Não passei por aqui impunemente

 Não passei por aqui impunemente

(aguiarbuenosaires.com)

Dentro de doze dúzias de horas estarei, assim o espero, a viajar sobre o Atlântico, rumo a Buenos Aires. Espera-me o tango, o teatro, a literatura, a ida aos glaciares e à Terra do Fogo, à Colónia do Sacramento (no Uruguai), os cafés e a imensidão da Avenida 9 de Julho. Mas, sobretudo, a minha despedida da vida.

Buenos Aires, na Argentina. (aguiarbuenosaires.com)

Não porque pense que vou morrer (necessariamente) já, mas porque, após o regresso, apresento o meu livro que defende as teses do teatro que fiz, um “derby” do meu Porto, ir buscar a minha mãe à clínica de recuperação e repouso onde está, abraçar o meu filho Joaquim com o amor imenso que lhe tenho e recordar estes dias que espero ir passar em companhia da minha namorada e de um amigo.

(Créditos fotográficos: Christian Harb –Unsplash)

Há alguma coisa mais importante na vida de uma pessoa de 72 anos? O resto, melhor ou pior, mais longo ou mais curto no tempo, é-me relativamente irrelevante. Tudo acabou por ter um sentido. Não passei por aqui impunemente. Sofri e sorri e, sobretudo, sinto que preenchi alguns pequenos vazios. Sem megalomania, nem covardia. Fiz o que soube, partilhei o que fiz.

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24/08/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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