Não passei por aqui impunemente
(aguiarbuenosaires.com)
Dentro de doze dúzias de horas estarei, assim o espero, a viajar sobre o Atlântico, rumo a Buenos Aires. Espera-me o tango, o teatro, a literatura, a ida aos glaciares e à Terra do Fogo, à Colónia do Sacramento (no Uruguai), os cafés e a imensidão da Avenida 9 de Julho. Mas, sobretudo, a minha despedida da vida.

Não porque pense que vou morrer (necessariamente) já, mas porque, após o regresso, apresento o meu livro que defende as teses do teatro que fiz, um “derby” do meu Porto, ir buscar a minha mãe à clínica de recuperação e repouso onde está, abraçar o meu filho Joaquim com o amor imenso que lhe tenho e recordar estes dias que espero ir passar em companhia da minha namorada e de um amigo.

Há alguma coisa mais importante na vida de uma pessoa de 72 anos? O resto, melhor ou pior, mais longo ou mais curto no tempo, é-me relativamente irrelevante. Tudo acabou por ter um sentido. Não passei por aqui impunemente. Sofri e sorri e, sobretudo, sinto que preenchi alguns pequenos vazios. Sem megalomania, nem covardia. Fiz o que soube, partilhei o que fiz.
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24/08/2026