Delos: o berço de Apolo
Delos, na Grécia. (Créditos fotográficos: Fabrizzio Moncada – Unsplash)
“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” (Carlos Drummond de Andrade)
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O ferry parte do porto de Mykonos, uma ilha cheia de vida, e ruma a Delos, que, como consta nos panfletos de viagem, um dia teria sido uma ilha cheia de vida; hoje, ninguém vive ali, nem permanece na ilha para além das pessoas ligadas à conservação e ao funcionamento do sítio arqueológico.


(Créditos fotográficos: Chloé Lefleur – Unsplash)
O ferry desbrava um Egeu ventoso, equilibra-se por cima das ondas em pás sonoras; uma caldeira de carvão parece soltar fumo, e a embarcação avança lenta, quase dorminhoca, pelos cerca de oito quilómetros que terá de cumprir. Cumpre-os em pouco mais de meia hora.
O avistamento da ilha é fantasmagórico. Nenhuma vida humana parece visível naquela tamanha desolação. Em tempo: “Delos” não significa, propriamente, “invisível. No Grego antigo, δῆλος significa “visível”, “manifesto”, “evidente”. A sua aparência permanece sendo aquela que lhe deu o nome na Antiguidade: uma visão com imprecisão. Em idos de antanho, dizia-se que ela flutuava no mar presa às correntes. Não queria ser encontrada. A mitologia aponta que ali nasceu Apolo. Dada essa sacralidade, ninguém poderia nascer na ilha, nem morrer.

(Créditos fotográficos: Chloé Lefleur – Unsplash)
Entretanto, o seu aspeto imediato é o de um cemitério de culturas. Num passado remoto, foi uma ilha cosmopolita de grande atividade mercantil, o seu tecido populacional era intenso e vário. Desembarco a perguntar: “Então, Delos, para onde foi a sua gente? A sua vida?” Obtenho silêncio. Caminho para adiante, sempre indo decidido a perscrutar o que Delos teria sido.
Cinco leões de pedra (bem o sei: são réplicas e, ademais, havia nove leões, outrora) observam a minha passagem. Vou ao encontro dos mosaicos que, um dia, foram o chão de casas de gente rica, abonada; e que, num outro dia, foram abandonadas. A Casa de Dionísio, a Casa de Cleópatra (não aquela, a famosa egípcia – a dona tinha esse nome), a Casa dos Golfinhos, a Casa do Tridente… Atravessámos, como voyeurs, os seus espaços íntimos, os quais parecem resignados por terem sido designados para serem atração turística.

Há colunas daquilo que teria sido o Templo de Apolo, de Ísis e de Hera, mera sugestão do que foram naquela distante época. A multiplicidade religiosa indica o quanto a ilha foi marcada por diferentes culturas. A caminhada termina num ponto mais alto, onde teria sido erguido o Teatro antigo. Desde lá, tem-se uma visão privilegiada do sonho desmontado, daquilo que teria sido Delos. Uma cidade finda e, ainda assim, uma ilha grega que, como todas as outras, parece linda sob uma perspetiva turística. Não há nada ali a sugerir vida, a ilha mais parece um cemitério. Todavia, ao ser visitada, encanta pela sua desolação. E esta, por sua vez, atiça a imaginação.


Por fim, a ilha respondeu à pergunta sobre para onde teria ido a sua vida: uma cobrinha ínfima, esverdeada, autóctone, anunciou-se à minha frente. Escondeu-se no meio de um tufo de erva-de-palha (ou celidónia-menor), constituído por pequenos sóis botânicos, anúncios de Primavera. Uma gaivota pousou num amontoado de pedaços de mármore manchados de tempo e de musgo. Ela olhou para mim, como se dissesse: “Vide, aqui há vida!” Eu estava a ver resquícios de Flora e um Zéfiro a cumprimentar Fauna, na surdina.
Delos, a invisível, sugere-se que nunca há-de ser óbvia. Foi para Delos que Leto seguiu para dar à luz o bebé Apolo, às escondidas de Zeus, para que este, ciumento, não viesse a eliminá-lo. Será sempre neste simulacro de “desvida”, de “desaparecência” que Delos existirá e que persiste. Há que visitá-la atento aos seus mais recônditos sinais de vida, mas a sua existência depende de manter-se invisível para Zeus.
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06/08/2026