Nas redes do proselitismo e da desigualdade

 Nas redes do proselitismo e da desigualdade

Em 1933, Adolf Hitler discursou perante tropas da SA (Sturmabteilung) em Dortmund, num período em que os nazistas usavam comícios públicos para consolidar o controlo político na Alemanha. (encyclopedia.ushmm.org)

(definicion.de)

“Proselitismo” é, para muita gente, uma palavra estranha e com um significado obscuro. Mas a sua prática é, provavelmente, tão velha quanto a existência de mulheres e de homens organizados ao abrigo de uns poucos com ambições de poder e que se servem dos mitos, dos ritos e das convicções individuais e colectivas para dominar. No entanto, se calhar, os mais corajosos vão resistindo a essas formas de estar e de pensar o próprio grupo ou a nacionalidade.

(notibras.com)

Esta palavra remete-nos para as noções de poder, de conformismo, de repressão e de resistência. Porém, a liberdade quer morar sempre aqui, apesar das atmosferas de tensão e de vigilância. A democracia, tal como uma sementeira, não vive sem métodos preventivos, culturais e sustentáveis para gerir as plantas infestantes e os organismos que competem e danificam o agro, o ecossistema ou a comunidade.

(arenadenoticias.com.br)

Considerando uma reflexão mais ampla, teríamos de atender ao que se tem passado ao longo dos séculos e às múltiplas formas de proselitismo e tentativas de conquistar adeptos, de converter consciências ou de impor determinada visão ao outro. A História continua a reviver as decisões das figuras tutelares nos regimes realmente controladores, muitos deles teocráticos, mais ou menos marciais, tirânicos em demasia e cruelmente limitadores das pessoas sob as suas influências religiosas e ideológicas. O povo, na sua consciência difusa e excessivas vezes apanhado de surpresa nas pulsões revolucionárias, não é (mas deveria ser) o personagem principal dos acontecimentos.

(Créditos fotográficos: Alejandro Aznar – pexels.com)

De facto, o altruísmo ou a generosidade dos poderosos raramente se coaduna com a manifesta vontade de silenciar os que questionam e criticam, recusando cumprir cegamente as decisões dos mandantes que não satisfazem as suas necessidades de cidadania ou de uma sobrevivência com dignidade. Assim, o poder não se limita a calar o dissidente; quando pode, procura igualmente convertê-lo para facilitar as coisas.

Cada gesto, cada olhar, cada palavra são vigiados pelos caciques e algozes de serviço sempre prontos a oprimir e a fazer calar quem avança para lá das fronteiras ou dos limites estabelecidos. “Ah, isso não se passa nas democracias!”, afirma alguém vigorosamente. Também por isso, as vozes dissonantes podem ser catequizadas e conquistadas, já que as grilhetas expõem uma forte marca de desespero e de revolta.

Los Angeles, nos Estados Unidos da América, em Novembro de 2017. (Créditos fotográficos: Alex Radelich – Unsplash)
(instagram.com/viajar_entre_viagens)

O protesto colectivo de cidadãos contra os governos, contra as leis impopulares ou contra os sistemas injustos nasce dos aumentos dos impostos, das inflacções e das crises económicas; mas, sobretudo, como resposta aos tiques da opressão e da fúria contra a corrupção. A nossa contemporaneidade alastra muitas dessas forças que restringem a liberdade dos povos.

Seguindo os relatórios globais mais recentes e relativos a 2025, o Instituto V-Dem (Universidade de Gotemburgo) contabiliza 87 democracias e 92 autocracias (ou Estados ditatoriais) no Mundo, enquanto a Freedom House classifica 88 países como “livres” ou de regime democrático num total de 195 nações avaliadas. Isto indica que cerca de 74% da população mundial vive sob governos autoritários, quer eles sejam fechados quer não garantam liberdades plenas.

(facebook.com/jornalexpresso)

Neste chão comum, são vários os estudos que assinalam um recuo global nos níveis de liberdade e o aumento de países com posições autocráticas ou híbridas no uso da democracia.

Como escreve Stefan Zweig na biografia sobre Erasmo de Roterdão, “[…] no fundo de si próprio, Erasmo sentiu sempre que o fanatismo, esse génio funesto da natureza humana, destruiria o seu mundo mais pacífico e a sua própria vida.”

Já depois de Erasmo, os homens e as mulheres das diferentes gerações continuam a sonhar com “um último sistema que reúna todas as formas das crenças espirituais”. Numa perspectiva ecléctica e moderadamente utópica, qual a razão de ser do movimento das “mulheres conservadoras”? De que “feminismo radical” falam estas cidadãs próximas do Chega e das organizações evangélicas do bolsonarismo? Estão mesmo dispostas a fazer recuar os seus direitos e os daquelas que sempre sofreram com as atitudes e os pensamentos reaccionários?

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 23 de Agosto) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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24/08/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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