Ele que, agora, é um visitante assíduo da Casa Branca!
Uma vez que não existem, actualmente, condições materiais para a tomada do poder, nem pela via violenta, o que estes “spin doctors” propõem não é baixar os braços, mas infiltrarem-se nas principais esferas de influência e de decisão: aparelho de Estado, imprensa, forças armadas e policiais e também universidades.
Seria através de um trabalho militante nestas esferas do aparelho ideológico que se tornaria possível romper com a globalização do mercado, criando-se não Estados, mas associações ligadas por um único laço: o do libertarialismo reaccionário, que constituiria o grau mais elevado do desenvolvimento humano.

Na mira do neorreaccionarismo está um mundo que foi concebido e construído sob a influência da bandeira comunista, mesmo que actualmente esteja a ser governado por forças que se lhe opõem. É que, no início, a força argumentativa dos comunistas foi tal e tão lógica que conseguiu impregnar a sociedade com as suas ideias, ao ponto de estas se tornarem em valores de uso corrente. O seu erro residiu na incapacidade de transformar boas ideias em boas práticas governativas, tendo deixado como legado essas mesmas ideias, difíceis de extirpar do modo de vida social. É isso que o neorreaccionarismo propõe: começar de novo. Nem que, para isso, tenha de lançar na miséria milhões de pessoas.
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06/08/2026