Equador: o caminho do meio
Quito, no Equador. (Créditos fotográficos: Mauricio Muñoz – Unsplash)
“De ti, exacta, la cifra / Del princípio y el término / La plenitude del cero / La frecuencia infinita” (Francisco Granizo)
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Um dia estive a pisar com um pé no verão e com o outro no inverno. Há um lugar onde isso é possível? Sim, há: o Equador, exatamente ao meio, o igualador. Pisa-se numa linha amarela que corresponde à metade do Mundo, latitude zero.
Quito foi a última capital da América do Sul que conheci, faltavam voos directos. De súbito, quitei a lacuna: lá estava eu no meio do Mundo. Havia que “conocer-la de espacito”.


A primeira providencia seria buscar adaptar o corpo às alturas, a cidade tem muitos morros e, em alguns deles, há vulcões. Há que passear sem vir a estar intimidado pelo fogo, como o rio Guayllabamba, que, mesmo a saber que não teria água o bastante para apagar um fogaréu a descer do Cotopaxi, prossegue e faz parte do cenário, desliza a contemplar também os Pichinchas – o Guagua e o Rucu, este então faz parte do quotidiano da cidade, pode-se ir até ao começo dele por teleférico. Não pechincha tranquilidade, tem placidez. Enfim: o meio do Mundo iguala fogo e água, num relevo amassado, amansado para viver.
Dissímil mesmo é a evidente diferença dos bairros: há zonas de conforto e umas outras em conformidade com o desconforto. Gente com meios e gente sem meios, como é comum a toda a América Latina.

Há diferença também nas feições humanas: traços distintos de origens brancas e de origens indígenas, dividem-se assim e somam-se as metades naquela “Mitad del Mundo”.
Resolvi agregar-me a um “tour” para conhecer o marco da metade do Mundo e o vulcão Pululahua (estranhamente, é habitado e contém uma vila onde vivem umas 150 pessoas). Seguia viagem a querer ver da janela do autocarro tudo o que houvesse naquela metade da Terra, enquanto os jovens passageiros olhavam apenas para os ecrãs dos seus dispositivos electrónicos. “Scrolling” infinito. Viesse novamente o Darwin a estudar no Equador as suas teorias da evolução, encontraria em devolução essa involução. O marco é demarcado por uma linha amarela e é disputado pelas pessoas a quererem tirar sua a “selfie”, com um pé em cada lado. É um passeio sem pés nem cabeça. Já o vulcão impressiona, é o bónus do “tour”.

Doravante, eu desbravaria “Quito by myself”. A Basílica Nacional é para todos. Tem nada mais nada menos do que 24 capelas. Há uma para cada província do país. No Equador, é “equal”, igual a dor. Cada um reza pela sua cota existencial, equinocial. A Igreja de Jesus, com as suas paredes revestidas de ouro, é um laurel de orgulho pátrio.

Também lá fora, vende-se um chapéu feito da palha da palmata, somente naquele país nata, outro orgulho nacional. Theodore Roosevelt, um dia, usou-o numa visita ao Panamá e o chapéu ganhou fama, passando a ser chamado chapéu Panamá, até hoje a sua origem reclama. Síntese equatoriana – o capítulo no convento San Agustín, em estilo churrigueresco, apresenta colunas com frutas no meio de querubins, símbolos indígenas. E há as igrejas com estilo mudéjar, remissivas à memória do país pelo viés do conquistador.

(commons.wikimedia.org)
Lá fora alguns “quiteños” vendem folhas de coca, o palo santo em peões, escultorinhas de tartarugas e de lagartos; tapetinhos com motivos andinos e, sobretudo, refrescos: ainda que na cidade haja poucas árvores, o interior é um pomar. O sumo do tomate-de-árvore (ou tamarilho vermelho), da “uvilla” (fisális), da “naranjilla” (ou lulo), da “guayaba”, do sapote, o taxo (maracujá-banana), “achotillo” (ou rambutão) e a fruta cacto (ou figo-da-índia) estão do lado de fora. Todavia, observei quanto à igreja, as gárgulas sendo répteis, anfíbios, rosas, todos esculpidos. Enfim: toda a flora e a fauna sendo incorporadas no Sagrado, remissivo ao Éden original, em contraste com as teorias da evolução darwiniana, basicamente ateia – esse intervalo equatoriano comprova que, ao estarmos no Equador, estamos no caminho do meio.
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24/08/2026