Crónica da China: 25.º dia

 Crónica da China: 25.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

Dia inteiro de estúdio com várias visitas

Hoje é domingo, 3 de maio de 2026.

(© RUNA – Rute Norte)

Pequeno-almoço às 6h40. Eis os novos bolos comprados ontem no mercado: aquela espécie de queques minúsculos são deliciosos. O mais comprido, por cima desses queques, tem um doce amarelo dentro, de algum fruto tropical, também é muito bom. Os folhados retangulares, à direita, é que já não passaram no exame: parece recheio de chocolate, mas é algum outro doce, e muito pouco doce. E são rijos.

A manga é deliciosa.

O meu primeiro ovo cozido no fervedor não ficou suficientemente cozido: é difícil cozê-lo aqui, porque o fervedor desliga-se quando a água começa a ferver. Tenho de ligá-lo novamente, várias vezes, e ele sempre a desligar-se. Mas isto com calma irá. Esta foi a primeira tentativa, a próxima será mais persistente. De qualquer forma, aprecio bastante os ovos assim, moles.

A criança chama-se Ruien; a mãe é Tingting e o pai é Siyuan. São visitantes do parque e convidei-os a entrar.

De camisola branca, vemos a Danping. Quem veste camisola cinzenta é a Liping. Eu pensava que eram amigas ou irmãs, mas são mãe e filha. Elas riram-se. A Danping  tem 22 anos e está no 1.º ano do mestrado a tirar Engenharia Industrial e Gestão.

É a vez de a Bianca conhecer o meu estúdio. Diverte-me imenso ver as pessoas subirem e descerem estas escadas, nem sei bem explicar porquê, mas faz-me rir.
A Bianca irá ficar no estúdio onde estava o Porshz (pode rever fotos na crónica 13).

Todos os materiais que observamos nesta fotografia foram fornecidos pela residência, com exceção da espátula e do pigmento em pó, que eu trouxe de Lisboa.

Tive aqui uma fase delicada, em que não pude ser interrompida e fechei a porta do estúdio. Uma senhora ainda me visitou, mas já pouco falei com ela e não lhe tirei uma fotografia. Se forem muitas visitas, com várias interrupções, não consigo avançar na pintura. Sobretudo, porque tenho de traduzir as conversas no telemóvel. E queria pintar, agora, uma transparência azul, nesta tela.

Uma transparência, supostamente, é feita a óleo. Mas já não dá para começar a pintar a óleo, nesta altura do campeonato, porque falta uma semana para me ir embora. Se eu começar a usar óleo nesta tela, não secará a tempo. E não conseguiria avançar para outras partes enquanto este azul não secasse. Depois, as outras partes também levariam muito tempo a secar. Então pintei a acrílico.

Porém, pintar transparências a acrílico não é pera doce, porque o acrílico seca em segundos. Nem tenho tempo de espalhar a tinta e já ela secou. Por isso, fechei a porta do estúdio: uma vez iniciada a pintura, só poderia parar no fim – tenho de estar concentrada e pintar muito rapidamente. As pinceladas são muito rápidas e precisas, dentro daquela forma.

Se fosse óleo, não existiria esta pressa, porque o óleo pode levar vários dias a secar. Talvez um “medium” retardador da secagem resolvesse a questão, mas experimentei um destes produtos na última residência artística, em Itália, e não gostei nada: parecia que estava a pintar com a papa do Nestum, conforme comentei na altura. Como se chamará a papa dos bebés aqui na China? Diz-me o ChatGPT que é o “mǐfěn” – um cereal infantil à base de arroz, normalmente enriquecido com vitaminas e minerais, que se mistura com água ou leite para formar uma papa. Ou então o “zhōu”, uma espécie de papa ou canja de arroz muito diluída, preparada em casa, à qual podem ser acrescentados legumes, carne ou peixe, à medida que a criança cresce. Deve ser o “mǐfěn”, a tinta acrílica com o “medium” retardador.

São agora 17h10. Já terminei a parte azul. Eis que recebo uma última visita, súbita e inesperada, de Yang Li e do Huji. O Toni é o tradutor – conforme expliquei na crónica 4, o Toni é formado em Inglês. Foi tão inesperada, a visita que até me esqueci de tirar uma fotografia com eles. Que pena.

24/08/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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