Viagem no tempo à boémia coimbrã (1)
Coimbra de outros tempos. (© Recordações de Coimbra 2 – Carlos Pereira – facebook.com)
Um pensamento que me ocorre ocasionalmente é o quanto eu gostaria que alguém inventasse uma máquina do tempo. Não para tentar mudar o passado, mas para passar de visita – particularmente, em sítios que conheço. Ver Londres no auge do Império inglês, Lisboa antes do Terramoto, uma Queima das Fitas em 1950. Na ausência de máquinas do tempo, guardo, há anos, um livro que nos abre uma janela para o passado: “Boémia Coimbrã (dos anos quarenta)”.

desconhecido tauquiano (elemento da TAUC –Tuna
Académica de Coimbra), foi autor de um pequeno
livro que relata divertidas peripécias envolvendo
estudantes dos anos 40 (do século XX). Capa do livro
“Boémia Coimbrã”, publicado em 1975, pela Athena.
(tunauc.wordpress.com)
Nesta pérola, publicada pela Athena em 1975, António Nicolau da Costa transporta-nos a uma Coimbra diferente da de hoje, mas, entre futricas e doutores, também parecida, com um sentido de humor que nos une ao longo do tempo. Prova disso é um prefácio em que narra a reação (tão negativa que chega a ser caricata) à tentativa de ter uma figura de “bem” a endossar o livro. Portanto, enquanto os leitores tomam banhos de sol, volto a pôr a capa e a batina para visitar a Coimbra que Nicolau da Costa recorda.
A cidade à qual chega Nicolau com “17 primaveras sadias” é bastante parecida com aquela onde cheguei com as minhas 18 ou 19. Existe uma Alta e uma Baixa; as pessoas descem pelo Quebra-Costas; passa-se pela Sá da Bandeira; come-se no Terreiro da Erva. Aliás, em tom de gozo, a casa onde Nicolau da Costa vive apelida-se “Astória da Alta”. O que muda são os locais de encontro: existem leitarias, o café do “Pirata”, sempre em competição com “o Jesuíta”. Um pouco como no meu tempo, havia pessoas que iam ao Tropical ou ao Académico. Para um viajante no tempo, muita desta Coimbra é a mesma.

Uma das primeiras coisas que Nicolau fez ao ver-se transformado em doutor foi descobrir uma coisa chamada crédito. Chega-se, consome-se e aponta-se no livro. “O senhor doutor, se não quiser pagar agora, paga depois.” Muito moderno, mas deixa o autor empenhado de uma maneira desastrosa. Camisas, roupa de cama, tudo o que não estiver pregado acaba no prego. Tanto que até o pai dele se vê obrigado a vir a Coimbra pagar as dívidas do filho. Mal o pai vira as costas, volta logo a empenhar tudo.


Acho que dinheiro é coisa que nunca abunda na comunidade estudantil, mas esta tradição de vender por fiado foi desaparecendo. O seu legado são esses azulejos que dizem “Por culpa de alguém, não se fia a ninguém”. Portanto, obrigado, Nicolau, espero que essa garrafa de Porto que pediste para impressionar os holandeses tenha valido a pena. Claro que ainda existem lojas de penhor (na minha época, havia uma na Conchada), mas duvido que ainda aceitem roupa de cama.
Sem dinheiro, a comida também não era muita. Eu estudei em Coimbra de 2006 a 2010 e nunca roubei nenhuma galinha. Mas eu tinha as Cantinas Amarelas. Nos tempos do Nicolau da Costa, roubavam-se patos dos lagos públicos e galinhas das casas das pessoas. Numa das aventuras mais épicas do livro, até um galinheiro inteiro levaram. Tudo era depenado, cozinhado e partilhado nos momentos de fartura.

Dessas memórias, sai um momento “acredite se quiser”. Nicolau afirma que foi um amigo seu que criou a palavra “fino” para pedir uma cerveja – criando, assim, o cisma regional entre finos e imperiais. Reza a história que Toninho Saraiva, especialista em questões etílicas, pedia sempre “um copo de cerveja de vidro fino”, como era do seu agrado. Daí chega-se ao “copo fino” e, depois, “ao fino”. E esta, hein?

São histórias com 80 anos, mas com temas comuns a qualquer universitário: lembranças de quando se estava no topo do mundo, cheio de pujança, mas com responsabilidades limitadas. Qualquer estudante que chega à cidade pensa que inventou a boémia. É normal. Olhamos para adultos – Nicolau era médico, pai de três filhos, quando escreveu o livro – e não vemos os jovens que foram. Sem saber, somos herdeiros destes “cowboys”, mas já não roubamos patos. Aliás, para bem ou para mal, já nem os sabemos depenar.
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P.S.: Deixamos o Nicolau com o galinheiro nas mãos, mas ele volta em setembro, para a segunda parte desta crónica.
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06/08/2025