A gola que não protegia

 A gola que não protegia

Incêndio florestal na zona de Pedrógão Grande, drone mostra carros carbonizados. (bbc.com – imagem melhorada por IA – chatgpt.com)

O fogo que o Estado comprou

“A cegueira também é uma coisa branca.” (José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”)

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Em Portugal, aprendemos cedo a confundir proteção com aparência. O Estado não deixa de comprar escudos; só se esquece, de vez em quando, de verificar se o metal resiste ao calor. No verão de 2017, depois de Pedrógão Grande ter devorado 65 pessoas numa só tarde de junho, a Secretaria de Estado da Proteção Civil decidiu que a resposta ao fogo devia ser têxtil.

Compraram cerca de 70 mil golas de autoproteção – aqueles tubos de pano que se enrolam à volta do pescoço e da boca, prometendo tempo precioso contra o avanço das chamas.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

O material era poliéster. Um produto inflamável, sem tratamento anticarbonização, entregue a populações que viviam no limite das matas. Pagaram 1,80 euros por unidade. O preço de mercado normal, na mesma altura, rondava os 63 a 71 cêntimos. Mais do dobro. Quando o jornal  Público revelou a história, em 2019, descobriu-se que as empresas fornecedoras tinham laços com dirigentes do Partido Socialista, então no Governo. O escândalo custou o cargo ao adjunto da secretária de Estado. O produto, entretanto, continuava nas gavetas – ou pior, nas golas de quem acreditava que o Estado lhe entregara uma couraça.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Seis anos depois dos factos, em outubro de 2025, um acórdão veio confirmar o que o fogo já tinha provado: a gola não protegia. O processo – por fraude na obtenção de subsídio, participação económica em negócio e abuso de poder, com prejuízo estimado de cerca de 365 mil euros – demorou mais de seis anos a chegar a sentença.

Estreito da Calheta, na ilha da Madeira.  (Créditos fotográficos: Michael Held – Unsplash)

Mas há outro fogo que arde em paralelo, e que o dossiê principal só tocou de raspão: o fogo que consome quem o apaga. Portugal tem uma das maiores percentagens de bombeiros voluntários da Europa ocidental – cerca de 90% dos corpos de bombeiros do país são constituídos por homens e mulheres que, às vezes, recebem um subsídio simbólico, muitas vezes nada, e que arriscam a pele por uma causa que não é a deles, mas que o Estado assume como sua. Os salários, quando existem, são de miséria: um bombeiro profissional, em Portugal, pode ganhar pouco mais de 700 euros líquidos no início da carreira, e os voluntários, que são a esmagadora maioria, não têm salário – têm uma “comparticipação” que não paga a renda nem alimenta os filhos.

(lbp.pt)

As ambulâncias que os transportam para o fogo são, muitas vezes, veículos antigos, com centenas de milhares de quilómetros, que chegam às urgências mecanicamente exaustos. E o seguro de vida – esse instrumento que deveria ser a última garantia de quem enfrenta o incêndio – é, quando existe, ridiculamente baixo, ou simplesmente inexistente: muitas seguradoras recusam-se a cobrir bombeiros voluntários, classificando o ofício como risco inaceitável. O Estado que gasta 365 mil euros em golas inflamáveis deixa quem combate o fogo de verdade sem rede.

Entretanto, em outubro de 2025, a mesma instituição, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), voltou a ser alvo de buscas. A Operação “Obsequium”, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), investigava corrupção na contratação de equipamentos de proteção individual para combate a incêndios florestais  –  o mesmo setor, as mesmas siglas, os mesmos oito anos, quase ao dia, em que as golas de poliéster tinham sido compradas e distribuídas. Foram mobilizados 48 militares da Guarda Nacional Republicana e cinco procuradores para seis buscas domiciliárias e quatro a empresas do setor têxtil. A suspeita: favorecimento ilegal de concorrente, entre 2015 e 2023. A mesma máquina, a mesma porta, o mesmo cheiro a fumo.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

E como se o fogo não bastasse, em maio de 2026, a Polícia Judiciária (PJ) abriu outra frente: os meios aéreos de combate a incêndios. Duas empresas espanholas, com contratos em Portugal de 150 milhões e 25,2 milhões de euros, já tinham sido condenadas em Espanha pelo “cartel do fogo” – doze responsáveis presos, oito empresas impedidas de concorrer, por repartirem o mercado e inflacionarem preços. Em Portugal, essas mesmas empresas mantinham contratos ativos com a Força Aérea enquanto a PJ as investigava por burla qualificada, corrupção e associação criminosa.

Há uma palavra portuguesa para isto: “desenrascanço”. A capacidade de resolver um problema com o que se tem à mão. Mas quando o desenrascanço deixa de ser sobre panelas sem tampa e passa a ser sobre o Estado, transforma-se noutra coisa: a aceitação cultural de que as regras existem para serem contornadas. A gola de poliéster não foi um erro de laboratório. Foi uma cunha tecida, um jeitinho fiscalizado, um produto que falhava precisamente na função que justificava a despesa. E o pior não é que tenha acontecido uma vez. É que, oito anos depois, a mesma ANEPC estava outra vez a ser investigada por comprar proteção que não protege – desta vez, equipamentos de combate a fogo para os bombeiros.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

“Tudo isto existe. Tudo isto é triste. Tudo isto é fado.” (Amália Rodrigues, cantando Aníbal Nazaré)

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Mas não é fado. É engrenagem. O primeiro-ministro, ao apresentar o Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, classificou o aumento de 3,1% nas participações criminais – mais de 11 mil crimes a mais num só ano, num total de 365802 – como uma “pequena oscilação”, que confirmava a “estabilização” do país. Uma pequena oscilação. Onze mil crimes. É o mesmo tom que descreve uma gola inflamável como equipamento de segurança: não é mentira, se ninguém morrer a usá-la. Só que, em Pedrógão, morreram 65. E a gola, nessa tarde de junho, não estava lá para ser testada.

Cass Robert Sunstein é um advogado norte-americano,
particularmente nas áreas de direito constitucional, direito
administrativo, direito ambiental e direito e economia
comportamental, que também foi o Administrador do
Escritório da Informação da Casa Branca e Regulatory
Affairs na administração Barack Obama, de 2009 a 2012.
(pt.wikipedia.org)

A arquitetura é sempre a mesma. Não há um vilão num gabinete a decidir que as populações vão arder. Há, isso sim, uma série de decisões técnicas – a escolha do fornecedor, a dispensa do concurso, a aceitação do preço, o arquivamento do processo anterior – que, tomadas em separado, parecem burocracia. Juntas, produzem um Estado que compra pano em vez de escudo e chama a isso proteção civil. É a “Névoa Documental” que Cass Sunstein descreveu: não é preciso esconder o crime. Basta enrolá-lo em papel suficiente para que ninguém consiga ver o fumo.

O rosto que não entrou na sala do tribunal é o de um habitante da Aldeia de X, que recebeu a gola em 2017 e a guardou numa gaveta da cozinha, ao lado dos fósforos. Não é vítima com nome nos jornais. É o silêncio entre duas frases do relatório. É o bombeiro voluntário que desce da serra às seis da manhã, com o fato cheirando a fumo, e no outro dia vai para a obra de construção civil porque o quartel não lhe paga o mês. É o cidadão que aprendeu que, quando o Estado lhe oferece proteção, convém cheirar primeiro a ver se não cheira a gasolina.

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Fontes:

  • Golas antifumo e Operação Obsequium: Público, 2019 – revelação das golas de poliéster inflamáveis, ligações políticas, preços (1,80€ vs. 63-71 cêntimos); Renascença, 31 out. 2025 – acórdão do processo (fraude, abuso de poder, prejuízo ~365 mil€); Observador, 23 out. 2025 – Operação Obsequium, buscas à ANEPC (favorecimento ilegal, 2015-2023); RASI 2025 – Sistema de Segurança Interna/DGPJ, mar. 2026 – 365.802 participações criminais (+3,1%); eCNN Portugal, 31 mar. 2026 – declarações do primeiro-ministro sobre “pequena oscilação”.
  • Meios aéreos e “cartel do fogo”: esquerda.net / AbrilAbril, mar. 2025 – condenação em Espanha (doze presos, oito empresas); Renascença, mai. 2026 – investigação da PJ a meios aéreos em Portugal Bombeiros; e dados sobre ~90% de voluntários, salários iniciais ~700€ líquidos, ambulâncias antigas, recusa de seguros – baseados em reportagem consolidada do setor (recomenda-se confirmar via Liga dos Bombeiros ou Sindicato Nacional dos Bombeiros).
  • Teoria: Cass Sunstein, Sludge, MIT Press, 2021.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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10/08/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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