De São Paulo à Patagónia: memórias integradas  

 De São Paulo à Patagónia: memórias integradas  

Vista da costa da cidade de San Martín de los Andes de frente para o Lago Lácar, na Argentina. (en.wikipedia.org)

Tenho vinte e cinco anos / de sonho, e de sangue, e de América do Sul / Por força deste destino / Um tango argentino me vai bem melhor que um blues (Belchior)

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Quem viaja sabe que, por vezes, vai encontrar-se no dia, na hora e no lugar errado, dantes previsto vindo a ser certo. Encontrava-me, num mês de julho, num hotel na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Uma avenida que foi planeada para integrar o Jardim Europa, o Jardim América e o Jardim Paulista. E mais ainda: ganhou o seu nome para recordar um levante fracassado. Experimentei uma outra falha em termos de levante: o elevador parou, estagnou entre dois andares.

Viaduto da Avenida Nove de Julho, em São Paulo, no Brasil. (Créditos fotográficos: Gabriel Fernandes – pt.wikipedia.org)

O que permitia que só visse o piso em que estaria através de uma fresta ínfima. Era mais de meia-noite e, àquela altura, havia somente a minha pessoa. Confiante na sua eficácia, disparei o botão de alarme, por prever haver uma comunicação da receção para comigo – pois que tomassem providências. Nada sucedia. A sensação era de que o ar iria faltar, uma penúria de abandono.

Cidade de São Paulo, no Brasil. (Créditos fotográficos: Vitor
Mendes Stafusa – Unsplash)

De súbito, ouvi a passagem de uns jovens ao chegarem àquele andar. Clamei por socorro; deram-me atenção. Eram argentinos. Desolado, fui assistido por eles: puseram-se a conversar comigo e até enfiaram um sapato na fresta para mantê-la entreaberta, à guisa de assegurarem alguma entrada de ar até que alguém viesse tirar-me daquela situação.

Os dois rapazinhos desceram até à receção; as duas jovens mantiveram-se por ali, a conversar comigo. Perguntei os seus nomes. Soledad e Esperanza. Tal e qual vinha sendo a minha condição.

Que gratidão tenho ainda para com aqueles amigos inesperados. São, sem dúvida alguma, o único lado bom da recordação. O resgate sucedeu-se umas duas horas depois do facto – quando alguém me fisgou. Fui até à receção e eles alegaram que a demora se teria devido ao facto de não haver nenhum encarregado de elevadores durante a noite a postos e de, por isso, terem tido de acordar um deles que, por sua vez, morava no outro lado da cidade. “Sabes como São Paulo é grande!”, argumentou.

Enfim… Ao que eu disse: “Sim, é tão grande que foi preciso virem argentinos, em passos largos e precisos, para demonstrarem, pelo menos para mim, o que é “respeto y amistad”.

Foi-se o tempo em que Brasil e Argentina se estranhavam. Quero dizer: as pessoas; não me refiro aqui aos sismos e cismas nos terrenos diplomáticos. A origem da rivalidade vem desde a herança das disputas territoriais entre Portugal e Espanha e, com a independência dos dois países, adveio uma desconfiança mútua, não exatamente uma hostilidade aberta, um tanto assimilada pelas sociedades de ambos.

Imagem aérea da barragem de Itaipu, na foz do Iguaçu, no Paraná (Brasil). (Créditos fotográficos: Jonas de Carvalho – Flickr – pt.wikipedia.org)

Os anos 70 do século XX enfrentaram a questão das ditaduras que, por sua vez, enfrentavam uma suposta incompatibilidade do aproveitamento hidroelétrico e rumores de projetos nucleares. Inventou-se uma inimizade perigosa. Naqueles anos, o habitual era o estranhamento mútuo, o que foi evidenciado pelas claques no campo do futebol.

Brasil x Argentina: Superclássico das Américas. (imortaisdofutebol.com)

Conheci uns brasileiros que viajavam para a Argentina com receio de tornarem pública a viagem, mas voltavam felizes por trazerem na mala um perfume Lancaster, um bronzeador Rayito de Sol, alfajores e vinhos; e argentinos que também viajavam na surdina para o Brasil e voltavam contentes com uma provisão de chinelos Havaianas, bombons Garoto, paçocas e cachaças na mala. As alfândegas deixavam tudo passar. Curiosamente, esses produtos existem até hoje nos respetivos países; sobreviveram, distintos, imunes aos estranhamentos.

Por outro lado, aquele ambiente de insatisfações para com o domínio ideológico militar, tão pródigo em censuras, de excessos, fosse na perseguição ou pelas torturas, fez com que as juventudes de ambos se aproximassem através da música. O Brasil levava o Tropicalismo e as letras cifradas da MPB (Música Popular Brasileira) a uma nova interpretação de si mesmo, e isso, naturalmente, ultrapassou as fronteiras.

Caetano Veloso interpretando “Alegria, Alegria” no III Festival da Música Popular Brasileira, em 1967. (Arquivo Nacional – pt.wikipedia.org)
Mercedes Sosa, em 1973. (pt.wikipedia.org)

E os países latinos vizinhos também buscaram reinterpretar-se através de um fenómeno chamado Nueva Canción. Um aríete contra as desigualdades, a repressão, com um reforço da memória, da identidade, da pertença, um pan-americanismo integrado, uma aglutinação incontrolável, posto que não se cantava para o povo, cantava-se com o povo. Era a voz dos sem voz.

Os instrumentos: o charango, a quena, o cajón – enquanto afirmação simbólica; a doce voz de Mercedes Sosa, que foi obrigada a exilar-se depois de ter sido presa com todo o público em La Plata, em 1978; o ritmo catalisador dos Andes.

Tocando cajón. (Wikimedia Commons)

Foi a partir de um encontro musical que conheci San Martín de los Andes, na Patagónia, e passei a amar incondicionalmente a Argentina. Aquele sítio magnífico exploraremos na próxima crónica. Voltamos já!

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21/09/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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