O paradoxo da tendência amacacada
Macaco berbere (Macaca sylvanus). (Créditos fotográficos: Böhringer Friedrich/WikiCommons – wilder.pt)

(instagram.com/andrecarvalhoramos)
Se esta coluna tem frequentemente dirigido uma crítica severa às redes sociais, entendidas pelo seu signatário como um dos principais catalisadores de muitos dos problemas que hoje atravessam a vida coletiva, importa reconhecer as raras vezes em que destes espaços emergem contributos intelectualmente relevantes. É com este espírito que convoco uma recente publicação de André Carvalho Ramos, jornalista e pivot da CNN, membro de um restrito conjunto de profissionais que ousam ocupar o espaço digital com informação rigorosa e orientada por um inequívoco sentido de responsabilidade cívica.
Tendo o tal vídeo servido de ponto de partida para a reflexão que aqui se desenvolve, cumpre proceder a uma breve contextualização do seu conteúdo. Através da página do Instagram @andrecarvalhoramos, sob a interpelação “Ainda confia nos jornalistas?”, acompanhada da afirmação “Partidos e governo têm desvalorizado o papel do jornalismo. Isto leva a uma destruição da confiança na comunicação social”, o jornalista partilhou um conjunto de episódios que ilustram aquilo que interpreta como uma estratégia persistente de descredibilização do jornalismo por parte do centro-direita português – em particular, da Aliança Democrática e de diversos membros do Governo.

Na medida em que as modalidades através das quais esta desvalorização se manifesta são diversas, torna-se pertinente dedicar-lhes algumas linhas:
- Através do recurso à ironia, Luís Montenegro, primeiro-ministro, sugere que os jornalistas “não têm pedalada para acompanhar tudo o que o Governo faz no dia a dia”.
- Materializando a insinuação de suspeições, o mesmo Luís Montenegro afirma que “a maior parte deles (dos jornalistas) tem um auricular no qual lhe estão a soprar a pergunta que devem fazer”.
- Servindo-se da imputação de incompetência, Luís Neves, ministro da Administração Interna, alega que determinada “qualificação (feita pelo jornalista) está mal feita”.
- Num outro plano, por via do desprezo institucional, recusando responder mesmo quando à sua frente posa um exército de microfones, tanto Luís Montenegro como Luís Neves antecipam que “não haverá perguntas no fim” da conferência de imprensa.
- Assumindo uma forma mais direta de acusação, Hugo Soares, líder da bancada parlamentar do Partido Social Democrata, conclui que “o melhor é não confiarmos mesmo na maioria das notícias”.
Uma reflexão mais profunda e ponderada convida a que a discussão não se esgote na enumeração destes episódios, mas, antes, se projete sobre as consequências mais vastas da narrativa que lhes subjaz. Se as redes sociais disputam, hoje, com o jornalismo, a atenção dos públicos, e se as suas arquiteturas favorecem, por razões amplamente documentadas, a circulação de discursos populistas e radicalizados, o enfraquecimento do jornalismo de referência dificilmente pode deixar de beneficiar aqueles atores cuja ascensão os partidos tradicionais procuram conter. Ao contrário das plataformas digitais, o jornalismo profissional continua a operar segundo princípios de verificação e de responsabilização pública que, embora imperfeitos, introduzem importantes mecanismos de contenção da simplificação e da desinformação.

Daí que se erga um paradoxo estratégico da expectativa de conquistar eleitorado atraído pelas forças populistas por via da incorporação de elementos centrais da sua gramática discursiva – um cenário tão mais evidente quanto desta colonização se salienta a sistemática descredibilização dos media. Ao fazê-lo, os partidos moderados acabam por fragilizar uma das poucas instituições ainda capazes de impor custos públicos à circulação de narrativas simplificadoras e emocionalmente mobilizadoras. A curto prazo, esta opção poderá revelar-se eleitoralmente sedutora, ainda que inócua; a médio e a longo prazo, tende a reforçar o ecossistema comunicacional em que o populismo prospera, castrando de legitimidade precisamente os atores que mais frequentemente o escrutinam.

Soma-se a esta maré pessimista uma regularidade conhecida na competição política: quando um partido procura imitar o discurso de uma força populista, dificilmente o consegue fazer com a credibilidade do original. O eleitor, mais ou menos movido por análises programáticas, mas certamente responsivo aos estímulos que destes partidos recebe, tende a preferir quem encarna autenticamente determinada narrativa àqueles que apenas a reproduzem por conveniência estratégica. Nesta medida, a adoção de uma retórica anti-media por partidos tradicionais corre o risco de produzir o efeito inverso ao pretendido: em vez de travar o crescimento das forças populistas, contribui para consolidar as condições discursivas e institucionais que sustentam a sua expansão.
Caso esta estratégia esteja efetivamente em marcha, estaremos diante um exercício de curto prazo cujos custos poderão revelar-se bastante superiores aos benefícios imediatos que promete. Se daqui advier algum sucesso eleitoral, permito-me concluir com uma paráfrase de um conhecido ditado popular: da intenção imitativa, tão pronunciada que roça o amacacado, já não se livrarão.
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06/08/2026