“Estrambul”: quão estranho me parecia Istambul
Istambul, na Turquia. (Créditos fotográficos: Anna Berdnik – Unsplash)
“Sei agora que o labirinto está andando.” (Guimarães Rosa)1
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Quem foi que inventou de construir-se aeroportos nos lugares mais feios das cidades? Os caminhos passam a serem preâmbulos distanciados das belezas que julgava-se vir a encontrar. Cheguei a Istambul, fiz o desembaraço na imigração e na aduana no conforto de poder comunicar-me em Inglês, contudo, lá fora o conforto extinguiu-se – eu não conseguia fazer-me entender.
Queria perguntar onde seria que o responsável pelo transfer estaria. Nenhuma resposta sucedia. Até que, por fim, um piloto andava lá a passar e advertiu-me: “Não será o senhor que estão a chamar no altifalante?”

Sinceramente, sim, seria. Encontrei um motorista mal-humorado dada a espera do passageiro, ele não falava nada, só pensava mil desaforos em Turco. A viagem até ao centro era desestimulante, o que se via parecia ser muito feio, cerca de 20 quilómetros4 decepcionantes, ademais incomodava-me estar silenciado em razão da impossibilidade de comunicação (linguística?) com o motorista.
Ele atendera o telemóvel, parecia, pelo seu timbre de voz, estar a culpar-me pelo “desencontro”, vociferava com impaciência com alguém. Entrei no hotel. Nas imediações, havia um incêndio, desisti de abrir a janela, era muita a fumaça. Deitei-me, fechei os olhos e ouvi um alarido proveniente de algum altifalante, haveria algum aviso de perigo que eu, ao não falar Turco, não compreendia? A voz amplificada desapareceu, entendi que era uma chamada para a oração que vinha de uma mesquita. Apetecia-me descansar, dormir. Que dia!


fotográficos: Max van den Oetelaar – Unsplash)
No dia seguinte, eu entraria numa excursão de 12 dias. Agreguei-me à coisa por causa do idioma, das facilidades de transporte, uma vez que eu poderia conhecer muitos lugares no país. Todavia, não me agrada viajar em grupo. Foi uma longa espera no saguão do hotel, ninguém vinha buscar-me. Entretanto, todos os hóspedes estavam sendo acomodados em vans. Duas horas em vão.
Eu tentava conversar com os funcionários, ninguém falava senão Turco. Até que, por fim, apareceu alguém que me entendeu. Ligou para o operador e, novamente, surgiu um motorista mal-humorado a jogar-me no meio de um grupo de espanhóis. Eles já tinham visitado a cisterna, o harém e o obelisco, encontrámo-nos na entrada da Mesquita Azul3.
A visita errante foi rápida, até porque era hora orante, as mulheres ajoelhadas iam e vinham no tapete, enquanto isso, os homens permaneciam de pé. Até então, eu não tinha dado conta da presença dela, aquela mulher, que se encontrava de pé, ao meu lado. Uma espanhola. Incomodada por não poder tirar ali fotografias de si. A não ter olhos para os azulejos azuis de Isnik, ameaçava um chilique. Em seguida, veio a Hagia Sophia2. Quanta sabedoria a minha: dei um tempo para ela entrar e sair, para eu vir a entrar no recinto.

José Luiz Bernardes Ribeiro – pt.wikipedia.org)
Quanta História existe ali. Que rica mistura de elementos cristãos e islâmicos num único templo – ainda museu na ocasião, nos tempos de hoje é somente templo. E depois veio uma visita ao Grand Bazaar, cada um havia de o visitar como quisesse, num tempo curto ou, senão, a querer voltar para o hotel, tomaria um táxi.
Cuidei de evitar a trilha tomada pela criatura, ela já me incomodava. Galinácea, dissipava-se sempre a posar em todos os lugares, irritava-me a sua pequenez a promover tamanha auto-importância; o seu cabelo tinto, hesitante entre o púrpura, o carmesim e uns fios enferrujados; a sua roupa de napa, um couro fake como ela.
Ela, não tardou a perceber a minha desaprovação relativamente à sua pessoa. Partiu para o enfrentamento! No primeiro momento, simulou uma apresentação simpática, disse quem era: uma sevilhana de Maiorca. Queria ouvir-me para compor as suas trincheiras, explodir. Eu já intuíra, permitia-a perder o combate:
“Entonces eres teólogo? Felizmente, no meu país, as igrejas estão vazias e as danceterias cheias. No és así?”

Buscou apoio no namorado e na amiga, com os quais ela estava a compartilhar um quarto. Fui preciso e irónico: “Deve ser porque muita gente se deslocou para conhecer ou para estar a rezar nas igrejas fincadas pela Espanha nas Americas, todas elas andam tão cheias!”
Ela, é claro, enfezou-se: “Entonces, eres brasileño! Nunca haverei de ir ao Brasil, vocês são…” Iria, sim, à Argentina para ver as Cataratas. Deu-me munição extra, concluí para seu estupor: “Óptimo, estarias a ver desde lá o Brasil!” Enfurecia-a. O “diálogo” terminaria assim: “Entonces, tienes raíces portuguesas? Já lá estive, nenhuma surpresa – estava a ver o pequeno quintal de casa.

Repliquei: “Ah sí!? Pena que não te desses conta da incontestável grandeza portuguesa. Não foram as laranjas azedas de Sevilha que ganharam o Mundo.
Portugal tinha-as doces5 e foi inspirado no seu nome que seriam nomeadas pelo Mundo afora. “Burtuqāl / burtuqál” (ou “burtuqálum”) para os Árabes. “Portegál”, em Farsi, para os Persas. “Portokal” para os Turcos. “Portokáli” para os Gregos. “Portocali” (ou “portocálâ”),para os Romenos. “Portokal” para os Búlgaros. E o Português seria o idioma de nove países dispersos no Mundo. Além de mais, o pequeno quintal gerou o gigantesco Brasil que…

@utku.zn – Unsplash)
Ela não esperou a conclusão, deu-me as costas e cuspiu no chão. Tenho em conta que todo ponto de vista é a vista de um ponto, passei a desapercebê-la e a olhar para a Turquia. O que foi facilitado por quem diria? Os outros espanhóis ralharam com ela e passaram a mimar-me. Com efeito, a viagem ganhou um maravilhamento efetivo.
Estávamos a assistir à dança dos dervixes numa caverna na Capadócia. A única italiana do grupo, casada com um espanhol, ao ver o constrangimento que surgiu por me terem colocado com a sevilhana na mesma mesa, em que reclamava do jantar incluso: kiwis, tangerinas, amendoins – tão diferente de Marrocos que, com certeza, era o único país que ela conhecia. “Portugal era só um quintal”, lembram-se? – tocou nos nossos ombros e citou Shakespeare (Soneto 53)6: “Qual é a substância de que você é feito? Quantas sombras esquisitas te acompanham!”
Os dervixes prosseguiram a sua ciranda a apontar uma mão para o céu e a outra para a terra, a rodopiarem num palco ora iluminado ora escuro, um cenário místico e filantropo.
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Notas da Redacção:
1 – A frase está associada a uma carta de João Guimarães Rosa a António Azeredo da Silveira, de 21 de Janeiro de 1962. A formulação mais extensa encontrada é: “Sei, agora, que o labirinto também está andando, avançando, evoluindo…”

fotográficos: Fatih Yürür – Unsplash)
2 – Hagia Sophia: o texto diz que era “ainda museu na ocasião”. Isso é historicamente correcto, se a viagem ocorreu antes de 2020. A Hagia Sophia foi museu desde 1934 e voltou a funcionar como mesquita em Julho de 2020. A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) confirma a alteração do estatuto.
3 – Mesquita Azul e azulejos de İznik: a referência aos azulejos de İznik é factual. A Mesquita Azul/Sultanahmet integra as Áreas Históricas de Istambul, Património Mundial da UNESCO, e é uma construção do século XVII.
4 – O actual Aeroporto de Istambul (IST) fica significativamente mais longe da península histórica/Sultanahmet.
5 – Estudos históricos mostram que a história da introdução da laranja-doce na Europa é mais complexa do que a afirmação categórica de uma única introdução portuguesa; a participação portuguesa na sua difusão é, porém, amplamente sustentada.
6 – A passagem corresponde, efectivamente, ao início do Soneto 53. A tradução que aparece no texto: “Qual é a substância que você é feito? Quantas sombras esquisitas te acompanham!”
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19/08/2026